A Arc System Works é uma das desenvolvedoras mais prolíferas quando o assunto é jogos de luta. Além de contar com várias franquias próprias, como Blazblue e Guilty Gear, o estúdio tem uma larga experiência adaptando propriedades intelectuais famosas para o gênero. Entre os nomes estão Persona 4 Arena, Granblue Fantasy Versus: Rising e principalmente Dragon Ball FighterZ, que foi um sucesso gigantesco entre o público casual e competitivo.
Agora, a desenvolvedora japonesa deu um passo além — e bastante ambicioso. Isso porque, em uma época em que há muitos fãs órfãos da franquia Marvel Vs. Capcom e que anseiam por uma continuação há quase uma década, a Arc System Works, em colaboração com a PlayStation, ficou responsável por lançar um jogo de luta inédito inspirado nas marcas da famosa editora de quadrinhos.
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É sob esse contexto que surge Marvel Tokon: Fighting Souls, um jogo que, ao mesmo passo em que é familiar e evoca muito do sentimento dos clássicos dos fliperamas da Capcom, consegue construir uma identidade própria com seu sistema de gameplay, baseado em quartetos; e também com uma reinterpretação completa do estilo de luta dos seus personagens. Tudo isso embalado por uma estética de anime irretocável, refinando o estilo artístico pelo qual o estúdio já é consagrado.
Após passar um tempo com a versão completa do título, a minha percepção é de que Marvel Tokon: Fighting Souls é um jogo bem-intencionado e repleto de qualidade, em especial na sua direção artística. No entanto, também sinto que vários dos seus aspectos técnicos e decisões de design acabam ofuscando a experiência como um todo, causando frustração. Você confere os detalhes no review a seguir, com base na versão de PlayStation 5:
Decisões de elenco que fogem do óbvio
Para começar esta análise, é importante dizer o óbvio. Por mais que pareça, Marvel Tokon: Fighting Souls não é um novo Marvel Vs. Capcom. Pontuar isso é necessário para estabelecer expectativas. O título da Arc System Works tem semelhanças, mas conta com um ritmo próprio e está muito distante daquilo que fãs de longa data esperariam de uma sequência direta da clássica franquia.
Um dos grandes desafios enfrentados pelo jogo é desvincular lutadores clássicos como Homem de Ferro, Wolverine, Doutor Destino, Magneto e Tempestade das versões confeccionadas pela Capcom ainda nos fliperamas. Os seus kits de habilidades estão gravados na mente de todos os jogadores que já tiveram contato com os títulos clássicos desde X-Men: Children of the Atom (1994) — e retrabalhar algo estabelecido há tanto tempo, empregando nova personalidade, não é tarefa fácil.
No entanto, a Arc System Works conseguiu: os heróis e vilões que ressurgem em Marvel Tokon: Fighting Souls estão fantásticos, e um dos aspectos mais divertidos do jogo é justamente esse processo de redescobrir os nossos personagens favoritos. O jogo também foi certeiro ao selecionar personagens que ganharam popularidade recentemente em outros projetos inspirados pelos quadrinhos, como é o caso de Marvel Rivals. Isso resulta em um elenco familiar, mas diferente o bastante para proporcionar um sentimento de descoberta bastante satisfatório.
Também é impossível falar do jogo sem mencionar a sua curiosa decisão de realizar lutas entre quartetos. É comum que jogos de luta entre equipes sejam intimidadores porque, em teoria, isso significa que os jogadores têm de aprender mais de um personagem para mandar bem. E até então, nunca tivemos um jogo nesse estilo com a necessidade de selecionar quatro lutadores em uma mesma equipe.
A primeira impressão assusta e é bastante caótica, mas foram tomadas algumas decisões que colaboram para facilitar o aprendizado. A principal delas é que todos os personagens compartilham a mesma barra de vida — não há necessidade de derrotar um a um. Além disso, as lutas começam com apenas dois lutadores disponíveis, enquanto os outros entram em cena conforme alguns requisitos são atendidos no andamento da luta.
Isso significa que há pelo menos duas formas principais de se engajar com as mecânicas de Tokon: masterizar um único personagem e utilizar o restante da equipe apenas para golpes de assistência; ou dedicar tempo para aprender todos da equipe e intercalar entre eles para aplicar pressão e fazer jogadas ainda mais complexas surpreender adversários.

Algo que facilita o aprendizado é que os combos básicos de Marvel Tokon: Fighting Souls têm uma base que pode ser replicada para qualquer outro lutador. Existe margem para otimização e rotas de combos exclusivas a serem exploradas, claro, mas não há necessidade de aprendê-las para ter um desempenho aceitável nas partidas.
