A Sony pegou muitos jogadores de surpresa ao anunciar, nesta semana, que vai encerrar a produção de novos jogos em mídia física para PlayStation a partir de 2028. Enquanto a empresa defende que a mudança acompanha o comportamento dos consumidores e o crescimento das vendas digitais, parte da comunidade de jogadores e do varejo especializado enxerga o anúncio como um marco no enfraquecimento da cultura de propriedade nos videogames.
O momento do anúncio da Sony também gerou controvérsia, já que a notícia foi divulgada dias após GTA 6 iniciar sua pré-venda no formato Code in Box, trazendo apenas um código para download dentro da embalagem, sem disco. Para muitos colecionadores, a caixa deixa de representar um produto físico e passa a funcionar apenas como um intermediário para uma compra digital.
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A situação vem gerando protestos e movimentos online, incluindo um pedido de investigação no Brasil. Enquanto alguns gamers já estão cancelando a assinatura da PS Plus para chamar a atenção da companhia no bolso, outros aproveitaram a situação para compartilhar nas redes sociais que ainda jogam em mídia física.
Neste movimento, a loja brasileira Gamer Hut, especializada em games físicos com cerca de 500 mil unidades vendidas no ano passado, ganhou notoriedade por fazer parte do movimento que vai contra jogos Code in Box, incluindo GTA 6. Em entrevista ao Voxel, Ricardo Vieira, representante de marketing da empresa, comentou como a companhia recebeu o anúncio da Sony e explicou por que acredita que a indústria está se distanciando de parte importante de seu público.
"As pessoas não colecionam caixas, elas colecionam jogos"
Para a Gamer Hut, a principal falha da estratégia adotada pela Sony está na forma como ela interpreta o perfil de quem ainda compra mídia física. Segundo a empresa, existe uma diferença fundamental entre vender uma embalagem e vender um objeto de coleção.
"O pessoal acha que quem compra mídia física coleciona a caixa. Isso é um equívoco. As pessoas não colecionam caixas, elas colecionam jogos", afirma o responsável pela loja, Ricardo Vieira.
Na avaliação dele, o colecionismo sempre esteve ligado ao próprio software armazenado no disco, algo que pode ganhar valor histórico e financeiro ao longo dos anos. Como exemplo, ele cita jogos lacrados de consoles antigos e cartas colecionáveis que hoje movimentam cifras elevadas no mercado.
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Outro ponto levantado por Ricardo é o fato de que jogos 100% digitais ficam presos na loja e no ecossistema em que estão vinculados. Nesta semana, a Sony também anunciou o fim da PS Store do PS Vita e do PS3, o que vai matar jogos que foram lançados somente em formato digital para os consoles.
"Você guarda uma caixinha sem nada. É uma situação meio bizarra."
"A pessoa compra um jogo pensando também na preservação. Daqui a vinte anos, um disco ainda pode existir. Um código de download, se a loja fechar, simplesmente deixa de funcionar. Você guarda uma caixinha sem nada. É uma situação meio bizarra."
Movimento ocorre pouco após pré-venda de GTA 6
Segundo a Gamer Hut, o anúncio da Sony causou surpresa justamente porque acontece após um longo período em que a empresa manteve suporte simultâneo para formatos físico e digital. Ainda assim, Ricardo ressalta que o anúncio ocorreu logo após o início da pré-venda de GTA 6, o que pode não ser coincidência.
O responsável pela loja aponta que o movimento recente da indústria passa a impressão de ser coordenado. Afinal, a Sony também anunciou a remoção de filmes digitais da biblioteca de usuários e encerrou serviços de consoles antigos recentemente.
"Parece que existe uma tentativa de transformar uma cultura de propriedade em uma cultura onde você não é dono de nada", ressalta Vieira. O responsável pela Gamer Hut também aponta que a decisão mostra como algumas empresas de games estão distantes do público.
Mesmo com a Gamer Hut sendo referência na América Latina na venda de mídia física, Ricardo disse que a empresa não foi consultada em nenhum momento sobre a mudança da Sony, que pode impactar diretamente no seu negócio. “Eu conversei com várias pessoas e ninguém foi perguntado sobre o assunto. A empresa meio que fala: ‘eu sei o que é melhor para você e o seu mercado, azar o seu’”.
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Propriedade digital continua sendo um dos maiores debates
Outro ponto levantado pela Gamer Hut envolve a diferença entre possuir um disco e adquirir uma licença digital de uso. Para a empresa, a ausência do disco elimina direitos que historicamente fizeram parte do mercado de consoles, como emprestar, vender ou doar um jogo após sua utilização.
