Por que temos cada vez menos celulares top de linha no Brasil?

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Comprar um celular top de linha no Brasil pode ser um desafio. Enquanto consumidores no mercado internacional contam com opções de diversas marcas, o que torna o segmento bastante competitivo lá fora, a realidade é diferente no nosso país.

Segundo um levantamento interno realizado pelo TecMundo em outubro, o número de celulares com Snapdragon 888, o chipset mais potente da Qualcomm em 2021, é consideravelmente inferior aos lançamentos com o Snapdragon 865. Curiosamente, o modelo do ano passado também perde em dispositivos para seu antecessor, o Snapdragon 855.

Enquanto temos oito celulares com o chip de alto desempenho da Qualcomm do ano passado rodando no Brasil, os aparelhos com Snapdragon 888 fecham uma lista com cinco aparelhos em outubro: três tops de linha da Samsung, o Xiaomi Mi 11 e o celular gamer ROG Phone 5s — a contagem exclui o ZenFone 8, que chegou recentemente ao país. Em 2019, cerca de 12 dispositivos foram lançados no país com a mais alta tecnologia da Qualcomm.

TecMundoCelulares top de linha lançados no Brasil com os chips mais potentes da Qualcomm nos últimos três anos.Fonte: TecMundo

Mas qual o motivo para isso? Na verdade, existem várias razões. A crise dos chips, por exemplo, acabou influenciando a disponibilidade global de alguns celulares, como o “aposentado” Galaxy Note de 2021. Outro fator são as movimentações do mercado: a Huawei reduziu sua produção devido à briga com os Estados Unidos e a LG desistiu do segmento de smartphones neste ano.

No entanto, além das idas e vindas da indústria, algumas particularidades do mercado brasileiro também atrapalham a expansão do segmento top de linha no nosso país.

O preço que se paga

Um dos principais motivos para vermos menos celulares top de linha no país está no bolso das empresas: é caro lançar um smartphone top de linha no Brasil por causa de fatores como tributos e cotação do dólar. Por consequência, o dispositivo também acaba tendo um preço elevado para o consumidor, o que não é bom para as vendas. Segundo dados da IDC, cerca de 80% das vendas de smartphones no Brasil no primeiro trimestre se concentraram no segmento intermediário, que visa equilibrar preço e especificações.

Com uma infraestrutura de fabricação no Brasil, a Samsung é a empresa que mais lança celulares de alto desempenho no nosso país. Além de trazer a linha completa de dispositivos S21, a empresa também lançou os dobráveis Galaxy Z Flip 3 e Z Fold 3 em território nacional. Com duas fábricas e mais de 300 pontos de venda, a empresa sul-coreana produz todo o seu extenso catálogo de dispositivos localmente, incluindo os modelos high-end e dobráveis.

Segundo Renato Citrini, gerente sênior de dispositivos móveis da marca sul-coreana, a presença nacional é uma grande vantagem competitiva para a Samsung no segmento top de linha. Além da fabricação local evitar impostos de importação, a ampla presença da companhia no país facilita a distribuição e venda no varejo, além de garantir uma melhor experiência de pós-venda, incluindo garantia e manutenção.

Perseverança

Uma das primeiras companhias a trazer o Snapdragon 888 ao nosso país, a Xiaomi não tem tanta sorte quanto a concorrente sul-coreana. Presente no mercado nacional desde 2019, a marca atua no país graças a uma parceria com a distribuidora DL Eletrônicos, o que não inclui fabricação local.

Devido a isso, a empresa só disponibiliza o Mi 11 para seus clientes no país por causa do “custo Brasil”: segundo o Instituto Brasileiro de Planejamento e Tributação, até 68,76% do valor de um celular importado pode ser composto por tarifas. Como os planos para montar os produtos no país estão “em pausa” devido às instabilidades do mercado brasileiro, a gigante chinesa precisa exportar o celular para a distribuição no país, o que acaba elevando os custos. No caso do Mi 11, isso se converte em um preço na casa dos R$ 9,2 mil na loja oficial da Xiaomi no nosso país.

TecMundoO Mi 11 foi lançado oficialmente no Brasil com preço de R$ 9,2 mil, mas pode ser encontrado por valores menores no mercado cinza.Fonte: Xiaomi

No entanto, mesmo com as barreiras, a empresa não pretende desistir do segmento. Luciano Barbosa, o comandante da operação brasileira da companhia, explica que existe um alto custo em impostos para lançar um celular top de linha no Brasil via exportação, desde homologação até logística, já que a estratégia da companhia inclui vendas no varejo. Ainda assim, a empresa pretende continuar investindo na disponibilidade de aparelhos como o Mi 11 por questões de fidelização. “Fica caro, mas estamos vendo o público sair de outras marcas e buscarem um produto high-end [da Xiaomi].”

