Antes de mais nada, queria deixar claro: eu não acho que exista nada de errado em discutir games online. Muito pelo contrário, creio que debater games, seja na internet ou em carne e osso, é algo capaz de aproximar pessoas e ajudar o meio a ganhar mais notoriedade.
Porém, no X de Elon Musk, essa conversa parece ter mudado de natureza. Hoje, muitas vezes, o debate dentro da rede social não quer te informar, mas te irritar – e de maneira proposital.
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Se você já comentou sobre um jogo no antigo Twitter e, minutos depois, começou a receber uma enxurrada de posts indignados, polêmicos ou simplesmente revoltados sobre o mesmo tema, talvez isso não seja coincidência. Pelo menos, por aqui, esse padrão tem ficado cada vez mais evidente.
E digo isso não apenas como alguém que cobre games diariamente, mas também como usuário que começou a perceber uma mudança clara na própria timeline. No X, parece que o algoritmo quer menos que você goste de um jogo — e mais que você odeie alguém por causa dele.
O algoritmo do X parece amar ragebait gamer
Independente da rede social, o modus operandi inicial sempre costuma ser o mesmo. Você comenta sobre um jogo, interage com reviews ou publica algo relacionado e, naturalmente, o algoritmo entende seu interesse e começa a te mandar mais conteúdo. Até aí, tudo certo. Afinal, é assim que o mercado online funciona há anos.
O problema do X começa no tipo de conteúdo que passa a aparecer depois disso. Logo após eu demonstrar meu interesse em um game, em vez de receber mais novidades, análises, bastidores ou opiniões variadas, comecei a notar uma avalanche de posts divisivos, carregados de indignação e formulados quase como isca emocional.
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É o famoso ragebait: conteúdo desenhado para te fazer responder, discutir, compartilhar ou simplesmente te deixar pistola. A rede social de Elon Musk já é conhecida por acusações de disseminação de discurso de ódio, mas só parei pra pensar no impacto disso nos games recentemente, com o jogo narrativo Mixtape.
Depois de publicar minha review do game por lá para divulgar o trabalho, meu feed rapidamente virou uma espécie de tribunal sobre o jogo. Vieram ataques às notas da crítica, comentários dizendo que o gameplay era ruim, gente acusando o título de ser “woke” e uma série de polêmicas que, honestamente, pareciam desproporcionais ao tamanho do lançamento.
Não parecia uma discussão espontânea sobre qualidades e defeitos do jogo – principalmente porque, na Aba Para Você, todos os posts que aparecem são selecionados meticulosamente pela própria rede social. Parecia quase uma provocação calculada, uma pescaria emocional para me fazer entrar na briga.
Analisando os últimos meses, dá pra notar que esse tipo de debate que reforça o ódio para gerar engajamento é uma constante. Em abril, Pragmata e Saros acabaram virando alvo de discussões envolvendo personagens e abordagens “woke” que não ganharam tanta repercussão em outros cantos da internet quanto no X.
No mês de março, Crimson Desert monopolizou discussões envolvendo notas e, novamente, a questão de ser ou não ser “woke”. Agora, parece que o alvo da vez é Bond, James Bond.
007 First Light é a nova isca de engajamento no X
Recentemente, 007 First Light foi lançado pela IO Interactive e recebeu aclamação da crítica e do público. Enquanto muita gente já está aproveitando o jogo, interagir com publicações no X pode te levar para uma bolha de ódio sobre o espião britânico.
Por aqui, eu entrei na rede social para compartilhar a boa recepção do jogo aqui no Voxel e alguns dos textos que fizemos sobre o game. Logo em seguida, diversas publicações divisivas sobre o jogo começaram a brotar no meu feed – grande parte de pessoas que eu nem sigo, já que a timeline principal agora segue as recomendações da rede social.
