Prince of Persia: The Lost Crown é o puro suco do Metroid moderno - Review

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Para quem sente falta da Ubisoft mais “experimental” dos tempos de Rayman Legends saudades, Raymaninclusive –, Child of Light e Valiant Hearts, o jogo Prince of Persia: The Lost Crown é um prato cheio. A mais recente adição à saga investe em um quesito que carece em muitos títulos AAA por aí: originalidade. Até porque não é todo dia que vemos uma obra com uma fórmula consolidada na indústria assumir outra roupagem.

Não há como negar que The Lost Crown é um projeto de menor escopo quando comparado aos grandes blockbusters que a desenvolvedora francesa lançou nos últimos anos, mas ter se distanciado da receita de mundo aberto usada à exaustão em produções AAA já é, a meu ver, um ponto positivo. A intenção de fazer diferente, por si só, já foi o bastante para despertar meu genuíno interesse pelo game.

Parece que foi ontem, mas, pasmem: já se passaram 13 anos desde Prince of Persia: The Forgotten Sands. Antes de a Ubisoft revelar a existência de The Lost Crown durante a Summer Game Fest 2023, eu sabia que em algum momento a empresa traria algo inédito para sua prestigiada e longínqua franquia, até por já estar trabalhando em um remake de Prince of Persia: The Sands of Time.

O que pegou muita gente desprevenida foi o anúncio de que o novo Prince of Persia seria, na verdade, um metroidvania 2.5D, cujo protagonista não é um príncipe, mas sim um guerreiro incumbido de proteger Ghassan, o sucessor do trono de Mount Qaf. Apesar de muitos torcerem o nariz para o conceito de metroidvania, o fato é: essa receita mostrou-se à prova do tempo e rendeu games excelentes das mais variadas séries. E The Lost Crown é um deles.

Jornada sem rodeios

Afastando-se de The Sands of Time, The Lost Crown é um metroidvania em seu estado mais puro e, portanto, deixa a história em segundo plano, priorizando 100% o gameplay. A trama acompanha o jovem Sargon, que serve à Pérsia como membro dos Imortais, um grupo de elite que protege a região há séculos.

Após um ataque ao reino, Sargon, nosso protagonista, é encarregado pela Rainha Thomyris de localizar o paradeiro do Príncipe Ghassan e, assim, resgatá-lo, de preferência com vida. Com a ausência do príncipe, é fácil imaginar que os habitantes de Persépolis correm um grande perigo sem a presença de seu líder.

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Embora a premissa possa não instigar à primeira vista, tenho certeza de que você ficará atônito com as muitas reviravoltas que o enredo reserva depois das três primeiras horas, sobretudo envolvendo os outros combatentes dos Imortais. Como é de praxe, vamos evitar dar mais detalhes para preservar a experiência de quem pretende jogar. O que posso dizer agora é que a história faz valer cada minuto gasto nos diálogos – que, bem, não é lá muito tempo também. Os textos, aliás, estão localizados para o português do Brasil, mas não contam com dublagem em nosso idioma.

Conforme mencionado anteriormente, a história fica em segundo plano para dar mais espaço à ação, o que é ótimo para um jogo dinâmico em que é preciso ir e vir o tempo todo. A narrativa é contada de forma objetiva, por meio de conversas concisas e cenas rápidas, em prol de um ritmo harmonioso. Afinal, o bom metroidvania é aquele que nos permite jogar sem interrupções, nos estimulando a descobrir organicamente as nuances de seu mundo.

Mais generoso que muito AAA

O estúdio Ubisoft Mountpellier, responsável por The Lost Crown e também por dois dos melhores títulos de Rayman, Legends e Origins, já havia divulgado que a duração estimada da aventura seria de 20 a 25 horas. Esse é o tempo que você levará caso opte pela dificuldade Guerreiro, que é a configuração padrão, a mesma que escolhi para jogar no PlayStation 5.