O que dá mais autenticidade aos lutadores é a existência de um botão de golpes únicos, muito semelhante a Granblue Fantasy Versus. Isso, sim, destrava uma outra camada de complexidade para os combos do jogo e que veteranos podem explorar. Além disso, o jogo traz comandos simplificados para jogadores principiantes, incluindo atalhos para sequências automáticas e um botão dedicado apenas para especiais. Não precisa de esforço para fazer coisas bonitas na tela, e isso é ótimo para o público casual.
Desta forma, o jogo consegue entregar um sistema de combate sólido e fácil de aprender, dispensando a sobrecarga que normalmente é natural em jogos de luta em equipe. Há apenas alguns detalhes que não me agradam tanto.
O primeiro é que os golpes de assistência dos demais personagens é atrelado ao posicionamento deles na equipe — e isso é bastante confuso. É difícil de entender qual será a ação dos seus companheiros. O segundo é que existe uma mecânica de quebra de parede, parecida com Guilty Gear Strive, que é o meio pelo qual outros personagens da equipe passam a ser utilizáveis.
Eu acho que é uma mecânica que atrapalha o ritmo da partida, além de ser inconsistente. Há desde cenários com várias paredes quebráveis até outro com nenhuma. Ou você memoriza a estrutura de cada cenário ou você será surpreendido por uma quebra de parede involuntária ao finalizar seus combos. Isso me incomodou bastante ao longo dos testes.
Campanha entrega boa qualidade de escrita e diverte
Mas, falando em público casual: como é o conteúdo single-player? Esse é um Calcanhar de Aquiles em jogos de luta modernos, mas Marvel Tokon consegue se sobressair em relação a alguns lançamentos recentes. Existe um modo campanha que replica o estilo de uma história em quadrinhos, e cujo principal roteirista é Kieron Gillen, que já trabalhou em várias histórias da Marvel no passado.
Tudo se passa em cenas semiestáticas — ou seja, desenhos inertes, mas com leves animações que dão dinamismo para as cenas. É muito parecido com o que Fatal Fury: City of the Wolves fez, mas a execução aqui é muito melhor. A premissa básica é que o Campeão, um ser cósmico muito poderoso, viu na Terra uma oportunidade para encontrar adversários à sua altura. Ele navega pelo cosmos desafiando diferentes planetas, e aqueles que não conseguem derrotá-lo são adicionados à sua coleção.
A premissa é muito simples e o Campeão está muito longe de ser um personagem interessante. Não tenho dúvidas de que havia vilões muito mais chamativos para estruturar a história do jogo. Há um capítulo para cada um dos cinco times do jogo, e o começo não é muito diferente de um “tutorial glorificado”. No entanto, a qualidade da escrita e os próprios personagens dos times oficiais são bons o suficiente para carregar a experiência sozinhos.
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Também vale elogiar as artes, que são muito bonitas e compatíveis com o que se espera dos quadrinhos oficiais. Se você já gosta dos heróis e vilões do elenco, com certeza ficará satisfeito com a forma como foram retratados aqui.
O jogo também faz um esforço ao introduzir outros modos single-player, mas que não são tão chamativos. O primeiro é um modo de sobrevivência, que segue a premissa básica de fazer uma sucessão de lutas cada vez mais desafiadoras; e o Arena Rumble, que coloca os jogadores para controlar avatares fofinhos que devem se acertar para pontuar. Em um determinado momento, a rodada se encerra e os jogadores devem fazer uma partida em que cada nocaute colabora para a pontuação final.
É um modo muito caótico e difícil de entender. Pode ser divertido em uma ou duas partidas, mas logo será deixado de lado pelos jogadores. Além disso, os comandos com os avatares são terríveis em controles arcade, já que é preciso controlar a câmera para enxergar o que está ao seu redor.
Dublagem em PT-BR tem qualidade, mas vai na contramão de uma boa localização
Outro destaque de Marvel Tokon: Fighting Souls é a sua localização em português do Brasil. O jogo traz nomes reconhecíveis e que já deram voz aos personagens da Marvel em outras produções, incluindo o MCU. É o caso de Duda Espinoza (Capitão América), Marco Ribeiro (Homem de Ferro), Carol Crespo (Shuri) e Raphael Rosatto (Senhor das Estrelas). Também vale destacar Ângela Couto e Márcio Simões, que deram voz à Tempestade e ao Professor Xavier em X-Men ‘97, respectivamente.
No entanto, um ponto de crítica muito pertinente é que a localização teve uma direção curiosa e difícil de entender. Embora a qualidade da dublagem seja excelente, vários nomes de heróis, vilões e grupos permaneceram em inglês. É uma escolha lamentável e que vai na contramão do propósito de uma boa localização. Isso acaba rendendo diálogos esquisitos e que soam forçados, com personagens mesclando ambos os idiomas em uma mesma frase.
