Em tempos de WikiLeaks, de vazamento de dados e do cerceamento da privacidade em ambientes de rede, vem à tona a questão sobre qual é o nível de segurança que temos ao navegar na internet.

Será que estamos sendo sempre vigiados? E por quem? Pelo governo, pelas empresas de telecomunicações ou por agências de inteligência internacional?

A questão é tão antiga quanto a própria internet. Desde que surgiram os primeiros mecanismos de transmissão de dados por protocolos de rede, grupos têm se dedicado a vigiar e debater o assunto, tendo sempre em vista a proteção da individualidade e a descentralização do poder de acesso.

Em virtude dessa preocupação, teve origem o movimento cypherpunk ainda no final dos anos 80, através de um grupo informal de pessoas interessadas em discutir as políticas de privacidade e segurança na internet.

O termo cypherpunk é um trocadilho com as palavras cypher, referente à criptografia, e cyberpunk, nome da subcultura underground aliada às tecnologias de informação e cibernética, conhecida também pela sua resistência ao “establishment” e ao “mainstream”.

A força de oposição representada pelo movimento cypherpunk teve como objetivo principal devolver ao indivíduo o controle sobre a sua própria liberdade em ambientes de rede. Para isso, o grupo defendia o uso de sistemas anônimos, nos quais a criptografia de dados desempenhou um papel fundamental.

O Manisfesto Cypherpunk

O Manifesto Cypherpunk foi publicado em 1993 por Eric Hughes. As primeiras linhas do texto especificam que: “A privacidade é necessária para termos uma sociedade aberta na era eletrônica. Privacidade não é o mesmo que segredo. Um assunto privado é uma coisa que alguém não quer que o mundo inteiro saiba; um assunto secreto é uma coisa que alguém não quer que ninguém saiba. A privacidade é o poder de revelar-se seletivamente para o mundo”.

A maneira encontrada pelo grupo para proteger a individualidade e permitir as transições anônimas na rede foi escrever códigos de criptografia que inibiam o controle dos dados trafegados por agentes governamentais, institucionais ou do setor comercial. Esse recurso foi capaz de delimitar espaços particulares e reservados, fora da vista dos órgãos reguladores.

O grupo se formou através de uma lista de contatos online e do interesse comum em defender os direitos civis contra as implicações do monitoramento governamental. Os cypherpunks foram diretamente influenciados pela cultura hacker. O termo cypherpunk, aliás, foi cunhado pela hacker Jude Milhon, que ficou conhecida no mundo virtual pelo apelido de St. Jude.

Uma das frases mais célebre de Jude dizia que “Hackear é a evasão inteligente dos limites impostos, sejam esses impostos pelo governo, pelo servidor de internet, pela sua própria personalidade ou pelas leis da Física”. Jude defendia ferozmente a resistência contra os mecanismos de controle inclusive como forma de promover a mudança social e política.

St. Jude e Eric Hughes, que tiveram também um relacionamento romântico no início do movimento, foram os fundadores dos cypherpunks ao lado de Timothy C. May e John Gilmore. Os três rapazes foram capa da revista Wired na edição de maio/junho de 1993, na qual apareciam mascarados na matéria intitulada “rebeldes com causa: pela sua privacidade”.

Capa da Revista Wired (maio 1993) (Fonte da imagem: Reprodução/Wired)

Ao longo dos anos 90, muitos cypherpunks foram integrados às instituições e empresas para escrever códigos de proteção para bancos e outras prestadoras de serviços. Mesmo assim, o ativismo através da criptografia continuou, e o grupo teve seu auge em 1997, antes de perder espaço para a efervescência da cibercultura no meio digital.

De acordo com John Gilmore, os cypherpunks remodelaram o mundo: “Nós libertamos a criptografia do controle governamental para um mundo livre em termos comerciais e de programação. Nós construímos uma criptografia forte o suficiente para contornar e mudar o regime dos Estados Unidos de tal forma que a criptografia hoje pode ser desenvolvida e implantada por qualquer pessoa do mundo”.

