Imagem de Babylon's Fall
Imagem de Babylon's Fall

Babylon's Fall

Nota do Voxel
55

Babylon's Fall está longe de ser uma nova joia da PlatinumGames

Nunca escondi que a desenvolvedora japonesa PlatinumGames sempre foi uma das minhas favoritas, quem me conhece sabe. Para terem uma ideia da paixão deste redator que escreve para vocês, os jogos da Platinum são os únicos da coleção que ainda faço questão de ter em mídia física. Eu amo o gênero hack'n'slash e tento protegê-lo a todo custo, até por não haver tantos representantes dele na atualidade, mas foi difícil defender Babylon's Fall. É difícil advogar para um jogo que tem tantos problemas.

Se você acha que a Platinum passou por um momento conturbado durante sua parceria com a Activision, que nos trouxe The Legend of Korra, Transformers: Devastation e TMNT: Mutants in Manhattan numa janela de três anos, entre 2014 e 2016, espere só para ver essa nova fase da empresa, cuja ambição é criar um catálogo de games como serviço.

A julgar pelo lançamento de Babylon's Fall, esse definitivamente parece não ser um bom caminho para o estúdio que produziu as melhores experiências do gênero nos últimos 12, 13 anos, de Vanquish a Bayonetta, de Nier: Automata a Astral Chain. Embora eu já classifique Babylon's Fall como o pior título da Platinum, preenchendo um posto até então ocupado por Anarchy Reigns, não vou negar que ele até tem seus (raros) momentos de diversão. Confira a nossa análise:

Platinum, Platinum…

Aos jogadores que nem sequer ouviram falar de Babylon' Fall, vamos lá: trata-se de um RPG de ação que segue à risca a estrutura dos GaaS (sigla para “Games as a Service”, “Jogos como Serviço”, em tradução livre). Desenvolvido pela PlatinumGames e publicado pela Square Enix, ele segue a linha looter-slasher de Godfall, título que debutou com o PlayStation 5 em 2020.

Por ser um game como serviço, com atualizações e DLCs pensados no longo prazo, ele permite que você se aventure em um grupo de até quatro combatentes para desbravar os andares da Torre de Babel em busca de equipamentos melhores. No fim do dia, o objetivo se resume a fortalecer o seu herói, aqui conhecido como Sentinela, com novas armas e armaduras.

Eu sei que vocês estão ansiosos para saber como funciona o combate de Babylon's Fall, que é o que realmente interessa num jogo da Platinum, mas antes de trazer a parte boa eu gostaria de esclarecer alguns pontos. Para começar, Babylon's Fall é um dos títulos mais, digamos, desprovidos de beleza da atual geração. A versão que joguei é a de PlayStation 5, só que tive a sensação de estar num PlayStation 3.

Fonte:  Voxel 

De verdade, ainda não consigo entender como um game lançado em 2022 consegue ser tecnicamente inferior a um Bayonetta, por exemplo, de 2009. A Platinum ficou conhecida por construir experiências atemporais, tanto em visual quanto em gameplay, porém isso se perdeu completamente aqui.

Não consegui captar direito o estilo artístico que a produtora tentou adotar em Babylon' Fall, com personagens e cenários que parecem ter sido suavemente pincelados. Ao invés de a Platinum ter tentado amadurecer a estética elegante de seus últimos jogos, ela virou a chave para entregar o visual mais genérico e borrado que eu já vi no PlayStation 5. É terrível, para dizer o mínimo.

Itens, inimigos e NPCs, por exemplo, não têm o design memorável que os demais títulos da PlatinumGames costumam ter, tampouco os cenários genéricos, que são corredores lineares reaproveitados de áreas anteriores, com pouquíssimo espaço para exploração e entediantes desafios de plataforma. A exceção fica para a modelagem de alguns chefes com aquele visual bonitão e angelical à la Bayonetta.

Fonte:  Voxel 

O loot, aliás, adquirido em baús e criaturas abatidas, passa longe de estimular a repetição característica do gênero. Mesmo que o título ofereça dezenas de armas e armaduras de diferentes níveis de raridade, de espadas e arcos a cajados e escudos, dá para contar nos dedos quantos itens realmente têm potencial de instigar o jogador a consegui-los, de despertar o interesse.

