Se existe um lugar que os fãs de carros sonham em visitar, esse lugar provavelmente é o Japão. Entre ruas iluminadas por néons, estradas montanhosas sinuosas e uma cultura automotiva que inspirou gerações de entusiastas ao redor do mundo — e alguns espectadores que assistiram Velozes e Furiosos: Desafio em Tóquio vezes demais — o país finalmente se torna o palco principal de Forza Horizon 6.
O novo título da Playground Games leva a tradicional fórmula de mundo aberto da franquia para sua ambientação mais aguardada pelos fãs. Com centenas de veículos licenciados, uma campanha focada na ascensão de um piloto novato dentro do Festival Horizon e um mapa que promete combinar áreas urbanas densas com paisagens rurais, o jogo busca entregar uma das experiências mais ambiciosas da série até agora.
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Mas, em meio aos roncos dos motores, às curvas fechadas e à celebração da cultura automotiva japonesa, existe uma questão que vem ganhando cada vez mais importância dentro da indústria: quem pode participar dessa experiência?
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Nos últimos anos, a Microsoft tem se destacado por tratar acessibilidade como parte essencial do desenvolvimento de seus jogos, e Forza Horizon 6 parece seguir essa mesma direção. Antes mesmo do lançamento, a comunicação oficial do título já deixa claro que a equipe pretende tornar o Festival Horizon mais acolhedor para diferentes perfis de jogadores.
Afinal, um mundo aberto desse tamanho só alcança todo o seu potencial quando mais pessoas conseguem explorá-lo. E é justamente nesse aspecto que Forza Horizon 6 chama a atenção para quem acompanha a evolução da acessibilidade nos videogames.
Antes de começar, gostaria de ressaltar que a acessibilidade é uma experiência individual e pode funcionar de maneiras diferentes para cada pessoa. As observações apresentadas nesta análise refletem minhas impressões pessoais como uma pessoa com baixa visão durante o período de testes. Meu objetivo não é determinar se o jogo é ou não acessível para todos os públicos, mas destacar os recursos presentes e discutir como eles contribuem para tornar a experiência mais inclusiva para diferentes perfis de jogadores.
Interface e primeiras impressões
Logo nos primeiros minutos de Forza Horizon 6 fica evidente que a Playground Games dedicou bastante atenção à acessibilidade. O jogo oferece uma quantidade impressionante de opções de personalização e praticamente todas as categorias importantes possuem algum tipo de ajuste voltado para inclusão.
Entretanto, a primeira impressão também revela uma limitação importante para jogadores cegos.
Diferentemente de alguns títulos recentes que ativam recursos de acessibilidade automaticamente durante a primeira execução, o leitor de tela de Forza Horizon 6 não inicia ligado. Ao abrir o jogo pela primeira vez, o jogador é recebido apenas pela música do menu principal e pelos elementos visuais da interface.
Existe uma opção para acessar as configurações de acessibilidade logo nessa tela inicial, mas o jogador precisa descobrir isso sozinho. Somente após pressionar o botão correspondente o leitor de tela é ativado e passa a narrar os menus normalmente.
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Na prática, isso significa que um jogador cego provavelmente precisará de ajuda externa durante esse primeiro contato com o jogo. Considerando o nível de acessibilidade encontrado no restante da experiência, essa decisão parece estranha. Uma solução mais amigável seria iniciar o leitor de tela automaticamente na primeira execução e permitir que o jogador optasse por desativá-lo posteriormente.
Felizmente, após superar essa barreira inicial, a experiência melhora consideravelmente.
Leitor de tela
Uma vez ativado, o leitor de tela demonstra um nível de implementação bastante robusto.
Durante meus testes, ele foi capaz de narrar menus, categorias, descrições de configurações e diversas informações importantes da interface. Também gostei de ver que o sistema recebeu localização completa para português, algo que ainda não é tão comum quanto deveria na indústria.
A personalização também merece destaque. O jogador pode escolher entre diferentes vozes, ajustar velocidade, tom e volume da leitura, além de configurar quais informações devem ser narradas durante as corridas.
Esse nível de controle ajuda a adaptar a experiência para diferentes perfis de usuários, especialmente aqueles que dependem do recurso por longos períodos.