Apesar de o grande mercado consumidor brasileiro estar de olho no setor intermediário, Barbosa ressalta que o Brasil possui uma gama de usuários disposta a investir mais alto para comprar um celular de qualidade e que vai durar anos. A empresa até fez um experimento de mercado para comprovar isso: cerca de duas semanas antes de lançar o Mi 11 oficialmente no país, a companhia abriu as vendas do celular em uma varejista brasileira, e os resultados foram positivos. “Antes mesmo de lançarmos o produto, já pudemos informar que ele era um sucesso”, revela o executivo da Xiaomi.

Mesmo com o sucesso, vale ressaltar que o alto custo ainda é um limitador que segue atrapalhando múltiplos lançamentos de modelos top de linha no Brasil. O celular gamer Black Shark 3, por exemplo, não deve chegar ao país pelas mãos da DL, que representa a Xiaomi no país. Segundo o porta-voz da companhia, o celular ficaria “deslocado” no mercado brasileiro — leia-se muito caro.

“Quase top de linha”

Além das barreiras de preço, outro fator que ajudou na redução da presença do Snapdragon 888 e outros chips top de linha de 2021 no Brasil é a própria evolução da tecnologia. Como as soluções de alto desempenho estão cada vez mais potentes, as empresas estão apostando em chips “quase high-end”, que abrem mão de certos recursos para entregar um valor mais atraente. Segundo Helio Oyama, diretor de produtos da Qualcomm, o mercado brasileiro é “sensível ao preço” e soluções que trazem um melhor equilíbrio entre custo e benefício tendem a ser mais populares no país.

Segundo a Qualcomm, cada vez mais tecnologias de ponta estão chegando aos chips intermediários e tops de linha voltados para custo-benefício, como é o caso do Snapdragon 870, uma versão reformada do modelo 865. Assim, na hora de montar sua estratégia para o mercado brasileiro, as empresas acabam apostando em soluções que deixam de lado o desempenho cavalar de componentes como o Snapdragon 888, mas ainda garantem uma experiência de qualidade, com processamento rápido, câmeras potentes e 5G.

A Morotola é uma das companhias que apostou nessa estratégia: o Moto G100 foi o primeiro celular a chegar ao Brasil com o Snapdragon 870. Ao abrir mão do desempenho do Snapdragon 888, a fabricante consegue vender o celular no país por valores na casa dos R$ 3,3 mil, uma cifra bastante competitiva para as especificações do aparelho, que inclui o modo Ready For, capaz de transformar o smartphone em um computador.

A Qualcomm também ressalta que algumas fabricantes acabam utilizando chips high-end de gerações anteriores em novos aparelhos, o que também garante um melhor equilíbrio no preço, mas sem abrir mão do desempenho de ponta. “É uma questão de avaliação de custo-benefício”, pontua Oyama.

Com preço atraente e chip de ponta,
Galaxy S20 FE está fazendo sucesso no Brasil

Um exemplo dessa estratégia é o Galaxy S20 FE: lançado com o Snapdragon 865 e o Exynos 990, ambos chips do ano passado, os aparelhos chegaram ao nosso país em 2021 com um preço competitivo, o que chamou a atenção dos consumidores que buscam desempenho, mas não querem gastar tanto. A Samsung não revelou números de vendas no país, mas garantiu ao TecMundo que a “Fan Edition” do S20 está fazendo um “sucesso impressionante” no mercado brasileiro.

Espaço para os grandões

Mesmo com as empresas priorizando o custo-benefício no Brasil, a Qualcomm também pontua que ainda existe espaço no mercado para soluções premium como o Snapdragon 888. Apesar de aparelhos intermediários já contarem com recursos que incluem 5G e câmeras potentes, os aparelhos mais caros chegam para atender entusiastas que gostam de estar na vanguarda da tecnologia.

Além disso, o desempenho extra de chips premium também é um fator importante para os consumidores gamers, segundo a companhia. “Os ‘mobile gamers’ são usuários bastante exigentes e que necessitam do melhor que as plataformas têm a oferecer, seja CPU, GPU e conectividade”.

Ter todo esse poder em mãos, no entanto, pode sair bem caro. Celulares “normais” com o Snapdragon 888, como o Galaxy S21, já tem valores na casa dos R$ 4 mil, e a cifra sobe ainda mais para modelos otimizados para games: o Asus ROG Phone 5s, que traz aprimoramentos para quem joga, chegou ao Brasil por módicos R$ 13 mil. Ou seja, para levar uma máquina gamer no bolso, você possivelmente terá que esvaziar bastante a carteira.

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