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Influenciadora gamer é acusada de dar golpes com perfis falsos por mais de 10 anos; entenda

Bruna Grieco, influenciadora gamer paulista, é acusada de criar perfis falsos por mais de 10 anos, incluindo o do "fotógrafo da ONU" Eduardo Martins.

Avatar do(a) autor(a): Derek Keller

schedule03/08/2026, às 19:15

Uma reportagem exibida esta semana pelo programa Doc Investigação, da Rede Record, trouxe novidades sobre um dos casos mais estranhos de fraudes na internet brasileira: o do suposto fotógrafo de guerra da ONU conhecido como Eduardo Martins. Desta vez, a investigação chegou a um nome conhecido no universo dos games.

Segundo a apuração da Record, todos os perfis falsos ligados ao caso e investigados pela reportagem, incluindo o de Eduardo Martins, teriam sido criados por Bruna Grieco de Pieri. A publicitária paulista de 42 anos atua como influenciadora digital e é conhecida na comunidade gamer por seu conteúdo sobre jogos, principalmente PlayStation.  

O Voxel apurou informações adicionais sobre o caso e consultou especialistas jurídicos para entender o que pode acontecer a partir de agora. Afinal, criar e manter perfis falsos online é um crime? Confira mais detalhes.

O caso do fotógrafo falso da ONU

Para entender a história por completo, é preciso voltar no tempo. Todo o caso começou a repercutir por causa do perfil de Eduardo Martins, que por anos circulou nas redes sociais e chegou a enganar veículos de imprensa do mundo inteiro.  

Eduardo Martins era apresentado como um fotógrafo de guerra brasileiro a serviço da ONU: loiro, de olhos azuis, surfista e aventureiro. Suas fotos mostravam cenas de conflito em regiões como Síria e Iraque, e o perfil acumulou seguidores e credibilidade suficientes para que grandes meios de comunicação publicaram seu trabalho, mesmo sem nunca terem pagado a ele, já que o suposto fotógrafo não cobrava pelo material.  

 

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Créditos: Max Hepworth/Instagram

O problema é que praticamente todas as fotos eram roubadas: as imagens de rosto de Eduardo pertenciam a Max Hepworth, um surfista britânico real. Segundo apurações da época, a pessoa responsável pelo perfil falso teria obtido acesso a fotos pessoais de Max – inclusive arquivos deletados, durante uma chamada de Skype em 2015, fingindo ser um brasileiro chamado “Bruno”. A partir daí, o rosto de Max era recortado e digitalmente inserido em cenários de conflito.  

As fotos jornalísticas dos próprios cenários de guerra também eram roubadas, desta vez, do fotojornalista americano Daniel Britt. Para evitar que as imagens fossem rastreadas por ferramentas de busca reversa de imagens, o responsável pela farsa espelhava as fotos horizontalmente antes de publicá-las.   

Por volta de 2017, a fraude começou a ser investigada por jornalistas internacionais e veículos que haviam publicado o trabalho de “Eduardo Martins” passaram a remover o conteúdo ou publicar retratações. O caso ficou famoso, mas a identidade da pessoa por trás do perfil permaneceu em silêncio por anos.

Os relacionamentos com as vítimas

O perfil de Eduardo Martins não era usado apenas para fraudes jornalísticas, já que também servia para manter relacionamentos virtuais com diversas mulheres simultaneamente: conversas longas e diárias que duravam meses ou anos, baseadas em afinidades construídas cuidadosamente.  

Segundo as vítimas ouvidas pela Rede Record, o golpista criava conexões emocionais profundas, mas sempre tinha uma desculpa para nunca fazer videochamadas ou encontros presenciais. Quando alguma vítima tentava se afastar ou encerrar o contato, contas falsas de “amigos” e “familiares” do suposto Eduardo entravam em cena para pressionar emocionalmente, alegando que ele estava em depressão e precisava da pessoa.  

Presentes físicos também faziam parte do esquema: flores, joias, livros e até animais de estimação foram enviados a algumas das mulheres. Em um dos casos, uma vítima chegou a receber dinheiro para uma cirurgia de implante de silicone, mas o depósito foi feito por um caixa eletrônico no Brasil, mesmo que o suposto remetente afirmasse morar em Los Angeles.

Como as vítimas descobriram o golpe

O esquema durava há anos, mas os primeiros sinais de que havia um padrão vieram das próprias vítimas, que começaram a cruzar informações entre si. 
  
Segundo a reportagem da Record, o modus operandi já aparecia desde 2008 e 2010, na época do Orkut, com perfis falsos usando nomes como “Caíque Martins”, “Alex Farias” e “Rafael Neves”. Duas das vítimas mais antigas, a empresária Bruna Bove e a assessora de vendas Andrea Giacomelli Monaco, perceberam que os perfis de “Alex” e “Caíque” compartilhavam o mesmo número de telefone.  
  
Com o tempo, algumas mulheres que suspeitavam de “Eduardo Martins” se uniram num grupo no WhatsApp, que chamavam de “Golpe Secreto”, onde cruzavam informações e tentavam identificar padrões. A investigação coletiva das vítimas foi fundamental para avançar até a pessoa real por trás do perfil.