Você vai escutar Spider-Man em vez de Homem-Aranha; Storm em vez de Tempestade; Dr. Doom em vez de Doutor Destino; Green Goblin em vez de Duende Verde; Avengers em vez de Vingadores; Guardians of the Galaxy em vez de Guardiões da Galáxia; e por aí vai. É ainda mais esquisito porque todos esses nomes têm localização oficial em português do Brasil, tornando a situação ainda mais injustificável.
Também houve algumas vozes que não combinaram muito, na minha opinião. A principal delas é a do Wolverine, que destoa bastante do que esperamos do personagem. Tirando isso, a dublagem em português do Brasil é de altíssima qualidade e pode ser que você não se incomode com o que foi levantado aqui. Ao longo dos testes, eu optei principalmente pelas vozes em japonês para combinar com a estética em anime e o resultado foi excelente.
Lançamento catastrófico no Steam ofusca as qualidades do jogo
É nas partidas online onde Marvel Tokon: Fighting Souls coloca todas as suas fichas, e aqui a Arc System Works tem um grande desafio. Embora o jogo tenha um código de rede decente, a versão de Steam está passando por sérios problemas de otimização — supostamente devido a recursos como o sistema antitrapaça Easy Anti-Cheat e a integração do SDK do PlayStation, que exige login para jogar.
Tudo isso estaria fazendo o jogo pesar mais do que devia, causando problemas sérios de performance em máquinas que excedem os requisitos recomendados. Mesmo jogando no PlayStation 5, esse é um problema que afeta todo o ecossistema do jogo. As partidas que fiz contra jogadores de PC, mesmo após atualizações que tentavam corrigir seus problemas, estavam com um desempenho péssimo e registrando mais de 8 quadros de rollback.
Naturalmente, os jogadores de console tendem a desligar o crossplay na hora de buscar partidas, e esse é um cenário terrível para um jogo de luta porque limita o leque de jogadores disponíveis e afeta aspectos como o próprio tempo de espera para encontrar uma partida. Durante os testes, cheguei a demorar quase dez minutos para encontrar uma única partida, tornando a situação bastante insustentável.
A Arc System Works fez alguns testes fechados do jogo apenas no PlayStation 5, meses antes do lançamento. Já às vésperas, fez um Open Beta em larga escala que incluía Steam pela primeira vez e revelou seus problemas de performance. Não houve tempo hábil para remediar a situação, resultando em um lançamento catastrófico nos computadores.
Vale notar que o Marvel Tokon: Fighting Souls também chegou para análise exatamente no dia do lançamento — e isso nunca é um bom sinal.

Vale a pena?
Marvel Tokon: Fighting Souls realmente salta aos olhos com sua qualidade gráfica e elenco de lutadores jogáveis, sendo um dos projetos mais interessantes da atualidade quando o assunto são os heróis e vilões da editora de quadrinhos. A decisão de realizar combates entre quartetos é ousada, mas bem executada o bastante para não sobrecarregar os jogadores ao mesmo passo em que oferece opções para principiantes.
Infelizmente, o jogo é prejudicado pela insistência em ferramentas invasivas na versão de computadores, como o Easy Anti-Cheat e o SDK da PlayStation. Os problemas de performance são tão graves que, por tabela, afetam negativamente a experiência em todas as plataformas, resultando em partidas com desempenho ruim, maior tempo em filas de espera e menos adversários disponíveis para jogar.
Tendo em vista o preço de lançamento (R$ 339,90) e as dificuldades técnicas, é muito difícil indicar a compra de Marvel Tokon: Fighting Souls neste momento. Infelizmente, são questões que acabam ofuscando a qualidade do jogo. A Arc System Works segue em uma escalada brilhante no gênero de jogos de luta e conseguiu entregar, apesar dos pesares, um sonho que parecia distante para todos que já tiveram contato com os clássicos dos fliperamas.
Nota do Voxel: 75
Pontos positivos (prós):
- Estilo artístico irretocável;
- Elenco que foge do óbvio e reimagina lutadores clássicos;
- As campanhas dos times são bem escritas e divertidas de acompanhar;
- Sistema de luta que facilita a experimentação de novos personagens;
- Bastante recurso para jogadores principiantes se divertirem.
Pontos negativos (contras):
- Problemas de performance no PC são tão graves que prejudicam a jogatina no PS5;
- A quebra de paredes é uma mecânica chata e inconsistente;
- Sistema de assistências é confuso;
- Desafios de combos deixam um pouco a desejar na hora de aprender personagens;
- A dublagem em PT-BR vai na contramão de uma boa localização e mantém nomes em inglês.
A análise de Marvel Tokon: Fighting Souls foi possível graças ao envio de uma cópia digital pela assessoria de imprensa da PlayStation. O jogo foi lançado em 6 de gosto com versões para PS5 e Steam.
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