Imagem de The Tomorrow Children
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The Tomorrow Children

Nota do Voxel
50

A glória e a queda do Minecraft comunista

É sempre divertido ambientar jogos na época da Guerra Fria, especialmente mostrando o lado da “exótica” União Soviética. Não faltam militares com cara mau-humorada, cientistas loucos, pessoas frias, o clima pessimista, tenso e cinza de Moscou — Papers, Please e Mother Russia Bleeds são só alguns exemplos. E se isso já é legal, imagine quando o universo é uma versão distópica da URSS, em que tudo deu errado, mas todos esses elementos patrióticos e idealizados permanecem.

É por aí que começa The Tomorrow Children, desenvolvido pela Q-Games (série PixelJunk e Nom Nom Galaxy) em parceria com o estúdio da Sony no Japão. O título traz elementos de construção, vivência em comunidade e exploração de uma forma original, fugindo de títulos como Minecraft, mas ainda englobando elementos de sobrevivência e coleta de recursos.

Apresentado em 2014, ele passou por um Beta público e só agora foi lançado ao público. Só que uma proposta original às vezes tem tanta coisa a provar que acaba se perdendo em um mar de novidades. E é disso que falamos na análise a seguir.

A Mãe Rússia deu errado

The Tomorrow Children se passa em uma versão distópica da nação da União Soviética, quando “experimentos que deram errado” acabam com o mundo como o conhecemos ao tentarem criar uma espécie de consciente coletivo. O que sobrou é uma região vazia chamada “Void”, que precisa ser explorada e desenvolvida para devolver a glória à humanidade. Você assume o controle de um dos inúmeros clones de projeção que foram criados pelos sobreviventes para explorarem o Void e as ilhas ao seu redor (geradas de forma procedural, como em No Man’s Sky, e cheias de monstros e recursos), reconstruírem cidades e se desenvolverem novamente.

O começo do game é muito, muito promissor. As explicações sobre quem é você e onde você está são bem completas, a premissa é mostrada de forma clara e os primeiros tutoriais ensinam vários comandos básicos (andar, usar itens de escavação, iluminar cavernas e por aí vai) com sucesso. É só depois de algum tempo que você percebe que a experiência desanda.

Não entendeu tudo? Você não está sozinho

Um dos problemas de The Tomorrow Children é a quantidade insana de informações jogadas na sua direção logo quando você vai para uma das cidades e começa a sua rotina cotidiana. São muitos itens, uma janela de status e habilidades sem fim, ações que precisam de certas permissões para serem feitas, diversos indicadores que mostram se a sua cidade está florescendo ou decaindo… E pouquíssimo é de fato explicado. Você tem que aprender com o tempo ou passar muitos minutos lendo os manuais.

Olha só: você precisa aumentar o nível de patriotismo da cidade, coletar recursos, pegar dinheiro virtual para comprar itens melhores, trocar de uniforme (engenheiro, militar e por aí vai) para fazer determinadas tarefas, buscar a sua ração diária pelos trabalhos feitos e encarar monstros gigantes que querem destruir o seu vilarejo — tudo ao mesmo tempo e com você caindo de paraquedas na situação.

Assim, você se sente perdido com tanta coisa para fazer e não sabe nem por onde começar, já que é preciso manter a cidade sempre em crescimento. É aí que vem a segunda grande frustração com o jogo: toda a ideia de conviver com outros jogadores vai por água abaixo quando as possibilidades não são tão livres ou divertidas assim.

Vivendo com os camaradas

A vivência em comunidade e a construção coletiva é o grande pilar do game e, infelizmente, ele falha gravemente nisso. The Tomorrow Children incorpora elementos demais, mas nenhum deles é complexo como deveria. Parece que cada setor ficou incompleto ou foi finalizado de forma simples para que outros sistemas de avaliação ou ranqueamento fossem criados em paralelo.

Tem também a chance de você cair em uma cidade em que a comunidade não colabora, os jogadores ainda não aprenderam todos os comandos (por conta do item explicado acima) e a cidade vai por água abaixo. O sistema de comunicação entre jogadores é bastante escasso e não há como organizar direito um grupo de pessoas — ou seja, no fim das contas, o gameplay é um grande amontoado de jogadores individualistas fingindo que trabalham juntos.