A identidade da suposta golpista foi revelada por uma combinação de acasos e investigações nas redes sociais. As vítimas identificaram uma mulher brasileira em comum que aparecia como amiga de todos os perfis falsos nas redes sociais e frequentava a mesma igreja que uma delas. Uma vítima que não quis se identificar revelou que seu irmão conhecia essa amiga em comum, chegando a ir até a igreja acompanhada de uma amiga para confrontá-la. Segundo a reportagem, a mulher, identificada como Bruna Grieco de Pieri, teria confessado tudo no confronto.  


Andrea, por sua vez, descobriu a ligação de outra forma: uma jovem a adicionou no Facebook e revelou que sua prima costumava enganar mulheres com perfis falsos, e que Andrea era uma das vítimas. A investigação da Record cruzou essas informações e apontou que o número de telefone utilizado para falar com as vítimas estava cadastrado em nome da mãe de Bruna Grieco.
  
Segundo Andrea, Bruna confirmou os fatos quando as duas se encontraram pessoalmente, que acabou revelando como o esquema funcionou por tanto tempo por telefone. Segundo o relato de uma das vítimas, a suposta golpista usava um aparelho que modificava a voz para soar como um homem durante as ligações.

Ainda segundo a reportagem, Bruna Bove e Andrea teriam confirmado que a suposta golpista teria estudado na mesma escola que elas durante o ensino médio, o que explicaria como o esquema se iniciou com pessoas do seu próprio círculo de convivência.

Quem é Bruna Grieco?

Bruna Grieco de Pieri não é um nome desconhecido por parte da comunidade gamer brasileira. Ela era conhecida pelo usuário @brunagd3 em redes sociais como Instagram e X (Twitter), publicando regularmente sobre videogames, especialmente sobre o ecossistema PlayStation, compartilhando platinas conquistadas e opiniões sobre o mercado de games.
  
Bruna também participou de podcasts, transmissões ao vivo e encontros presenciais ligados ao universo gamer, como participações na Brasil Game Show, sendo também conhecida como “Bruna G” em posts e vídeos publicados por outros criadores. No X (antigo Twitter), vários usuários esboçaram surpresa ao saber das supostas atitudes da criadora de conteúdo durante todos estes anos. 

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Reprodução: Rede Record

Ela ainda atuava como redatora no portal Level Up News, com publicações ativas até dias antes da reportagem da Record ir ao ar. A conexão entre o perfil gamer e as acusações gerou repercussão imediata na comunidade, com diversos perfis que acompanhavam seu conteúdo relatando conhecer Bruna de interações na internet. Em um post no X, Brunno Fast, fundador do Level Up News, se dizia chocado com a situação.  

Em resposta ao Voxel, o portal Level Up News deu a seguinte nota: “Nós do LevelupNews fomos pegos de surpresa, assim como todo mundo. Não sabíamos do ocorrido até ontem à noite. A direção do site, em comum acordo, resolveu retirar todos os acessos da Bruna Grieco. Hoje ela não faz mais parte da equipe. Não temos uma opinião sobre o ocorrido, pois ainda estamos tentando entender tudo o que aconteceu, assim como vocês.”

Por quais crimes Bruna pode responder?

O Voxel consultou a advogada Ana Coutinho, especialista em Direito Digital, Direito Gamer e dos E-sports e o advogado criminalista Gabriel Soares para entender as implicações jurídicas do caso. As respostas foram elaboradas em conjunto pelos dois profissionais.

  
Segundo os advogados, as consequências de criar e manter perfis falsos nas redes sociais dependem das condutas efetivamente comprovadas: o uso da identidade e das imagens de Max Hepworth sem autorização pode configurar o crime de falsa identidade, previsto no artigo 307 do Código Penal. A punição prevista é de três meses a um ano, ou multa.

Já a publicação das fotografias jornalísticas de Daniel Britt sem créditos ou autorização também pode render problemas com a lei. A ação pode se enquadrar na violação de direitos autorais, previsto no artigo 184, o que pode render multa e até três meses a um ano de detenção por violação simples. 

Para as vítimas que mantiveram relacionamentos virtuais com os perfis falsos, existe a possibilidade de buscar indenização caso consigam comprovar danos à intimidade, à honra ou à integridade emocional, independente de haver ou não crime tipificado.  O ponto mais delicado juridicamente se diz respeito ao estelionato sentimental ou afetivo, popularmente conhecido como “golpe do amor”. 

Esse enquadramento depende de uma condição essencial: que os perfis falsos tenham sido usados para obter dinheiro ou bens das vítimas. Se ficar comprovado que houve obtenção de vantagens financeiras por meio da manipulação emocional, o artigo 171 do Código Penal pode ser aplicado.  

Caso não haja evidência de que as vítimas transferiram dinheiro ou bens em razão do golpe, o crime de estelionato fica descartado. “A criação de um perfil falso, por si só, não configura crime. A responsabilização depende da finalidade do perfil e das condutas praticadas por meio dele”, explicaram os advogados.  

Até o momento, Bruna Grieco de Pieri não se pronunciou publicamente sobre as acusações. O caso ainda não tem conclusão judicial, e todas as acusações permanecem no campo das investigações jornalísticas e dos relatos das vítimas.

O Voxel buscou contato com Bruna Grieco de Pieri, mas todas as suas redes sociais foram apagadas. A reportagem segue em aberto para adicionar um posicionamento da acusada sobre a situação.

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