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Enquanto o game acumula avaliações positivas de jogadores na Steam e uma recepção forte da crítica especializada, o X consegue criar uma realidade paralela onde tudo parece estar pegando fogo. De repente, surgem publicações dizendo que “James Bond agora é mandado por mulher”, críticas exageradas sobre gráficos, acusações de agenda política e, claro, a inevitável palavra “woke” sendo usada como atalho para qualquer desconforto cultural.
Quem olha de fora pode facilmente sair com a impressão de que o jogo é um desastre ou alvo de rejeição massiva — quando isso simplesmente não corresponde ao panorama mais amplo.
Como fiquei sem interagir diretamente com esses conteúdos, no dia seguinte o cenário começou a mudar: a rede social aparentemente priorizou posts defendendo o jogo desse tipo de comentário exagerado, em mais um esforço para tentar gerar interações com base na emoção.
A rede social que recompensa indignação e vagueposting
É importante deixar algo claro: eu não estou dizendo que críticas negativas a jogos não devam existir. No entanto, existe uma diferença entre críticas honestas e conteúdos desenhados para provocar reações emocionais.
Desde que Elon Musk comprou o Twitter em 2022, o X passou por mudanças profundas em moderação e dinâmica de alcance. A plataforma reduziu políticas de fiscalização e apostou numa lógica de “liberdade de expressão, não liberdade de alcance”, alegando que conteúdos problemáticos seriam reduzidos algoritmicamente em vez de removidos.
Pesquisadores, porém, apontam que a quantidade de discurso de ódio e engajamento nesse tipo de conteúdo aumentou no período pós-aquisição. Um estudo publicado em 2025 na revista científica PLOS One, conduzido por pesquisadores da Universidade da Califórnia em Berkeley, concluiu que publicações contendo discurso de ódio cresceram cerca de 50% após a compra da plataforma por Musk.
Mais do que isso: o engajamento em postagens de ódio também aumentou significativamente, sugerindo que conteúdos polarizadores continuaram alcançando pessoas em grande escala. E aqui existe uma peça do quebra-cabeça importante: no X, a indignação pode virar dinheiro.
A plataforma compartilha receita com usuários premium de alto alcance. Com isso, posts que viralizam podem render ganhos financeiros. Isso não significa que todo criador de conteúdo esteja agindo de má-fé, claro, mas cria um incentivo poderoso para narrativas inflamadas.
“Conteúdo controverso gera engajamento. Conteúdo extremo gera engajamento ainda maior”.
Se um tweet equilibrado dizendo “esse jogo tem pontos positivos e negativos” gera 500 curtidas, mas um post dizendo “A INDÚSTRIA MORREU, ESSE LIXO WOKE DESTRUIU 007” gera 500 mil visualizações, qual modelo parece mais recompensado?
Como observou o pesquisador Ed Saperia, ouvido pelo The Guardian em uma reportagem sobre o crescimento da toxicidade na plataforma, lá no ano de 2024, “conteúdo controverso gera engajamento. Conteúdo extremo gera engajamento ainda maior”.
Outra tática muito comum utilizada na rede social é o chamado "vagueposting": usuários fazem posts incompletos ou misteriosos para obrigarem os interessados a comentarem exigindo respostas. É uma espécie de clickbait para gerar engajamento direto no X, o que empobrece a experiência na rede social em prol de números (e possivelmente dinheiro) para quem posta.
Queda de audiência ajuda a explicar impulsionamento de polêmicas
Esse comportamento aparece em um momento delicado para a plataforma. Apesar de Elon Musk frequentemente afirmar que o X bate recordes de uso durante grandes eventos, os poucos dados auditáveis disponíveis sugerem um cenário mais complicado.
Na União Europeia — onde a empresa é obrigada a divulgar métricas por conta da Lei de Serviços Digitais (DSA) — o X perdeu cerca de 11 milhões de usuários ativos no segundo semestre de 2025, uma queda próxima de 15%, passando de pouco mais de 76 milhões para 64,8 milhões de usuários na região.