Dossiê Julian Assange e a vigília presente

As ações dos cypherpunks originais tiveram grande influência no modelo e na política de internet que se desenvolveu nos anos seguintes. De certa forma, as questões defendidas por eles continuam presentes e ainda geram muita discussão em todas as instâncias da sociedade, especialmente porque o meio digital é utilizado cada vez mais para realizar as mais diferentes operações, tomando controle de todas as esferas sociais.

É sob esse aspecto do totalitarismo digital que surgiu a figura de Julian Assange, em 2010, com uma série de publicações de documentos secretos e vazamento de informações através do site WikiLeaks. Assange reacendeu o debate sobre os segredos compartilhados pela rede e como dados podem ser obtidos e coletados pelo uso da internet.

Em um dos documentos publicados no WikiLeaks, Assange revelou sistemas capazes de interceptar todos os meios de comunicação dentro de uma área de algumas centenas de quilômetros e armazenar todos esses dados por tempo indeterminado. Um modelo assim esteve em uso na Líbia de Gadhafi, por exemplo, como foi noticiado pelo The Wall Street Journal em 2011.

As possibilidades de aplicação de tecnologia em sistemas de monitoramento e vigilância só têm aumentado, e com ela cresce também a paranoia coletiva sobre o que é, afinal, privado e particular hoje em dia em ambientes de rede. Será que todas as nossas informações e pegadas digitais são também tratadas e repassadas conforme os interesses do governo ou de instituições comerciais?

Julian Assange (Fonte da imagem: Reprodução/The Guardian)

Exilado há cerca de um ano na embaixada do Equador em Londres, Assange publicou um livro a partir de conversas que teve no programa de TV “The World Tomorrow” com personalidades envolvidas no movimento cypherpunk dos anos 80. O livro “Cypherpunks – Liberdade e Futuro da Internet” salienta a possível transformação da internet em um instrumento de controle a serviço do Estado e do setor econômico.

Assange mostra uma profunda preocupação de que a internet possa se tornar uma ferramenta facilitadora do totalitarismo e afirma que há fortes indícios desse caminho nas práticas contemporâneas por parte de governos e grandes empresas da web, como o Google e o Facebook. De acordo com ele, há mecanismos para as instituições descobrirem cada vez mais sobre os usuários e esconderem as suas próprias atividades, sem deixar rastros dos seus atos.

As ações contra o compartilhamento de arquivos, a queda do Megaupload e o próprio cerco ao WikiLeaks são alguns exemplos que sugerem a repressão de conteúdos online e o cerceamento da liberdade democrática de enviar e divulgar materiais de domínio público. Assange contrapõe, no seu livro, o poder emancipador da internet como ferramenta de inclusão social à possibilidade de controle por estruturas inimagináveis de poder político.

Edward Snowden e o mundo do amanhã

É nesse espírito que Assange defende a atitude do ex-agente da CIA Edward Snowden que, recentemente, revelou ao mundo o sistema de espionagem do governo norte-americano. Assim como os documentos publicados pelo WikiLeaks, Snowden trouxe à tona segredos inconfessáveis da política externa do país mais poderoso do mundo e irritou muita gente no caminho.

Snowden mostrou o projeto de monitoramento global, chamado PRISM, elaborado pela Agência de Segurança dos Estados Unidos em conjunto com o FBI e com as principais empresas de tecnologias do país. O ex-agente da CIA não apenas despertou seus copatriotas sobre a vigilância do governo sobre suas conversas telefônicas e rastros digitais, mas também alertou as autoridades de outros países sobre o monitoramente de políticos, embaixadores e diplomatas de todos os cantos do mundo.

Edward Snowden (Fonte da imagem: Reprodução/The Times)

O episódio é mais uma prova de que ninguém está protegido no mundo altamente conectado de hoje. Em resposta a esses eventos, Assange continua defendendo o mecanismo de criptografia como a melhor forma de segurança para se defender e ainda conseguir alguma privacidade em ambientes digitais.

Hoje, muitos de nós não tomamos nenhuma medida de proteção por pura conveniência. Como acreditamos que não estamos fazendo nada de errado na internet, achamos que não há interesse de ninguém em seguir nossos passos digitais. Porém, o que começamos a perceber é que não há mais tempo de inocência na rede.