“Não é uma sensação de perda de propriedade. É um fato. Se você não pode dispor daquele produto da forma que quiser, ele simplesmente não é seu”, ressalta Vieira. Essa discussão vem ganhando força nos últimos anos à medida que plataformas digitais reforçam que o consumidor adquire apenas uma licença para acessar determinado conteúdo, sujeita às regras estabelecidas pelas lojas virtuais.

Com a adoção do formato Code in Box, a expectativa do lojista é que a experiência fique cada vez mais limitada para os consumidores. “O público não aceita muito bem porque não enxerga uma lógica em você comprar um jogo físico que inclui só um código”.
Segundo a empresa, o problema não está apenas na ausência do disco, mas também na expectativa criada pela própria embalagem. "Para quem compra em loja física, abrir a caixa e encontrar apenas um código gera frustração", ressalta o representante.
Loja aponta desafios para o Código de Defesa do Consumidor
Outro ponto levantado pela Gamer Hut envolve possíveis conflitos entre o modelo Code in Box e a legislação brasileira de proteção ao consumidor. Segundo Vieira, o fato de a Sony vender uma versão mais cara do PS5 com leitor de disco atualmente pode render problemas para a companhia após a migração para o modelo digital.
Na avaliação da empresa, a falta de informações claras sobre instalação, armazenamento necessário e limitações do produto pode gerar um aumento significativo nas devoluções. “A propaganda precisa ser muito clara. Se o consumidor compra imaginando uma mídia física tradicional e recebe apenas um código, isso pode induzir ao erro.”
Segundo dados compartilhados pela loja, produtos vendidos em Code in Box apresentam índice de devolução muito superior ao observado em jogos com disco. "Nossa experiência mostra devoluções próximas de 30%. Em jogos físicos tradicionais esse número não chega nem perto de 1%."
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Consumidores ainda querem mídia física
Para justificar a mudança de formato, a Sony informou que aproximadamente 80% das vendas de jogos completos já acontecem em formato digital. A Gamer Hut, porém, argumenta que esse percentual não representa necessariamente o comportamento de compra quando existe igualdade de oferta entre as duas versões.
Segundo a loja, parte significativa das vendas digitais corresponde a jogos que nunca receberam edição física ou clássicos comercializados exclusivamente pela PlayStation Store. "Quando existe a opção entre comprar físico ou digital, eu tenho certeza de que muita gente escolhe o disco. A própria Gamer Hut cresce vendendo exclusivamente mídia física."
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O lojista também destaca que um único disco costuma circular entre vários jogadores ao longo dos anos, passando por empréstimos e revendas, algo impossível no modelo digital. “Na mídia física, um jogo atinge muito mais que apenas uma pessoa.”
“Na mídia física, um jogo atinge muito mais que apenas uma pessoa.”
O responsável pela empresa ainda ressalta que o domínio da mídia digital, em parte, vem da ausência de distribuição de discos físicos. Apesar do crescimento expressivo das vendas digitais, a Gamer Hut acredita que ainda é cedo para tratar a mídia física como um mercado de nicho semelhante ao dos discos de vinil.
Segundo a empresa, basta observar a reação dos jogadores após o anúncio da Sony para perceber o vínculo emocional existente com as coleções. “Existem muitas variáveis, e uma delas é a incompetência na distribuição de mídia física mundialmente”, ressalta Vieira.
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A Sony vai voltar atrás na decisão?
A Gamer Hut deixou claro que a decisão da Sony parece equivocada e acredita que a empresa pode voltar atrás com a repercussão negativa do assunto. Além dos protestos do público, outras empresas criaram uma trend nas redes sociais zoando o comportamento da PlayStation.
"Depois do anúncio, muita gente começou a publicar fotos das próprias coleções. Isso mostra que existe um apego enorme. O jogador gosta da experiência de comprar, abrir o jogo e colocar o disco no videogame", conta Vieira.
Na visão do lojista, boa parte dessa relação vem da própria história dos consoles domésticos. “A geração que cresceu com Atari, Mega Drive, Super Nintendo, PlayStation e tantos outros ainda valoriza essa experiência. Ela faz parte da cultura do videogame.”
“A empresa está deixando de lado quem fez ela ser gigante, e isso é, no mínimo, decepcionante."
Por outro lado, a Sony não deu sinais de que pode fazer alterações em sua estratégia até o momento. A companhia, no entanto, já teria iniciado mudanças em sua maior fábrica de discos, na Áustria, com uma reestruturação em andamento.
Com isso em mente, o que temos até agora são protestos e descontentamento de parte do público e de lojistas. E, para a Gamer Hut, tudo isso mostra que a Sony esqueceu de quem estava com a empresa desde seus primórdios.
"A PlayStation precisa olhar para quem fez a marca crescer para o tamanho que é hoje", diz o representante da Gamer Hut. “A empresa está deixando de lado quem fez ela ser gigante, e isso é, no mínimo, decepcionante.”
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