A Primeira Guerra Virtual foi declarada. Na tarde de ontem (19), agentes do FBI fecharam o site de hospedagem de arquivos Megaupload, provocando a reação irada de milhares de pessoas em todo o mundo. Entre as acusações, estão crimes como violação de direitos autorais e outro pouco comentado, mas que merece bastante atenção: lavagem de dinheiro.

Horas após o anúncio do bloqueio do site, o grupo hacker Anonymous reagiu, derrubando o site do FBI e o de outras entidades que apoiaram o SOPA, como a Universal Music, a RIAA (Associação das Gravadoras), MPAA (Associação Cinematográfica) e até mesmo a página da Justiça norte-americana.

Embora o fato tenha ocorrido no dia seguinte a uma série de protestos de grandes sites contra o projeto de lei norte-americano, é preciso ter bastante cuidado antes de condenar ou defender o Megaupload, uma vez que as denúncias não se limitam aos direitos autorais, como é o caso da abrangência do SOPA. Segundo as acusações, há muito mais coisa errada no funcionamento do site do que você possa imaginar.

O fim do crime organizado?

Funcionários norte-americanos são presos. (Fonte da imagem: Associated Press)

De acordo com a procuradoria federal norte-americana, o site Megaupload faturou mais de US$ 175 milhões desde a sua abertura, em 2005. A maior parte desse dinheiro teria sido adquirida mediante a violação de direitos autorais, ou seja, compartilhamento de arquivos cujos autores não receberam um centavo sequer pelo uso da obra.

Além disso, muitos dos seus funcionários teriam enriquecido de maneira rápida e injustificada, caracterizando fraude em impostos e ganhos não declarados. Um dos exemplos citados é o do eslovaco Julius Bencko, designer gráfico do site, que teria recebido mais de US$ 1 milhão apenas em 2010.

Outros seis indivíduos citados no processo possuem juntos 14 automóveis Mercedes, com placas personalizadas como “MAFIA”, “HACKER”, “EVIL” e “GUILTY”. Além disso,dois Maserati, um Rolls Royce e um Lamborghini completam a lista de carros de luxo, adquiridos de uma maneira que ninguém ainda conseguiu explicar.

Além das prisões de funcionários do site nos Estados Unidos, o fundador do Megaupload, Kim Schmitz, foi preso na tarde de ontem na Nova Zelândia. Segundo informações das autoridades locais, ele teria resistido à prisão trancafiando-se dentro de uma sala-cofre com uma espingarda de cano curto.

Tráfego não declarado

(Fonte da imagem: Aurich Lawson / ArsTechnica)

O Megaupload controla 525 servidores no estado de Vírginia, nos Estados Unidos, e outros 630 na Holanda, além de pequenas centrais espalhadas pelo mundo. Ao longo dos seis anos de existência, o site foi notificado várias vezes sob a acusação de estar hospedando conteúdo ilegal, ainda que upado por terceiros.

O modelo de negócios adotado por Kim Schmitz não impediu o CEO da companhia de disparar também contra os seus concorrentes. Em uma parte do processo, de 72 páginas, há um suposto email de Schmitz enviado ao PayPal em que ele afirma que a sua equipe jurídica está “se preparando para processar alguns de nossos concorrentes e expor as suas atividades criminosas”.

“Gostaríamos de aconselhá-los a não trabalhar com sites que pagam até mesmo por conteúdo pirata, como o Fileserve, o Videobb, o Filesonic, o Wupload e o Uploadstation; eles estão prejudicando a imagem e a existência de indústria de compartilhamento de arquivos”, finaliza. Ironia ou não, é sabido que o modelo de negócios do Megaupload é exatamente o mesmo dos concorrentes citados.

Um verniz de idoneidade

(Fonte da imagem: Megaupload / Reprodução)

Correspondências como essa comprovam outra das denúncias que constam no processo contra o Megaupload. O documento alega que o site teve várias adulterações apenas para ganhar um aspecto mais legítimo. O Top 100, por exemplo, não corresponde exatamente à lista de downloads mais populares.

Os funcionários estavam cientes do risco e sabiam como o site estava sendo usado. Ao fazer pagamentos por meio do sistema de recompensas para uploaders, muitas vezes o material postado nas contas era analisado e, ainda que ilegal, como filmes pornográficos, softwares keygenerators, DVDs e CDs, ainda assim a companhia fazia vistas grossas e seguia os trâmites financeiros normalmente.

Em outro email trocado por funcionários da empresa, um dos colaboradores afirma textualmente: “Nós não somos piratas, apenas somos o meio de transporte para a pirataria”. De acordo com o PAS, que analisa o tráfego de dados de mais de 1,6 mil corporações no mundo, apenas 57% do tráfego do Megaupload é monitorado.

Sites concorrentes como o Dropbox chegam a ter 76% de conteúdo analisado. O PAS afirma ainda que entre os 20 tipos de arquivo mais compartilhados, 6 deles eram softwares, 8 eram jogos e 6 eram relacionados a filmes. Ou seja, por mais que o site alegue que os seus arquivos mais baixados são legais, o tráfego de dados mostra justamente o contrário.

A caçada continua

O caso Megaupload está sendo considerado um dos mais importantes já realizados devido à sua proporção. Localidades como Estados Unidos, Hong Kong, Holanda, Reino Unido, Alemanha, Canadá e Filipinas estão cooperando nas buscas internacionais e, além das prisões de ontem, outros 20 mandados de busca foram executados hoje em vários países.

Embora as prisões ocorram apenas um dia depois dos protestos contra o SOPA, não há relação direta entre as duas coisas e, ao que parece, a situação do Megaupload é bastante comprometedora, independente da aprovação da lei.

Seja qual for o veredicto, é preciso investigar o caso e aguardar a conclusão dos processos. Independente de os internautas estarem decepcionados por perder uma das suas principais fontes de download — e que hospedava também bastante conteúdo de acordo com a lei —, pelo visto há crimes maiores que só agora vieram à tona e merecem sim atenção por parte das autoridades.