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Se você almeja aproveitar o conteúdo em sua totalidade, o que inclui completar todas as missões secundárias, levar os equipamentos ao nível máximo e caçar todos os colecionáveis, é bom somar pelo menos mais umas oito horas ao tempo de conclusão da campanha. Não pense que será uma tarefa fácil, já que existem passagens e salas escondidas nos cantos mais improváveis da cidade.

As tarefas opcionais, apesar de parecerem triviais, concedem aditivos generosos de lore, além de itens valiosos. Se tem uma coisa que The Lost Crown faz muito bem é recompensar o jogador que se arrisca fora do trajeto principal, concedendo ferramentas que amplificam o poder do personagem.

Uma aula de metroidvania

Prince of Persia: The Lost Crown obedece às convenções do gênero e consegue equilibrar com maestria momentos de exploração, combate, plataforma e puzzle. Ainda que o mercado esteja saturado de metroidvanias devido à massificação do estilo, em especial no ecossistema da Steam, não é tão fácil encontrar um jogo que consiga balancear esses quatro elementos sem que um prevaleça sobre o outro.

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O mapa de Mount Qaf é completamente interconectado, com biomas inspirados na mitologia persa, costurados de maneira exemplar para que as mudanças de área sejam sempre sutis. Cada zona é como um engenhoso quebra-cabeça, um enigma impossível de ser resolvido de primeira, exigindo que Sargon, tão logo adquira novos poderes, revisite locais já descobertos para abrir novos atalhos e progredir.

Aqui você vai se deparar com um mapa denso, possivelmente um dos maiores já vistos no gênero, que testa as habilidades do herói a todo instante com obstruções verticais e horizontais. O level design é primoroso e apresenta obstáculos que não subestimam nem superestimam a inteligência e a habilidade de quem está no controle. Você vai se sentir perdido, às vezes desamparado, mas nunca frustrado.

Como nem tudo são flores, a ressalva se dá pela falta de inspiração em certos ambientes, cujas cenas de fundo são montadas a partir de elementos reaproveitados, o que contribui para dar ao jogo um indesejado aspecto de “genérico”.

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Apesar das muitas qualidades, isso nos faz lembrar que The Lost Crown é um projeto de escopo limitado em relação a outros títulos recentes da Ubisoft. Dado que todas as localidades de Mount Qaf são extensas, não foram poucas as vezes em que me senti desinteressado em razão da mesmice visual.

Recursos para personalizar a experiência

A sensação de isolamento não é tão intensa como em um Metroid, mas The Lost Crown também é capaz de impor um clima hostil, principalmente no modo Exploração, no qual há poucos ícones no mapa, fazendo com que o jogador tenha que descobrir o mundo à sua maneira. Ainda, há uma opção de navegação guiada, projetada para destacar os caminhos disponíveis (e bloqueados) a quem está se familiarizando com o gênero só agora.

A propósito, os recursos de acessibilidade são bem-vindos e convidam jogadores de todos os tipos à experiência. Além da opção de calibrar a dificuldade, você pode, por exemplo, reduzir o dano do inimigo, bem como sua barra de vida, ou ainda suavizar – ou complicar – a dificuldade de aparo e o intervalo da esquiva.

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Mesmo se apegando às raízes do gênero, The Lost Crown imprime poucas, mas boas ideias, como a possibilidade de criar marcadores personalizados no mapa, com registros de fotos dos lugares em vez de ícones que não dizem muita coisa. Dessa forma, o jogador acaba tendo uma referência visual dos desafios que precisa revisitar posteriormente.

A arte do parry

Com nítidas influências dos Metroids modernos, Samus Returns e Dread, o combate de The Lost Crown é intenso e porradeiro, tendo o parry como mecânica central – não há qualquer traço de stealth aqui. Embora haja um comando dedicado à esquiva, que funciona bem e serve para desviar de ataques indefensáveis, o foco está na arte de revidar.

Elegante ao estilo Samus Aran, Sargon realiza seus movimentos acrobáticos com uma agilidade invejável, de modo a deixar as batalhas ritmadas. Não há nada de complexo nos comandos, tanto que temos apenas um botão dedicado a ataques básicos, porém há diferentes combinações a serem executadas, a depender também da posição do analógico.