Além disso, os puzzles para fazer itens (pois é, você precisa pensar um pouco para manufaturar alguns objetos) quebram o ritmo do game e frustram ainda mais. Esse sistema de fabricação ainda é bastante limitado, já que você precisa obedecer a uma série de critérios e escolher entre poucas possibilidades. A liberdade que o cenário e a própria cidade parecem oferecer é removida pela simplicidade.

No fim das contas, também não há grande senso de recompensa ou desenvolvimento. Sim, você ganha novos itens e a cidade de fato pode florescer, mas você não pode ser criativo na montagem do município, por exemplo.

Uma nada mole vida

Ter que pegar ônibus para as áreas de exploração com direito a tempo de espera pelo veículo e mais espera ainda por conta da viagem, ficar na fila atrás de outros jogadores para resolver os puzzles de manufaturar objetos e ter uma série de restrições para concluir ações básicas é criativo, porém o estúdio não parou para pensar que isso, na verdade, é uma parte frustrante e monótona já na vida real. Imagine então em um game.

A desenvolvedora poderia facilmente ter cortado alguns segundos em cada um desses exemplos, deixando a aventura mais dinâmica. A navegação ainda é dificultada pela falta de mapa para direcionar o personagem.

E há a questão financeira: o mundo comunista de The Tomorrow Children pode ser “burlado” por microtransações bem capitalistas que garantem mais recursos mais rapidamente (e isso até pode servir de crítica social, além de garantir trocados para a desenvolvedora). Provavelmente por conta do objetivo de convencer você a gastar, a coleta de recursos e a compra ou manufatura é lenta e chata. Você espera esse tipo de limitação de um jogo mobile gratuito para jogar, mas não de um título como este.

A boa e velha pátria

Parte da originalidade de The Tomorrow Children diz respeito ao visual do game. Os gráficos não são um primor, mas esse nunca foi o objetivo. A ideia é criar a atmosfera pesada, pessimista e destruída de uma União Soviética que deu errado misturada com um mundo de fantasia e ficção científica — e eles conseguem isso com primor. Você de fato sente a atmosfera carregada, as construções acinzentadas e a rigidez dos seus “chefes”. Já a iluminação, que vem de lâmpadas ou até plantas fluorescentes, é muito bem-feita e ajuda a criar o clima artificial. Alguns estabelecimentos, reduzidos a marcas no chão, parecem até uma homenagem ao filme "Dogvill". Já a música instrumental não poderia remeter mais à época, e os poucos efeitos sonoros são apenas os necessários.

A jogabilidade é fruto de uma engine própria da Q-Games e mostra que pode ser ainda mais bem aproveitada em outros títulos, já que não executa tudo do que poderia aqui. Os controles são fluidos e respondem muito bem no comando do personagem. O esquema de botões usando os gatilhos “L” e “R” para selecionar objetos do inventário funciona bem e é rapidamente dominado.

Vale a pena?

The Tomorrow Children traz vários elementos interessantes de ambientação e uma premissa no mínimo curiosa. Os gráficos e sons são bem-feitos e a engine da Q-Games tem potencial. Porém, a execução mal-feita, as limitações impostas e o clima de “rotina da vida real” de um sistema opressor fazem com que o título simplesmente não funcione.

Ser uma crítica social misturada com sátira do trabalho sistemático, da falta de individualismo e do sistema opressor no qual o comunismo pode se transformar é uma ideia bastante válida. Porém, transportar isso quase na íntegra para um game e não oferecer elementos cruciais (diversão e algum grau de liberdade, por exemplo) até entregam a mensagem, mas prejudica a experiência final.

A ideia de ser monótono, vazio e deprimente é justamente a sensação que os desenvolvedores querem passar — afinal, você é um clone com um trabalho braçal em um mundo destruído. O problema é que o game não vai além disso e você aos poucos acaba absorvendo a infelicidade, irritação e monotonia da sua rotina virtual.

Se for para jogar um título de contemplação e exploração com poucas coisas para fazer e muitas para visualizar, a experiência mais solitária e lisérgica de No Man's Sky acaba sendo mais recomendada.

Pontos Positivos
  • Os controles e comandos são bons e têm potencial
  • Toda a ambientação e a trilha sonora são bem pensadas
  • Há coisas interessantes e bizarras para explorar
  • O sistema de comunidade é bem pensado
Pontos Negativos
  • O sistema de comunidade é mal executado
  • É muita coisa para se ler, fazer e aprender sem explicação
  • Ações e criações são limitadas e repetitivas
  • Você não consegue escapar da monotonia