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Infelizmente, nem tudo funciona perfeitamente. Em alguns momentos da minha jogatina, o leitor simplesmente deixava de narrar determinadas áreas dos menus sem qualquer motivo aparente. Não consegui identificar exatamente o que causava o problema, mas encontrei situações em que a leitura era interrompida temporariamente.
Também existem limitações em algumas áreas específicas do jogo. O mapa do mundo aberto, por exemplo, não narra adequadamente os nomes das localidades, atividades ou eventos disponíveis.
Por se tratar de um jogo focado em exploração, essa ausência acaba sendo sentida.
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Felizmente existe uma alternativa parcial. Ao pressionar a seta para baixo do controle, o jogador pode acessar rapidamente uma lista contendo as missões mais importantes para avançar na campanha. A solução não substitui completamente a leitura do mapa, mas ajuda bastante a manter a progressão acessível.
Também encontrei problemas nos menus que antecedem cada corrida. Opções como ajustes de dificuldade, configurações do evento, grid de largada e preparação dos veículos não são lidas adequadamente pelo sistema. A seleção de carros também apresenta limitações semelhantes, dificultando a compreensão das características de cada veículo disponível.
Não chega a tornar o jogo injogável, mas demonstra que ainda existem áreas da interface que poderiam receber mais atenção.
Legendas e compreensão da informação
As legendas também receberam uma atenção considerável por parte da Playground Games. Além dos ajustes tradicionais de tamanho e opacidade do fundo, Forza Horizon 6 oferece algumas ferramentas que vão além do básico e procuram tornar a leitura mais confortável para diferentes perfis de jogadores.
Um recurso que chamou minha atenção foi o destaque de palavras-chave dentro das legendas. Embora possa parecer uma mudança pequena à primeira vista, esse tipo de ferramenta pode beneficiar especialmente jogadores com dislexia ou dificuldades relacionadas à leitura, ajudando a identificar mais rapidamente as informações mais importantes transmitidas durante diálogos e instruções.
A personalização também permite adaptar a aparência das legendas de acordo com as necessidades individuais de cada jogador. Em um jogo de corrida onde diversas informações são apresentadas simultaneamente, ter controle sobre tamanho e contraste do texto faz diferença para garantir que mensagens importantes não passem despercebidas.
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Durante meus testes, as legendas cumpriram bem seu papel de transmitir diálogos e informações narrativas. Somadas ao leitor de tela e às demais ferramentas de acessibilidade presentes no jogo, elas ajudam a construir uma experiência mais inclusiva para jogadores com deficiência auditiva, baixa visão e dificuldades de leitura.
Talvez o aspecto mais positivo seja justamente a filosofia por trás dessas opções. Em vez de oferecer apenas uma configuração padrão, Forza Horizon 6 permite que cada jogador encontre a combinação que melhor funciona para sua forma de consumir informação. Esse tipo de flexibilidade tem se tornado cada vez mais importante dentro da acessibilidade moderna e demonstra uma compreensão maior de que diferentes pessoas possuem necessidades diferentes.
Contraste e acessibilidade visual
Se existe uma área onde Forza Horizon 6 realmente impressiona, é na acessibilidade visual.
O novo sistema de alto contraste é facilmente um dos mais completos que já encontrei em um jogo de corrida.
Muitos títulos oferecem apenas filtros pré-definidos que alteram toda a imagem. Aqui a abordagem é completamente diferente. Em vez de impor uma única solução para todos os jogadores, o sistema permite personalizar praticamente cada elemento importante da experiência.
É possível definir cores específicas para veículos, trânsito, colecionáveis, objetos interativos, adversários e diversos outros elementos espalhados pelo mundo aberto.
O mais interessante é que o jogador não precisa necessariamente transformar toda a imagem em uma composição de cores fortes. Também é possível utilizar apenas contornos ao redor dos objetos destacados ou selecionar exatamente quais elementos devem receber contraste adicional.
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Durante meus testes, por exemplo, optei por destacar apenas alguns elementos específicos relacionados à navegação e orientação. Como ainda possuo visão residual suficiente para interpretar boa parte dos cenários, não sentia necessidade de modificar todo o ambiente.
