Caso já tenha viajado com algum avião de médio ou grande porte com cabine pressurizada, é provável que você tenha reparado em certo “buraco” que compõe todas as janelas de passageiros. E, bem, considerando-se que dificilmente a inclusão de um buraco ali teria motivos puramente estéticos, é fácil imaginar que deva existir alguma função estrutural, certo? De fato. E é algo até bastante relevante para a sua segurança.

Conforme explica o diretor de tecnologia da fabricante de janelas para aviões GNK Aerospace, Marlowe Moncur, em entrevista ao site io9, a estrutura ali tem o nome oficial de “furo de respiração”. Trata-se de um orifício projetado para equilibrar a porção entre as duas últimas camadas de uma típica janela para cabine pressurizada. “Espera, há várias camadas?”. Ok, vamos por partes.

Estrutura de múltiplas camadas

Antes de falar da necessidade do tal “furo de respiração”, convém primeiro conferir como uma janela para cabine de passageiros pressurizada é montada. Conforme revela o manual de manutenções do Boeing 737 (o jato para passageiros mais produzido da história da aviação), a estrutura é composta por três camadas sobrepostas de acrílico — resina igualmente resistente, transparente e maleável —, embora apenas duas delas tenham função estrutural.

No caso, trata-se das fatias intermediária e externa da janela — enquanto que a porção interna (chamada de “scratch pane”) serve apenas como um anteparo entre os passageiros e a estrutura da janela propriamente dita. São essas camadas que impedem que a cabine compartilhe pressões externas que, dependendo da altitude, são baixas demais para as funções vitais do corpo humano.

Basicamente, as porções estruturais primárias permitem que o interior da cabine permaneça com uma pressão constante equiparável a uma altitude de sete mil pés, o que ainda é bem aceitável para o organismo. Entretanto, na maior parte dos casos, apenas a última lâmina de acrílico é responsável por garantir essas condições; a porção intermediária, dessa forma, existe apenas como uma garantia extra. E, dito isso, voltemos ao referido orifício (sem gracinhas, por favor).

“É melhor pecar pelo excesso”

Conforme se pode notar no esquema exibido acima, o furo de respiração se localiza na camada intermediária da janela. É essa perfuração que garante que o espaço entre as duas últimas camadas e a cabine permaneça sempre o mesmo. Isso é necessário como uma forma de preservação da lâmina do meio (a “reserva”) que, dessa forma, apenas “entre em ação” — quer dizer, apenas é sujeitada às diferenças de pressão externa e interna do avião — caso a última camada da janela seja comprometida de alguma forma.

Não obstante, a utilização efetiva dessa camada de segurança é incrivelmente rara. Conforme reforçou Mancur ao referido veículo, todas as janelas são expostas a testes rigorosos antes de receber o selo de aprovação.

Além disso, qualquer eventual rachadura na camada mais externa da janela (a principal) é suficiente para justificar um pouso de emergência — mesmo que a camada do meio seja totalmente capaz, a princípio, de manter as condições de pressão da cabine. Trata-se da famosa filosofia do “É melhor pecar pelo excesso do que pela falta”, portanto.

Desembaçador para aviões

Por fim, Moncur também esclarece que o furo de respiração serve também para evitar congelamentos e nebulizações entre as camadas mais externas da janela. Trata-se, basicamente, do mesmo motivo que o faz ligar o desembaçador do seu carro em dias frios — ou mesmo abrir uma pequena fresta na janela.

Naturalmente, o funcionamento não deve ser 100%... Já que não é raro encontrar fotografias revelando algum nível de congelamento — tal como mostra a imagem acima.