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Os videogames estão nos deixando mais inteligentes?

schedule12/05/2009, às 08:05

Os videogames estão nos deixando mais... inteligentes?Imagine, por um momento, a rotina básica de um jogador da atual geração de games. A cena é típica: enquanto bola uma intrincada estratégia para estender o seu domínio pelas vastidões agrestes do oeste americano em Empire: Total War, ele pode, eventualmente, responder algumas mensagens no MSN. O celular tocou? Tudo bem, basta atendê-lo, isso enquanto rola Cachorro Grande em alto e bom som.

Em um segundo momento, o que passa a tomar a atenção são os feitos inacreditáveis de Nero (Devil May Cry 4), distribuindo combos que quebram a barreira do som e produzem alguns efeitos verdadeiramente fantásticos e quase reais na tela de uma televisão de alta definição. Sai de cena a estratégia e a habilidade multifuncional. O foco agora é responder rapidamente ao andamento frenético do jogo, sem deixar passar o momento perfeito para encadear aquela gigantesca sequência de golpes.

Convenhamos, seja qual for a sua habilidade particular ao jogar videogames, é certo que hoje é necessária alguma bagagem para conseguir acompanhar os mais complexos, rápidos e intrincados desafios criados pela indústria de games e, de forma geral, pela própria tecnologia. Assim sendo, fica a pergunta: será que os videogames estão nos deixando mais... inteligentes?

Bem, mesmo contradizendo muitos pais mais tradicionalistas, é hoje quase um consenso entre os pesquisadores da área que sim, os videogames têm estimulado enormemente as capacidades das gerações mais atuais — sobretudo aquelas que já nasceram cercadas de tecnologia por todos os lados; como o nosso amigo hipotético citado acima, que se vale da tecnologia moderna tanto para estudar quanto para jogar e se comunicar com os amigos.

Segundo especialistas, esse desenvolvimento teria acompanhado a evolução da própria indústria do entretenimento, hoje muito mais estimulante e complexa. Quer dizer, se alguns anos atrás os seus pais poderiam se divertir aos montes assistindo as previsíveis aventuras dos policiais de Chips (Hã? Quem?) ou mesmo acompanhando as engraçadas — embora intelectualmente questionáveis — perseguições de Tom & Jerry, hoje a onda é programas e desenhos mais complexos, como CSI: Investigação Criminal e mesmo o eticamente dúbio Bob Esponja.



Para colocar em números, estudos recentes revelaram que o Q.I. (Quociente de Inteligência) médio cresce a uma razão de quatro pontos por década nos países de primeiro mundo. No Brasil, a subida foi de 20 pontos desde a década de 70 até agora. É claro, outros fatores também são utilizados para justificar essa argúcia das gerações mais recentes, como condições de saúde, padrões de alimentação. Mas, basicamente, pode-se dizer que o Q.I. das crianças hoje é, em média, 25% maior do o dos seus avós.

Entretanto, questões culturais atreladas ao desenvolvimento tecnológico não deixam dúvida: o entretenimento hoje está mais complexo e desafiador (salvo as muitas baboseiras que saem em muitos canais de TV, é claro), e isso tem se refletido diretamente nas potencialidades dos mais jovens. Será que nós finalmente estamos trocando o ioiô e o pião pelos jogos eletrônicos e os programas de mensagem?




Os videogames
De vilões a heróis

Os videogames poderiam ser colocados no epicentro dessa vanguarda tecnológica. Embora tenham sido tratados durante alguns bons anos como uma espécie de bicho-papão que promulgava a violência e afastava os mais novos dos afazeres mais “nobres”, hoje esse quadro tem mostrado algumas alterações significativas.

A contragosto de alguns ativistas antitecnologia, estudos recentes mostram que os jogos eletrônicos podem sim ser considerados como o carro-chefe das novas tecnologias responsáveis pela guinada intelectual das gerações recentes. Aparentemente, o bom e velho videogame é a forma de lazer que mais partes diferentes do cérebro exercita.
Jogos de ação: melhora nas capacidades visuais, espaciais e motoras... nada mal
 

Há quem faça inclusive um paralelo com o universo das ciências. Segundo disse à Veja, James Paul Gee, professor da área de educação da Universidade de Winsconsin e autor do livro O que o Videogame Tem a nos Ensinar Sobre a Aprendizagem, a maioria dos games faz com que o jogador siga caminhos de raciocínio muito semelhantes aos dos cientistas.

Gee afirma que todo jogo demanda um ciclo de raciocínio para que se possa resolver algo: construir uma hipótese, testá-la, refletir sobre os resultados e tornar a testá-la para obter resultados melhores. Isso ajudaria os jogadores a pensar em termos de conjunto, de partes que se associam, e não mais em eventos isolados.
Raciocínio empregado nos games emula métodos científicos
 
Já a neurocientista Daphne Bavelier, da Universidade de Rochester, conclui que jogar videogames regularmente desenvolve a capacidade visual, a orientação espacial e a coordenação motora. A pesquisa foi feita com três grupos distintos de acadêmicos da própria faculdade, sendo que nenhum deles havia jogado videogames antes.

O primeiro grupo passou o tempo jogando Medal of Honor, o segundo se dedicou a jogar Tetris  e o terceiro ficou sem jogar nada. Conclusão? Nos testes efetuados dez dias depois, envolvendo capacidades visuais, espaciais e motoras, o grupo do agitado Medal of Honor levou a melhor. O curto período de tempo ainda mostrou que o desenvolvimento promovido pelos videogames pode ser mais rápido do que se imaginava.



Cada vez mais reais
A realidade virtual como fator diferencial

Se o inexorável desenvolvimento tecnológico das últimas décadas tem sido o pivô do desenvolvimento intelectual, isso certamente se torna bastante evidente nos videogames. Se não, basta lembrar o enorme exercício de abstração que alguém deveria fazer durante os anos 80 para imaginar que alguns quadradinhos se movendo na tela representavam mesmo um carro de corrida.

Além disso, como comparar a complexidade da trama de um Fallout 3 ou de um Metal Gear 4 com alguns dos clássicos das primeiras gerações? É claro, existem exceções nesse campo. Entretanto, fato é que hoje a indústria do entretenimento eletrônico alcançou recentemente um pico que há pouco tempo atrás pertencia apenas à badalada indústria de filmes de Hollywood.

 

De fato, os videogames hoje movimentam somas tão vultosas quanto às da sétima arte. E, é claro, esse avanço todo — que se reflete em carros cada vez mais realistas, cenários que respondem à condição atmosférica vigente ou mesmo heróis que desencadeiam espetáculos visuais que deixariam qualquer jogador dos anos 80 de cabelo em pé — tem melhorado constantemente a qualidade dos jogos. E isso, é claro, fornece um alimento intelectual cada vez mais rico para os aficcionados.

Bem, e qual será o limite para isso? Será que uma possível imersão completa em algum universo virtual seria capaz de desencadear um salto nas gerações vindouras? E qual seria o futuro das relações sociais (hoje tremendamente diferentes daquelas de dez anos atrás)? O denominado público casual pode acabar fazendo a balança pender para outro lado?

Embora para essas coisas nada seja melhor que o tempo, seria uma tremenda alienação negar que o nosso entretenimento, de hoje, de fato se encontra em um estágio de complexidade relativamente avançado. E, se por um lado isso cria pessoas mais afeitas a desafios, gerenciamento e estratégias, por outro está conduzindo a humanidade para um território ainda desconhecido. É esperar para ver.
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