Essa liberdade é extremamente importante porque baixa visão não é uma experiência única, afinal, o que funciona para mim pode não funcionar para outra pessoa. Poucos jogos entendem isso tão bem quanto Forza Horizon 6.
Além do sistema de contraste, o jogo também oferece filtros para diferentes tipos de daltonismo, ajustes de interface, opções para reduzir borrão de movimento e a possibilidade de desativar elementos visuais animados que possam causar desconforto.
Ainda achei alguns textos pequenos mesmo utilizando os maiores tamanhos disponíveis, mas a presença do leitor de tela ajuda a compensar essa limitação.
Áudio espacial e radar de proximidade
Outro recurso que me chamou bastante atenção foi o radar de proximidade.
Em vez de depender exclusivamente de informações visuais, o sistema utiliza áudio espacial para indicar a posição dos veículos ao redor do jogador. Na prática, funciona surpreendentemente bem.
Durante ultrapassagens e disputas mais acirradas, é possível perceber quando um carro está ao lado, atrás ou à frente apenas ouvindo os sinais sonoros emitidos pelo sistema.
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O resultado é uma experiência muito mais confortável para jogadores com baixa visão e também uma ferramenta útil para reduzir colisões acidentais. Mesmo para jogadores sem deficiência visual, trata-se de um recurso que pode melhorar significativamente a consciência espacial durante as corridas.
Além disso, o jogo oferece uma quantidade impressionante de controles relacionados ao áudio. É possível ajustar individualmente volumes de veículos, pneus, diálogos, música, interface, leitura de tela, radar de proximidade, GPS e diversos outros elementos.
Também gostei de ver opções que permitem reduzir distrações sonoras, como locutores de rádio e algumas mensagens automáticas do GPS.
Assistências de direção e acessibilidade motora
O principal destaque entre as assistências de direção é o piloto automático.
Na prática, o recurso permite que o veículo navegue sozinho por grande parte do mundo aberto, conduzindo o jogador até corridas, atividades e outros objetivos espalhados pelo mapa. Para pessoas com deficiência visual, especialmente jogadores cegos ou com baixa visão severa, a ferramenta reduz significativamente a barreira de exploração presente em um mundo aberto tão grande.
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Durante meus testes, o sistema funcionou bem para deslocamentos entre eventos e atividades. Em muitos momentos, bastava selecionar um destino para que o carro realizasse boa parte da navegação de forma autônoma.
Entretanto, existem limitações importantes. O piloto automático não funciona durante as corridas propriamente ditas, ficando restrito aos deslocamentos pelo mapa. Também encontrei algumas situações específicas em que ele simplesmente não estava disponível, como em determinados trechos próximos à residência do jogador.
Essa decisão acaba gerando um contraste curioso. O jogo oferece uma excelente ferramenta para exploração do mundo aberto, mas remove essa assistência justamente quando o jogador entra nos eventos competitivos.
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Foi impossível não lembrar de Forza Motorsport durante esses momentos. Enquanto o simulador da Turn 10 utiliza recursos sonoros avançados para auxiliar jogadores cegos dentro das corridas, Horizon 6 limita suas assistências principalmente à navegação entre eventos.
Ainda assim, o piloto automático representa uma adição extremamente positiva. Mesmo não oferecendo independência completa durante as provas, ele reduz significativamente uma das maiores barreiras de um jogo de corrida em mundo aberto: simplesmente chegar ao destino desejado.
Outro aspecto positivo é a quantidade de assistências de direção disponíveis. Logo ao iniciar uma nova campanha, o jogo pergunta se o jogador deseja utilizar algum nível de auxílio durante a condução.
A configuração pode ser completamente personalizada e alterada posteriormente a qualquer momento. Existem opções voltadas para frenagem, direção, aceleração e diversas outras áreas relacionadas ao comportamento dos veículos.
Um recurso particularmente interessante é a possibilidade de reduzir a velocidade geral do jogo em partidas offline. Embora a função seja frequentemente associada à acessibilidade motora, ela também pode beneficiar jogadores com baixa visão. Em muitos momentos, ter alguns segundos extras para interpretar informações visuais ou reagir a uma curva pode fazer toda a diferença.