Não há, portanto, um estímulo visual para farmar nas missões com o intuito de obter novos equipamentos, o que é um problema sério para um game cuja proposta gira em torno de evoluir o personagem exclusivamente por meio do loot. Por conta da falta de criatividade na concepção dos itens, incluindo também os trajes meramente cosméticos, você trocará de armas e sets o tempo todo só para ver o nível do Sentinela aumentar, sem se apegar ou valorizar o que conseguiu.

De volta aos anos 2000

Quem me conhece de outras análises do Voxel sabe que eu evito dar detalhes adicionais da história, isto é, que fogem da premissa básica, então aqui não será diferente. Por se tratar de um jogo como serviço, é natural que a narrativa não ganhe a devida atenção e seja só um pretexto para repetir de forma incessante as mesmas atividades.

Fonte:  Voxel 

Em Babylon's Fall, você assume o papel de um Sentinela, um guerreiro que, graças às forças de um dispositivo parasita conhecido como Gideon Coffin, símbolo de devoção ao império Domitinian, adquire poderes especiais. A grosso modo, sua missão é escalar a grande Torre Ziggurat (a tal Torre de Babel), única herança deixada pelos babilônios após sua extinção, para confrontar seus protetores, os Gallu, ao mesmo tempo em que procura uma cura para a misteriosa “Morte Azul”.

Ainda que a trama não seja incrível e deixe a desejar pela falta de carisma dos personagens, a dublagem japonesa é um dos atrativos — e talvez o único para alguns — para fazer você progredir sem pular todas as cenas e diálogos. Mas esteja avisado: não há textos em português.

Já as cutscenes causam uma péssima impressão inicial, pois parecem ter saído de um jogo do começo dos anos 2000, da geração do PlayStation 3 e Xbox 360, com bonecos granulados e cenas com cortes abruptos, coisa para deixar qualquer diretor de cinema de cabelo em pé. A trilha sonora, por sua vez, é um dos pontos altos e enaltece o tom épico de grandes aventuras, embora Babylon's Fall não seja uma delas.

Fonte:  Voxel 

A progressão é ok, mas quem realmente salva a pátria é o combate

Sejamos honestos: mesmo sendo genérico e pecando em apresentação e visual, Babylon' Fall sacia o nosso apetite de Platinum no combate. Fato. Pode não estar à altura do hack'n'slash de Bayonetta e Nier, é verdade, mas é competente o bastante para se destacar entre outros títulos do gênero. No fundo, há resquícios da genialidade da PlatinumGames norteando a pancadaria.

Você pode carregar até quatro armas distintas para um mesmo personagem, sendo que duas são usadas para ataques leves e pesados — botões quadrado e triângulo, respectivamente — e dois especiais mapeados nos gatilhos R2 e L2. No começo da aventura, senti uma certa dificuldade em engatar sequências poderosas de ataque, justamente por não compreender que os especiais, medidos por uma barra vermelha alocada no canto superior esquerdo da tela, devem ser usados sempre que possível.

A graça do combate reside em saber gerenciar os ataque especiais, embora isso não fique tão claro no começo da jornada. Os golpes mais fortes, esses especiais, devem ser intercalados de maneira inteligente com as investidas mais simples, que regeneram a barra de poder quando desferidas com sucesso. Como de praxe nos jogos do estúdio, você pode se esquivar dos inimigos e ser beneficiado por isso se souber executar a ação no momento certo.

Fonte:  Voxel 

Ao desviar de um ataque, o tempo não apenas desacelera, mas você também ganha a chance de quebrar a guarda do inimigo, de modo a desestabilizar temporariamente sua postura. Uma vez que o jogador entende o ritmo e a dinâmica dos confrontos, a repetição passa a fazer mais sentido e se torna mais prazerosa.

O incentivo para continuar jogando, portanto, acaba sendo o combate, nem tanto a progressão em si. Ao final da batalha, você ainda recebe uma nota pelo seu desempenho, levando em conta alguns critérios importantes, como combos executados, variedade de ataques, tempo e dano absorvido. É bacana, eu particularmente sempre gostei desse sistema de “notas” dos games da Platinum.

Falando em progressão, o sistema de níveis, como já mencionei em um parágrafo acima, é baseado em itens. Em resumo, o nível do personagem é uma média de todos os itens equipados por ele naquele momento, das armas às peças de armadura. À medida que você progride, áreas de níveis mais altos são desbloqueadas, tal como recompensas melhores para facilitar suas próximas visitas à Torre.