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Sargon efetua uma finalização coreografada, semelhante às técnicas de jogos de luta, sempre que o botão de aparar é pressionado momentos antes de uma investida especial do inimigo. Sendo bem honesto, poucos títulos oferecem uma dinâmica tão satisfatória de parry, desde a precisão na execução até a fluidez na animação.

Poderes do tempo e progressão

Honrando a tradição dos metroidvanias, uma boa porção da aventura é destinada a encontrar novas habilidades para que Sargon retorne a áreas já visitadas e abra novos caminhos. E sim, alguns poderes têm relação com o passado da série e permitem ao herói manipular o tempo, seja criando uma sombra em outra dimensão, guardando sua posição e ação atual, seja se apoiando sobre o véu do espaço-tempo para aplicar uma dash no ar.

Assim que você se acostuma com um novo poder, The Lost Crown não demora a colocar suas habilidades à prova e propõe desafios no timing certo para que você possa desenvolver o que aprendeu. Esse timing é importante, visto que, com a descoberta de novos poderes, a tendência é que a travessia fique cada vez mais complexa.

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Por mais robusto que seja para os padrões do gênero, o jogo tropeça em sua tentativa de se descomplicar. A progressão é pautada em melhorias para os equipamentos e amuletos, ambos aperfeiçoados com cristais do tempo – assumindo o lugar dos pontos de experiência –, então não há um sistema de níveis ou uma árvore de habilidades recheada de opções.

São os amuletos que diversificam a “build” de Sargon. O talismã da sabedoria, por exemplo, quando equipado, desencadeia uma pequena explosão no lugar em que o inimigo foi abatido. Saber administrar os espaços dos amuletos é parte essencial da jornada, posto que o número de compartimentos é bastante limitado, ainda que possa ser expandido à medida que avançamos.

Numa era em que os games estão ficando cada vez mais profundos, a simplicidade de Lost Crown, quando o assunto é evolução de personagem, pode incomodar. Seguindo a tônica de Assassin’s Creed Mirage, o novo Prince of Persia busca ser enxuto e despretensioso, mas a rasa progressão não sustenta suas muitas horas de gameplay. Talvez “cru” seja a palavra que melhor define o jogo nesse aspecto – uma prova viva de que almejar uma proposta minimalista nem sempre é algo benéfico.

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Veredito

Com ares de Metroid e um vasto mapa a ser explorado, Prince of Persia: The Lost Crown nos recorda que a franquia também se sai bem quando adere à progressão lateral, encontrando o equilíbrio ideal entre combates coreografados, desafios exigentes de plataforma 2D e enigmas inventivos.

Apesar de se distanciar da fórmula da saga The Sands of Time, que já dava sinais de deterioração, o novo Prince of Persia não se esforça para introduzir novas ideias ao gênero. Em vez disso, ele se dá por satisfeito em proporcionar uma ótima experiência, embalada pelo espírito que consagrou a série no passado.

Como metroidvania, The Lost Crown joga seguro e soa familiar, às vezes até demais. Já como Prince of Persia, ele faz o que é preciso para se reinventar, respeitando, naturalmente, a história e os pilares das obras anteriores.

Nota do Voxel: 85

Pontos positivos

  • Equilíbrio perfeito entre combate, exploração, desafios de plataforma e quebra-cabeças;
  • Mapa denso, repleto de segredos a serem desvendados;
  • Gameplay ágil e responsivo, tendo o parry como mecânica central;
  • Conteúdo generoso para um metroidvania;
  • Evita subestimar (e superestimar) as habilidades e a inteligência do jogador.

Pontos negativos

  • Repetição de elementos nos cenários e poucas referências visuais, fazendo com que o jogador se sinta “preso” no mesmo lugar;
  • Despretensioso, sobretudo na progressão.

Prince of Persia: The Lost Crown foi gentilmente cedido pela Ubisoft para o propósito de análise e foi testado no PS5. O game está disponível para PS5, PS4, Xbox Series X|S, Xbox One, Nintendo Switch e PC, podendo ser acessado também via assinatura do Ubisoft+.

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