Desenvolvido pela Awaceb, estúdio fundado por criadores nascidos na região e ligados familiarmente ao arquipélago, o jogo incorpora elementos culturais da Nova Caledônia à própria estrutura da experiência lúdica e audiovisual. As paisagens insulares, os cantos tradicionais, os instrumentos musicais produzidos em colaboração com artistas locais, os rituais e as formas de relação com a natureza permeiam continuamente a exploração do jogador, fazendo da cultura local parte constitutiva do universo da obra.
Localizada no Oceano Pacífico, na região da Melanésia, a Nova Caledônia possui uma história marcada pelos impactos da colonização francesa sobre as sociedades kanak. A imposição colonial atingiu práticas culturais, formas de organização social e sistemas de transmissão oral da memória. Diversas línguas kanak desapareceram ao longo do tempo, enquanto outras permanecem em situação de vulnerabilidade. Nesse contexto, Tchia reencena expressões linguísticas locais e conta com diálogos realizados em línguas kanak, e inscrevendo sonoridades e formas de oralidade historicamente atravessadas por processos de apagamento cultural.
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Além das pressões históricas da colonização, os territórios insulares do Pacífico enfrentam os impactos das mudanças climáticas, especialmente o aumento do nível do mar, que ameaça ecossistemas, modos de vida e formas culturais profundamente vinculadas ao espaço insular. Nesse contexto, a circulação contemporânea de imagens, músicas, narrativas e cosmologias associadas à cultura kanak torna-se também uma questão de permanência cultural.
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Memória, performance e experiência
Tchia faz uma releitura desses vestígios culturais ao ambiente digital sem transformá-los em arquivo tradicional ou objeto fixo de contemplação histórica. A memória aparece distribuída pelos deslocamentos do jogador, pelas canções executadas ao longo da jornada, pela relação espiritual estabelecida com os elementos naturais e pela materialidade dos objetos presentes no cenário. O jogo reinscreve experiências culturais em um suporte técnico contemporâneo capaz de prolongar sua circulação simbólica para além dos limites geográficos e materiais da ilha. A experiência lúdica e audiovisual produz um espaço no qual a memória cultural kanak continua sendo percebida, atualizada e compartilhada.
Sua memória cultural carrega marcas profundas de mudança, colonização e disputa simbólica. A presença europeia no arquipélago implodiu práticas linguísticas, formas de organização social, relações espirituais com o território e modos tradicionais de transmissão da memória ligados à cultura kanak. Nesse sentido, a permanência de cantos, rituais, narrativas orais e formas de habitar o espaço insular passou a depender de processos contínuos de reinscrição cultural que possibilitam o percurso de diferentes temporalidades e suportes.
As narrativas e imagens mobilizadas pelo jogo atuam de maneira recorrentemente metafórica, transformando travessias, cantos, relações espirituais com a natureza e deslocamentos pelo território em formas simbólicas de elaboração histórico-cultural. Assim, para além da narrativa factual e de um conjunto fixo de tradições preservadas intactas, a memória em Tchia emerge em movimento, reorganizando vestígios culturais em novas formas de circulação sensível.
As ilhas inspiradas na Nova Caledônia tornam-se espaço de atualização dessa memória cultural. A paisagem, os sons, os objetos e os ritmos cotidianos aparecem como marcas de uma ancestralidade distribuída pela experiência gamificada. O mar, a vegetação, os instrumentos musicais, os rituais e a oralidade compõem um território carregado de permanências simbólicas que ilustram a exploração do jogador. A memória kanak surge diluída na movimentação pelo espaço, nos modos de interação com a natureza e nas formas de percepção construídas pelo jogo.
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Gamificação de práticas culturais
Práticas e ritos culturais da Nova Caledônia são atualizadas às próprias mecânicas de interação do jogo. O uso do ukulele acompanha momentos de exploração e relação afetiva com o território, integrando músicas tradicionais à progressão da experiência lúdica. As canções executadas pela protagonista acionam acontecimentos específicos e estabelecem vínculos sensoriais com o ambiente, fazendo da musicalidade uma dimensão ativa da construção narrativa.
Outras atividades presentes no cotidiano do arquipélago também aparecem incorporadas ao gameplay, como a navegação marítima, os acampamentos, a coleta de recursos naturais e o preparo de alimentos. Essas ações aproximam o jogador de modos de habitar o espaço ligados ao folclore kanak, inserindo práticas cotidianas e relações comunitárias no fluxo da exploração.
A mecânica de soul-jump reorganiza a percepção do território ao permitir que a protagonista assume temporariamente o corpo de animais e objetos espalhados pela paisagem. A experiência de exploração pelo espaço passa a ocorrer por múltiplas perspectivas, aproximando corpo, natureza e espiritualidade em uma mesma dinâmica de interação. O jogador percorre o ambiente a partir do voo dos pássaros, da vida marinha e até objetos simbólicos, participando de uma experiência sensível que conecta as cosmologias representadas na obra.
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As mecânicas interativas transformam cantos, danças, transições, relações espirituais com a natureza e práticas cotidianas em experiências performativas inseridas diretamente na estrutura audiovisual, lúdica e poética do videogame. A cultura kanak permanece em circulação no interior do jogo através da ação, da exploração, da participação contínua do jogador nas dinâmicas simbólicas e das narrativas metafóricas que organizam o mundo de Tchia.
Sobrevivência cultural e permanência simbólica
A experiência interativa reorganiza esses vestígios culturais em uma temporalidade instável, na qual tradição e contemporaneidade coexistem sem síntese definitiva. O jogo representa processos histórico-culturais em um ambiente digital capaz de prolongar sua circulação simbólica para além do registro documental. A exploração das ilhas, o aprendizado das canções e a relação espiritual com os elementos naturais levam a memória para o campo da experiência estética, fazendo com que o jogador habite temporariamente um regime sensível de pertencimento cultural.
Um exemplo desse processo é a encenação da oralidade. Personagens mais velhos compartilham lendas, histórias e ensinamentos ao longo da jornada, transmitindo conhecimentos ligados ao território, à ancestralidade e às relações espirituais com a natureza. Essas narrativas aparecem nas conversas cotidianas, aos momentos de descanso e às travessias pelo espaço, aproximando o jogador de formas tradicionais de transmissão da memória cultural. O jogo transforma a escuta dessas histórias em parte constitutiva da experiência, e inscrevendo práticas de transmissão oral em uma linguagem audiovisual contemporânea e interativa.
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Existe em Tchia uma percepção constante da fragilidade dessas formas de permanência. As paisagens luminosas e a leveza da travessia convivem com os ecos silenciosos de apagamentos históricos e impactos coloniais. Ainda assim, o jogo evita transformar essa memória em ruína monumentalizada. Sua potência reside na capacidade de manter essas formas culturais em circulação, permitindo que continuem produzindo afeto, reconhecimento e experiência coletiva em um outro suporte técnico.
Ao converter a memória em experiência tátil, sonora e espacial, Tchia amplia as possibilidades de compreensão do videogame como linguagem artística e como local contemporâneo de permanência cultural. Nesse processo, a linguagem dos jogos digitais assume a condição de lugar de memória e espaço de sobrevivência cultural, mantendo em circulação experiências, práticas e sensibilidades ameaçadas pelo risco de esquecimento e apagamento histórico.
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