A cena é clássica e deve constar em dezenas de filmes de aventura. Normalmente envolve alguns exploradores vestindo coletes de cor cáqui e chapéu de safari que precisam fugir repentinamente, correndo por dentro de florestas ou pântanos na tentativa de escapar de animais ferozes, canibais ou ladrões de relíquias armados até os dentes.

Durante a correria, o inevitável: um dos mocinhos acaba se atolando na terrível areia movediça. Com o passar do tempo, o corpo afunda mais e mais. Quando o personagem atolado é o galã da história, ele acaba sendo salvo por um macaco bem treinado ou uma donzela em trajes impecavelmente limpos e que resistem a toda a sujeira da selva.

Mas se o “atolado” for alguém de caráter duvidoso, o castigo é certeiro. O sujeito acaba afundando totalmente, deixando sobre a areia movediça apenas o chapéu de safari ― também de cor cáqui ―, que agora repousa sobre o perigo de maneira imperturbável. Seja na “Sessão da Tarde” ou no pay-per-view da TV a cabo, a “areia engolideira”, como é conhecida no norte do Brasil, é sempre fatal.

Mas afinal, que forças maquiavélicas atuam nesse fenômeno natural? Será que alguém pode mesmo morrer dessa forma? Nas seções abaixo, você encontra não apenas as respostas para essas perguntas, mas também aprende a escapar com vida desse monstro sedimentar.

Como se forma e onde encontrar?

A areia movediça pode se formar em qualquer local que possua pelo menos dois “ingredientes” básicos: um solo arenoso, composto por partículas finas e soltas, e uma fonte de água capaz de supersaturar a área. Dessa forma, ao invadir o terreno, a água acaba agitando as partículas de areia e ocupando os espaços existentes entre elas, fazendo com que a mistura se comporte como um fluido não newtoniano, ou seja, que pode ter sua viscosidade alterada de acordo com a pressão exercida sobre ele.

Normalmente, esse tipo de fenômeno acontece em áreas que possuem nascentes ou, então, em solos próximos a margens de rios, pântanos ou praias, quando em maré baixa. Mas também podem surgir repentinamente, durante um terremoto, caso os tremores façam com que águas subterrâneas, como os lençóis freáticos, emerjam para o solo logo acima. Nesse caso, edifícios podem vir ao chão com a liquefação do terreno sobre o qual foram construídos.

A aparência da areia movediça é bastante sólida, mas basta uma pequena pressão para perceber que ela não é capaz de sustentar qualquer peso. Se uma pessoa caminhar, por engano, sobre uma região dessas, começará logo a afundar, correndo o risco de ficar preso por um longo período de tempo.

Causa mortis: atolamento

O cinema transformou a areia movediça em um monstro terrível, capaz de engolir completamente as vítimas menos atenciosas, matando-as por asfixia. Mas essa é só mais uma injustiça cometida pela sétima arte: não é possível morrer dessa forma. A areia movediça possui densidade de 2 gramas por milímetro cúbico, enquanto a densidade humana equivale à metade disso. Assim, é provável que uma pessoa afunde até a cintura ou pouco acima disso, mas nunca por completo.

Entretanto, isso não significa que o risco de morte seja inexistente. Afundar em areia movediça é como ficar preso em um tanque de concreto fresco, ou seja, não é fácil sair de lá. Dependendo do caso, pode ser que a pessoa acabe ficando atolada em uma área remota, sem a possibilidade de pedir ajuda. Com isso, a vítima fica exposta aos perigos da desidratação, excesso de radiação solar e hipotermia, podendo morrer por uma dessas causas.

Além disso, a possibilidade de alguém morrer afogado na areia movediça não está totalmente descartada. Além da situação completamente patética de alguém cair de cabeça em uma região dessas, há chances de a vítima estar presa próxima ao mar e não conseguir escapar da maré alta.

Como escapar da areia movediça

Grosso modo, podemos dizer que para escapar da areia movediça você precisa fazer algo muito simples: nada. Brincadeiras à parte, como o corpo humano é menos denso do que o meio em que se encontra preso, é possível escapar de lá flutuando, como se a pessoa quisesse “boiar” em uma piscina, por exemplo.

Mesmo assim é difícil sair de lá, devido à alta viscosidade da areia movediça logo após a liquefação. Cientistas estimam que a força necessária para liberar o pé, por exemplo, é equivalente a erguer um carro de tamanho médio. Por isso, não é aconselhável retirar alguém à força de lá. Em entrevista para a National Geographic, o físico Daniel Bonn, da Universidade de Amsterdam, diz que isso pode fazer com que a vítima seja retirada aos pedaços. O que, convenhamos, não seria nada agradável.

O professor Bonn afirma que um dos métodos eficazes para se livrar dessa ameaça é contorcer as pernas de forma sinuosa. Isso criará um espaço entre a perna e a areia movediça que fará com que a água liquefaça aquela região, fazendo com que a areia fique mais solta. Porém, essa técnica deve ser executada de maneira lenta e progressiva, alerta o professor.

O importante é manter a calma e ter sempre em mente que, por mais força que alguém faça, nunca será capaz de afundar totalmente.

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