Fonte:  Voxel 

Por mais que o jogador seja incapaz de criar uma relação com o loot genérico, ao menos há um bom senso de progresso quando enfeitamos o personagem com apetrechos melhores, apesar da necessidade de revisitar as mesmas missões inúmeras vezes. Não há nada de novo, mas tudo bem: o loop viciante que conhecemos de outros games como serviço até que está bem representado.

Não posso esquecer de mencionar que, sim, por ser um GaaS, o título funciona muito melhor em modo cooperativo, ao jogar com outros três Sentinelas, ainda que seja possível fazer missões sem ajuda. No entanto, não recomendo que você encare o jogo como um single-player, pois o balanceamento para quem está se aventurando sozinho não é dos melhores — e essa nem é a proposta. Certas batalhas contra chefes, por exemplo, que viram verdadeiras “esponjas”, podem durar bons minutos e frustrar os mais impacientes, especialmente se considerarmos que o jogador só tem direito a cinco tentativas.

Durante os testes, tive uma certa dificuldade de encontrar outras pessoas, provavelmente porque o número de usuários ativos ainda não é tão alto, mas o matchmaking funcionou bem sempre que precisei, sempre que o servidor esteve populado. Além disso, ainda há suporte a crossplay, então pude me aventurar com a galera do PC sem qualquer dificuldade ou restrição.

Fonte:  Voxel 

Conteúdo generoso e microtransações desnecessárias

Em termos de conteúdo, Babylon's Fall é generoso e quer que você passe horas e mais horas em seu mundo. Há missões de história e secundárias, além de atividades semanais, diárias e de temporada, que concedem itens e materiais valiosos como prêmio. As tarefas são acessadas a partir de um hub no melhor estilo Monster Hunter, um lugar que você usa para relaxar, interagir com jogadores reais e NPCs importantes.

É nesse hub que você pode, por exemplo, alterar o status dos equipamentos e criar itens a partir da estação do armeiro, um local que é destravado em momentos mais avançados da campanha, para Sentinelas que já estão fortes e aptos a encarar desafios maiores na Torre. Há, naturalmente, microtransações a torto e a direito, mas eu não senti necessidade alguma de investir em Gaz, a moeda comprada com dinheiro real, cujos pacotes variam entre 15 e 500 reais na PlayStation Store — até porque os itens cosméticos não me agradaram tanto, o que tornou o passe de batalha irrelevante.

Veredito

É num misto de tristeza e desapontamento que digo: Babylon's Fall é a experiência mais genérica e desinteressante da PlatinumGames até aqui. Estamos diante de um “Godfall 2.0” — não vejo uma forma mais fácil de descrevê-lo —, um título com mais defeitos que qualidades. Posso queimar a língua (e espero mesmo que queime), mas ele não demonstrou ter capacidade de se sustentar no concorrido segmento de jogos como serviço, seja por seus problemas estruturais ou por simplesmente não oferecer a excelência técnica que seus concorrentes entregam.

Contudo, mesmo com tantas ressalvas, ainda acredito que o game possa melhorar com o tempo, uma vez que ele tem conteúdo de sobra para ofertar e sistemas de combate e progressão satisfatórios. Babylon's Fall até tem seus raros momentos de brilhantismo, só não está à altura das joias brutas que seu estúdio está acostumado a produzir. Talvez valha pegá-lo numa promoção se você for muito fã do gênero.

Babylon's Fall foi gentilmente cedido pela Square Enix para a realização desta análise

Nota do Voxel: 55

Pontos Positivos
  • O combate requer adaptação, mas é divertido
  • Matchmaking eficiente e suporte a crossplay
  • Ótima trilha sonora
  • Generoso em conteúdo, com dezenas de horas de gameplay
Pontos Negativos
  • Parece ser um port de PlayStation 3, não há nada da atual geração aqui
  • O loot genérico não traz o mesmo apelo de outros jogos com a mesma premissa
  • Cenários monótonos e excessivamente lineares
  • Exagera na dose de repetição (em todos os sentidos)
  • Embora seja possível jogar sozinho, encará-lo como um single-player pode ser frustrante
  • Microtransações desnecessárias