Enquanto fãs de super-heróis e leitores ávidos de quadrinhos, temos uma tendência a defender, com maior ou menor fervor, as adaptações cinematográficas de nossos personagens favoritos. Independente qual seja seu preferido, ou se gosta mais das obras da Marvel, é inegável que o encontro de Batman e Superman nas telas é um marco.

Mas ao analisar um filme como Batman vs Superman: A Origem da Justiça, temos que deixar nossas emoções acaloradas de lado e percebe seus graves problemas. O longa tinha todos os elementos para ser uma obra incrível, e em alguns momentos até vislumbra essa possibilidade – porém, o filme nunca alcança seu potencial, e o resultado é frustrante em todos os aspectos.

Quem conhece a narrativa O Cavaleiro das Trevas de Frank Miller, dos quadrinhos, sabe que há uma grande história a ser contada sobre um Batman durão e envelhecido que entra em conflito com o Homem de Aço. A HQ serviu brevemente de inspiração para este filme, mas não é seguida à risca.

Em vez disso, o confronto dos dois ícones da DC é provocado pela destruição decorrente da luta do Superman contra o General Zod (vista no filme O Homem de Aço), que levou milhares de civis à morte, incluindo funcionários da Empresa Wayne em Metropolis. Bruce acredita, como muitos outros humanos, que a presença do Filho de Krypton representa uma ameaça para a Terra.

A melhor sugestão do roteiro para o embate dos super-heróis é justamente essa briga entre homem e Deus, apresentando o Superman como um ser mitológico que surge na Terra para desestabilizar as crenças das pessoas. Infelizmente, essa proposta não se desenvolve por completo e acaba se perdendo entre várias outras ideias mal aproveitadas do filme.

Superman

O diretor Zack Snyder é possivelmente uma das piores pessoas para estar no comando dos longas da DC, e é muito difícil entender por que a Warner Bros. não deixou a franquia nas mãos de outro cineasta. Seu Homem de Aço já não foi muito bem recebido pela crítica e pelo público, e Snyder, para nossa tristeza, está contratado para dirigir os filmes da Liga da Justiça.

Existem muitas razões para implicar com a direção de Snyder. O diretor é incapaz de construir uma narrativa coesa e bem encadeada, e o filme parece pular de uma cena para outra sem muita lógica. Especialmente na primeira metade do longa-metragem, o desenvolvimento da história é sofrível, alternando entre pequenos trechos de cada personagem – deixando a obra extremamente arrastada e entediante.

Além disso, o que é ainda mais grave, o roteiro do filme é bem ruim e não consegue justificar de maneira plausível o confronto entre os personagens titulares. O Batman experiente e envelhecido é cego às boas ações do Superman, e parece ser facilmente influenciado para combater o kryptoniano. Já a motivação do Homem de Aço para lutar contra o Homem-Morcego é tão ridícula e infantil que parece uma grande piada.

A briguinha dos meninos órfãos é alimentada ainda por figuras coadjuvantes. Alfred, por exemplo, começa o filme alertando Bruce que o mundo mudou com a chegada do Superman, despertando a preocupação de se ter um ser superpoderoso habitando a Terra. Porém, quando o Batman decide ir contra o Homem de Aço, o mordomo informa que “ele não é o inimigo”.

O diretor Zack Snyder comete várias incoerências como essa ao longo de todo o filme. Em outro momento, Batman e Superman precisam combater ameaças distintas ao mesmo tempo, e se dividem. O Homem-Morcego segue para realizar um resgate e acompanhamos sua ação. Enquanto isso, o Superman deveria impedir a criação do Apocalipse, mas a narrativa esquece do personagem por um intervalo crucial de tempo, e quando o reencontramos, descobrimos que o Homem-Morcego já salvou quem precisava – mas o que o superveloz Homem de Aço ficou fazendo esse tempo todo?!

Outro atestado de como Snyder desrespeita a inteligência dos espectadores se comprova na necessidade de reapresentar, no meio do filme, uma sequência vista anteriormente no começo do longa-metragem. Podemos entender que a morte dos pais de Bruce seja um evento traumatizante e definidor da personalidade do herói, mas é um ultraje repetir os mesmos planos como se os espectadores não fossem lembrar a sequência inicial.

Batman

Aliás, podemos falar mais sobre essa lembrança da morte dos pais. Bruce fica atordoado ao escutar o nome ‘Martha’, como um pesadelo do qual nunca consegue escapar. Ótimo, mas será que o filme não deveria aproveitar para explorar outros traumas do personagem ao longo de anos combatendo o crime – como, por exemplo, se sentir responsável pela morte do Robin? Ao pensar sobre isso, vemos que o longa perde a oportunidade de criar contextos e histórias para o Batman, e fica apenas no óbvio e clichê assassinato dos pais.

Isso é bastante curioso para uma produção que tenta, de forma tão descarada, estabelecer o universo da DC nos cinemas, provocando os espectadores com ‘teasers’ de futuras produções. Sim, Aquaman, Flash e o Ciborgue são apresentados, mas de maneira tão desconexa da trama que parecem pequenos trailers dentro do filme. O longa deveria, em vez disso, sugerir mais sobre o passado de Batman e dar mais peso à sua história como vigilante de Gotham.

É interessante que o filme, com mais de duas horas e meia de duração, não consegue estabelecer uma narrativa coesa e não dá propósitos bem definidos a seus personagens. Para piorar, a bagunça de Snyder é ainda maior nas cenas de ação. Como já demonstrou em Homem de Aço, o cineasta parece ter faltado algumas aulas de direção.

Para citar um exemplo, ainda na primeira metade do filme, há uma sequência de perseguição do Batman contra funcionários da Lex Corp., com o Homem-Morcego dirigindo o Batmóvel. Snyder privilegia explosões e cortes rápidos, sem definir muito bem o ambiente em que a ação se passa e sem dar tempo para os espectadores analisarem a cena.

Nessa sequência, Snyder comente quebras de eixo, mudando a direção dos elementos de ação criando uma confusão à percepção. O diretor acha, porém, que basta aumentar a trilha sonora e usar uma música incidental empolgante para enganar os espectadores – mas é só barulho, e não conteúdo. Por comparação, basta lembrar as cenas de Batman – O Cavaleiro das Trevas com o Batmóvel nas ruas de Gotham; mesmo com algumas quebras de eixo, a ambientação é bem definida e compreendemos toda a evolução da ação.

Equipe completa

O clímax de Batman vs Superman é também feito de exageros, com explosões demais e recorrendo nos mesmos erros do terceiro ato de O Homem de Aço, novamente com excessiva destruição urbana. O filme tenta se vender como uma obra “épica”, “séria” e “sombria”, como forma de se diferenciar dos longas da Marvel, mas a verdade é que ele não é nada disso.

A questão não é ter ou não humor (e podemos dizer que Alfred e Lex são bem engraçadinhos); mas o problema é que o filme se leva a sério demais, de forma quase arrogante e prepotente, tenta ser muita coisa e não é nada a rigor. Não há nada de “sombrio” no filme, e certamente não há nada de épico na produção – até porque ele falha miseravelmente em criar uma dramaticidade crível para seus personagens.

Dito isso, é com muito pesar que vemos ícones tão populares e tão queridos dos fãs serem tratados desta forma nos cinemas, especialmente sabendo que o longa tinha todos os elementos disponíveis para ser extraordinário. Mas a verdade é que Batman vs Superman deveria ser um filme muito melhor, e poderia ser se estivesse nas mãos de outro diretor. Os fãs e leitores dos quadrinhos mereciam muito mais!

Via Minha Série.

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