Ao mesmo tempo, a empresa reduziu significativamente sua equipe de moderação local, que caiu de mais de 2,2 mil funcionários em 2023 para cerca de mil pessoas no fim de 2025. Sem acesso aos dados globais completos, é impossível dizer se essa tendência se repete no restante do mundo.
Ainda assim, os números europeus ajudam a contextualizar um cenário onde capturar atenção — mesmo que pela indignação — pode ter se tornado ainda mais importante para uma rede social em busca de relevância.
O custo mental de discutir videogame o tempo inteiro
Talvez a parte mais irônica disso tudo seja perceber quanto tempo gastamos discutindo videogames em vez de jogá-los. Como já ressaltei, não estou dizendo que debate seja ruim - tanto que estou fazendo isso agora, neste exato momento, por meio deste artigo. No entanto, existe uma linha tênue entre conversa saudável e um feed construído para te manter irritado.
Afinal, a permanência do usuário é o que mantém muita rede social viva. Enquanto plataformas como o TikTok apostam em um feed infinito que pode ir desde games até gatinhos, a fórmula do X parece outra: Quanto mais bravo você fica, mais responde – e quanto mais responde, mais tempo passa ali.

Por aqui, no entanto, esse comportamento começou a cansar. Logo depois de acompanhar de perto as discussões envolvendo Mixtape, acabei desinstalando o aplicativo do celular e hoje entro no X basicamente por obrigação profissional.
Acabei retornando para publicar sobre 007 First Light e vi que, pelo menos no meu caso, foi uma decisão acertada abandonar o local, pois o ragebait e o vagueposting seguem firmes e fortes. O que antes era minha rede social favorita virou um lugar emocionalmente exaustivo, onde qualquer discussão aparentemente inocente sobre games pode rapidamente virar guerra cultural.
Entre passar horas interagindo com pessoas que não conheço e aproveitar esse tempo para jogar coisas que eu gosto, a decisão de deixar o X nem foi tão difícil assim.
Onde estou buscando opiniões sobre games hoje
Apesar de sair do X, eu acabei não abandonando completamente a conversa online sobre videogame. Tudo que tive que fazer foi mudar de ambiente.
Tenho recorrido mais ao Reddit e ao Bluesky, justamente porque eles ainda preservam algo que o X parece ter perdido: comunidades mais distribuídas e menos dependentes de um algoritmo centralizado tentando decidir o que deve me irritar hoje.
Enquanto possui um feed de recomendações, o Reddit também é uma plataforma que divide seus conteúdos por tópicos, o que facilita encontrar justamente os assuntos que você quer comentar. Com isso, as discussões tendem a ser mais controladas e pautadas em interesses, não em engajamento.
O Bluesky, por outro lado, conta com um feed parecido com o X, mas garantindo mais liberdade para o usuário na exibição dos conteúdos. A rede social também não conta com a mecânica que paga usuários por engajamento, o que torna a experiência mais orgânica.
Além disso, quando quero entender a recepção de um jogo antes de comprar, faço o cruzamento de fontes. Uma dica é visitar a página do game na Steam e ler opiniões de quem realmente comprou e jogou, o que ajuda a ter uma visão ampla sobre o título.
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Para quem curte acompanhar a crítica, a dica é consultar agregadores como o Metacritic e, principalmente, ir além do número da nota, que serve apenas como uma síntese da experiência. Ler reviews completas, assistir a vídeos de criadores em quem você confia e consumir diferentes perspectivas costuma oferecer um panorama muito mais saudável do que cair numa bolha algorítmica que tenta te convencer a odiar um jogo antes mesmo de encostar nele.
Não podemos esquecer que videogame deveria ser diversão, não uma armadilha de engajamento de uma rede social que força o lucro via ódio. E se você percebeu que está passando muito tempo discutindo e passando raiva, tem algo melhor que dá para fazer com essas preciosas horas e minutos: jogar.
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