O jogo também oferece remapeamento completo de controles, ajustes avançados de zonas mortas, opções de alternância para diferentes comandos e diversas configurações relacionadas à vibração dos controles.
É um conjunto bastante sólido de ferramentas que permite adaptar a experiência para diferentes necessidades.
Uma ausência difícil de ignorar
Apesar de todas essas qualidades, existe uma comparação que inevitavelmente acompanha Forza Horizon 6: o jogo Forza Motorsport.
Desde seu lançamento, o simulador da Turn 10 se tornou uma referência em acessibilidade para jogadores cegos graças ao Blind Drive Assist, sistema que utiliza orientações sonoras para permitir que corridas sejam realizadas de forma independente.
Essa tecnologia não está presente em Horizon 6. Por esse motivo, jogadores cegos que acompanharam a evolução de Motorsport provavelmente encontrarão algumas limitações inesperadas aqui.
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A ausência chama atenção porque as corridas continuam acontecendo em trajetos relativamente controlados. Embora Horizon seja um jogo de mundo aberto muito mais complexo do que Motorsport, ainda existem eventos disputados em circuitos fechados onde algum nível de assistência sonora mais avançada poderia ter sido implementado. Também senti falta da audiodescrição presente em Motorsport.
Forza Horizon 6 possui diversas cenas cinematográficas visualmente impressionantes que poderiam se beneficiar enormemente desse recurso. Sua ausência reforça a sensação de que, embora Horizon tenha evoluído bastante em acessibilidade, Motorsport continua sendo a referência da franquia para jogadores cegos.
Isso não significa que Horizon 6 seja um jogo pouco acessível. Na verdade, minha experiência como pessoa com baixa visão foi extremamente positiva.
A diferença é que Motorsport consegue oferecer um nível maior de independência para jogadores cegos, enquanto Horizon 6 parece ter concentrado seus esforços principalmente em acessibilidade visual, motora e cognitiva.
Conclusão: Vale a Pena?
Forza Horizon 6 representa uma evolução importante para a série quando o assunto é acessibilidade. A quantidade de opções disponíveis impressiona logo nos primeiros minutos e demonstra um compromisso genuíno da Playground Games com inclusão.
O sistema de alto contraste é excelente, o radar de proximidade adiciona informações valiosas através do áudio espacial e as inúmeras opções de personalização permitem que cada jogador adapte a experiência às próprias necessidades. Também gostei de ver recursos voltados para deficiência motora, cognitiva e auditiva.
As legendas oferecem opções de personalização que vão além do básico, incluindo destaque de palavras-chave que podem beneficiar jogadores com dificuldades de leitura e dislexia.
O jogo também tera uma atualização onde vai oferecer suporte à Língua Americana de Sinais (ASL) e à Língua Britânica de Sinais (BSL) durante as cenas cinematográficas, um recurso ainda raro na indústria. No entanto, vale destacar que não há suporte para Libras (Língua Brasileira de Sinais), o que limita o alcance dessa funcionalidade para parte da comunidade surda brasileira.
Por outro lado, algumas limitações impedem que o jogo alcance o mesmo patamar de Forza Motorsport. A primeira inicialização ainda poderia ser mais amigável para jogadores cegos, o leitor de tela apresenta inconsistências em determinados menus e a ausência do Blind Drive Assist e da audiodescrição certamente decepcionará parte da comunidade.
Ainda assim, o saldo final é extremamente positivo.
Para jogadores com baixa visão, Forza Horizon 6 está entre os jogos de corrida mais acessíveis que já tive a oportunidade de testar. Talvez ele não seja o novo padrão de acessibilidade para jogadores cegos dentro da franquia Forza, mas demonstra que a Playground Games continua avançando na direção certa.
Embora ainda exista espaço para evolução, especialmente no suporte ao público cego e na localização de alguns recursos para o público brasileiro, Forza Horizon 6 entrega um conjunto de acessibilidade robusto, flexível e que beneficia diferentes perfis de jogadores com deficiência. E em um gênero que historicamente apresentou tantas barreiras para pessoas com deficiência, isso definitivamente merece ser celebrado.
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