Imagem de Valiant Hearts: The Great War
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Valiant Hearts: The Great War

Nota do Voxel
80

É possível reinventar a guerra nos video games

A grande maioria dos jogos focados em combates bélicos tem seu foco na adrenalina, nas explosões, na ação. Seja você um espião ou um militar de alta patente, a coisa toda normalmente se resolve entre headshots e granadas bem lançadas para dentro de trincheiras. Bem, como você já deve imaginar, esse não é o caso de Valiant Hearts: The Great War.

Não que exista mesmo a mais remota falta de “adrenalina” ou “ação” na chamada “Grande Guerra”, como era conhecida a Primeira Guerra Mundial — antes de ser sucedida por outro embate de proporções globais, este possivelmente presente em 9 de cada dez jogos de tiro. Afinal, ao ser formalmente encerrada em 11 de novembro de 1918, a Primeira Grande Guerra deixava o saldo funesto de mais de 9 milhões de combatentes mortos.

Entretanto, o que a Ubisoft Montpellie realmente quis foi mostrar os horrores da guerra em um nível psicológico, pessoal, e por isso mesmo muito mais intenso do que explosões e números. E o fez, assinando ainda uma das melhores direções artísticas das últimas gerações de consoles — embora com alguns pecados no front puramente “jogo”, como se verá.

Vista as suas botas ensopadas

Ao aproximar o foco sobre cinco pessoas comuns tragadas para dentro do conflito, a desenvolvedora consegue fazer com que se sinta a lama sob os pés e a agonia de talvez jamais tornar a ver um ente querido. Em vez de estatísticas, a cinco nomes que tornam impossível o distanciamento seguro de um livro didático, por meio dos quais é possível conhecer de perto, intimamente, o que foi conhecido como a Primeira Guerra Mundial.

Dessa forma, logo de início você é apresentado ao pacato fazendeiro Emile, que é arrastado para o fronte, a fim de defender os Aliados dos avanços constantes da Alemanha. Emile não tem nem mesmo o mais vago treinamento militar e, além disso, já possui avançada idade, o que muito preocupa sua filha Marie.

De fato, Marie, por sua vez, vê ainda o marido, Karl, um imigrante alemão, ser levado à força para a Alemanha, onde, assim como Emile, passa por um treinamento militar às pressas, a fim de pegar em armas o mais rápido possível.

Riqueza histórica

Uma única família dividida e colocada em lados opostos parece excessivamente dramático? Talvez, não houvesse sido esse exatamente o caso, conforme mostram os vários nacos de História que pontuam a trama de Valiant Hearts: Great War.

Mas, não, não se trata de um dramalhão historicamente respaldado. Afinal, nem tudo aqui são agruras. Em meio à tensão da Grande Guerra, o jogo também nos mostra os espíritos nobres que tomaram parte do conflito, tais como as enfermeiras voluntárias que partiam para os fronts a fim de tratar, consolar e, às vezes, até mesmo ouvir as últimas palavras de um soldado aflito, o qual deixava a vida a muitos quilômetros dos seus entes queridos.

Há, ainda, detalhes sobre o funcionamento dos correios em tempos de guerra — gratuito e, por isso mesmo, completamente saturado, levando a um enorme problema logístico. Isso e a boa e velha inventividade humana: para escapar do gás cloro dos alemães (que inauguraram o artifício em combates), soldados passaram a umedecer seus lenços em urina — já que, ao reagir com o cloro, a uréia gerava uma substância muito menos nociva para o pulmão do que o terrível ácido clorídrico.

Há ainda inúmeros outros fatos, todos pontuando de maneira coerente a trama, acrescentando um reforço histórico muito bem-vindo e jamais exagerado. Trata-se de um lembrete: a representação cartunesca de Valiant Hearts tem como estofo algo tão real quanto terrível.

Belíssima direção de arte

Valiant Hearts tem provavelmente uma das mais belas direções jamais concretizadas em um jogo de vídeo game. Contrapondo-se ao clima épico/funesto da guerra, há belíssimas imagens caricatas, cujos contornos e cores lembram uma história em quadrinhos.

Embora seja, estritamente, um jogo 2D com ação em plataforma, Valiant Hearts jamais faz perder a noção de que se propõe a representar um conflito sangrento de alcance global. Enquanto seus heróis/sobreviventes escavam, escondem-se e ajudam feridos, vê-se ao fundo e ao redor montanhas de corpos, soldados amputados, moribundos, soldados farreando em raros momentos de tranquilidade — concretizando-se em algo igualmente artístico e orgânico.

Além disso, vale um belo ponto para as trilhas e efeitos sonoros. Quer dizer, que tal escapar de um bombardeio ao ritmo cadenciado (e paradoxal) de um can-can? Isso entre outras soluções de igual bom-gosto.

Problemas no front “jogo”

A despeito da beleza gráfica e da sensibilidade de Valiant Hearts ao recontar uma guerra constantemente ofuscada pela História, é impossível negligenciar que, como “jogo”, o título da Ubisoft Montpellie não propriamente se sustenta.

Não que haja qualquer problema com a proposta “ação em 2D + adventure (point-and-click)”, é claro. Entretanto, boa parte dos “junte isso com aquilo para chegar lá” é incrivelmente óbvia, dando a impressão de ser apenas um trabalho “braçal” necessário para que a boa história do título dê o seu próximo passo.

De fato, mesmo entre as cenas de ação o desafio é algo inconstante. Nem mesmo curiosas fases com carro e os poucos chefes do jogo conseguem fazer com que um jogador razoavelmente calejado sue a camisa — limitando-se, normalmente, a apenas apreciar a paisagem.

Belo, sensível, histórico

Pode-se dizer que Valiant Hearts: The Great War é uma lição sobre como ser original ao representar uma guerra nos consoles. Em vez de momentos intensos de adrenalina, a Ubisoft Montpellie prefere puxá-lo diretamente para o âmago da guerra, com suas agruras, agonias, tristezas e esperanças — tudo igualmente pessoal e histórico.

Mesmo deixando um pouco a desejar como “jogo”, Valiant Hearts com certeza vale suas boas horas de campanha — sobretudo para quem acha que pode haver um universo bélico para além dos headshots e das explosões.

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Pontos Positivos
  • Traz a Primeira Guerra Mundial para bem perto do jogador
  • Belíssima direção de arte
  • Fuga veicular embalada por can-can!
  • Detalhes e curiosidades retratam de forma rica o combate
Pontos Negativos
  • Não há realmente um grande desafio (não há um "jogo", propriamente)