Sempre que falamos de carro, a ideia mais comum é imaginar um veículo de chassi retangular, feito de metal e plástico e... Com quatro rodas. Acontece que nem sempre esse tipo de veículo se encaixou nessa descrição. Apesar de propostas como as da Aptera, Elio e do i-Road (Toyota) parecerem bastante futuristas, alguns automóveis antigos já possuíam menos rodas que o padrão convencional.

A presença de carros de três rodas — que, inclusive, consomem menos combustível — não é nenhuma novidade, já se mostrando desde o surgimento dos carros a motor, com eventuais aparições no mercado ao longo do tempo.

Os pioneiros

Dependendo de qual livro de História você ler, é possível encontrar a informação de que o primeiro automóvel do mundo, o Benz Patent-Motorwagen de 1886, possui apenas três rodas. Ele foi precedido por vários veículos similares, muitas vezes movidos a vapor, cujos modelos foram definidos a partir da simplicidade pelo direcionamento da roda da frente.

E, com menos do que um cavalo-vapor de potência, e com rodas bem altas e bem espaçadas, os clientes de Karl Benz nunca tiveram de se preocupar com a falta de estabilidade que caracterizaria esse layout nas décadas seguintes.

Ainda ativa nos dias atuais, uma das fabricantes de carros de três rodas mais famosas do mundo foi fundada em 1910: a Morgan.  A empresa de carros esportivos se voltou para os modelos de três rodas simplesmente porque eles eram mais fáceis de fabricar e eram mais leves.

O pós-guerra

Várias outras fabricantes introduziram seus veículos de três rodas entre o início do século 20 e a década de 40, mas foram os efeitos colaterais da Segunda Guerra que mudaram o mercado completamente.

Muitos países da Europa, fragilizados pela guerra, viram a demanda por transporte barato para levar famílias inteiras — ainda que os materiais estivessem em falta, as opções de motocicleta tradicional e sidecar não eram seguras nem muito práticas para esse público.

Foi nesse momento que empresas como a BMW, Messerschmitt, Bond, Retaliant e outras tiraram vantagem das restrições de impostos e novas leis lançando nos anos 50 carros de três rodas com preços em conta e características marcantes.

Esses carros se caracterizavam por serem econômicos e não muito rápidos, além de possuírem estrutura leve, motor pequeno e chassi compacto. Eram elementos que possibilitavam que famílias comuns e indivíduos pudessem comprar um carro novo. Hoje em dia, esses carros são apreciados por colecionadores por seu design e motor.

Na Europa

O mercado europeu dificilmente poderia estar em maior contraste com o dos Estados Unidos, onde um negócio mais nivelado financeiramente acabou com alguns dos carros mais interessantes já produzidos. As versões originais do Mini e do Fiat 500 tinham acabado com a demanda por carros de três rodas na Europa, mas, nos anos 70, a crise do combustível mudou as coisas novamente.

Enquanto as empresas americanas reagiram à crise diminuindo o tamanho dos motores e estrangulando os V-8 com injeção de combustível e emissão de controles, a Reliant, especialista em carros de três rodas, entregou o Robin como resposta. O veículo era capaz de fazer mais de 25 km por litro e pesava menos de meia tonelada.

Os Estados Unidos rapidamente fizeram uma versão equivalente ao Robin. Ainda que não tenha feito muito sucesso, o Dale, estatisticamente, era muito próximo da criação da Reliant —  seu conceito foi criado pela Twentieth Century Motor Car Corporation.

Curiosamente, o Robin foi fabricado até os meados dos anos 2000. A razão de seu sucesso também estava em seu preço baixo, seguro barato e ao fato de que era possível dirigi-lo no Reino Unido possuindo apenas carteira de habilitação para condução de motocicletas, o equivalente à CNH categoria A no Brasil.

O século 21

Visto que carros de três rodas são muito mais baratos e simples de projetar, não é surpresa alguma que várias iniciativas de carros sustentáveis ao longo os anos tenham abraçado o formato. Em 2006, por exemplo, a Aptera Motors apresentou ao mundo o 2e.

Chamado inicialmente de” Typ-1e”, o 2e era um veículo leve, com aerodinâmica diferenciada, design futurista e duas rodas frontais. O projeto, entretanto, não pôde ser fabricado na época devido à dificuldade da empresa em conseguir empréstimo para fabricar um automóvel que não tivesse quatro rodas. Enquanto se planejava para lançar um sedan com dois pares de rodas, a companhia faliu no final de 2011.

Atualmente, o novo desafiante que tem insistido no modelo tríade é a Elio Motors, uma startup americana que está trazendo um conceito mais simples e com um motor à gasolina menor que o convencional.

O projeto da Elio, assim como o 2e, possui uma série de recursos de segurança usados em carros comuns, como airbags e freios ABS. Além disso, o fato de ter apenas três rodas também facilitaria questões legislativas, visto que o formato tem menos exigências quanto a padrões de segurança.

As vantagens que a Elio tem sobre a finada Aptera fazem toda a diferença em termos de perspectiva de sucesso. A empresa já possui uma fábrica, milhares de potenciais compradores e tem feito seu produto aparecer bastante por aí, fazendo um bom trabalho de marketing — o carro custaria apenas US$ 6.800. Ainda não se sabe se “a moda vai pegar”, mas o primeiro modelo da empresa já está em produção e tem previsão de ser lançado nos Estados Unidos no segundo semestre de 2015.