O papel da crítica em jogos [Coluna]

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Algo que esteve presente na minha vida desde cedo foi a crítica. Especificamente, a crítica de jogos eletrônicos. Durante aproximadamente sete anos – antes de me ser cedido esse espaço no Voxel – me dediquei a (tentar) escrever o que, no meio de videogames, se costuma chamar de análises. Nesse período, além de aprender fazendo, também li bastante, tanto críticas de games quanto de outras mídias. Não sou – nem de longe – um estudioso do tema, mas ainda assim vejo muitos equívocos por aí. Então, vamos ver se conseguimos esclarecer algumas coisas.

The Legend of Zelda: Breath of the Wild foi um dos jogos mais aclamados pela crítica na última década.The Legend of Zelda: Breath of the Wild foi um dos jogos mais aclamados pela crítica na última década.Fonte:  Nintendo 

Quando comecei a escrever, eu tinha uma ideia muito rígida do que uma análise de jogo deveria conter: depois de uma pequena introdução, comentários sobre a história, a jogabilidade, os gráficos e o som. Por fim, uma conclusão simples. Era algo quase automático e o pensamento crítico era algo secundário. Na época, quase todas as análises de jogos seguiam essa estrutura. Ainda hoje, não é raro encontrar textos assim sobre jogos. O problema? Bom, é que isso transforma a Arte em um mero produto.

Não me interpretem de forma equivocada: a Arte é, também, um produto. Entretanto, o papel da  análise – ou crítica, qualquer que seja o nome que usemos – não deve ser criar um guia de compras. Percebam: aí está o erro na estrutura que eu acreditava estar correta. No contexto de análises, quando adotamos uma estrutura universal de avaliação, é quase como se estivéssemos buscando uma forma fácil de comparar todos os jogos – para decidir o que vale o nosso dinheiro. Isso não é algo que possa ser chamado realmente de crítica.

Red Dead Redemption 2 atingiu média de 97/100 no agregador de análises Metacritic.Red Dead Redemption 2 atingiu média de 97/100 no agregador de análises Metacritic.Fonte:  Rockstar 

A crítica de verdade envolve – por mais piegas que isso possa soar – a transformação de sentimentos em palavras. Evidentemente que, no contexto de jogos eletrônicos, vamos falar de atributos como gráficos, jogabilidade, sons, etc. Mas isso deve ser feito com o exclusivo propósito de explicar como tais atributos contribuíram para que o crítico sentisse o que sentiu enquanto jogava. Por exemplo: particularmente, eu não gostei de Assassin’s Creed: Valhalla. O título é o resultado de milhares de horas trabalhadas por um sem-número de desenvolvedores, mas eu fiquei entediado. Aí entra a pergunta que todo o crítico (ou aspirante a crítico) deve se fazer: por quê? A partir daí, a crítica nasce e é ela que deve motivar a descrição das características do game.

Naturalmente, tal abordagem significa que pessoas diferentes farão análises diferentes. Aí podemos aproveitar para derrubar outro mito: o de que o crítico deve ser imparcial. Isso é um mito por dois motivos. O primeiro e mais óbvio: imparcialidade real é impossível. Independentemente da atividade que estejamos realizando, não temos como apagar as nossas histórias pessoais, as nossas preferências, as nossas orientações políticas ou o que quer que seja torna cada um de nós únicos. O segundo motivo é algo que deve ser enfatizado tantas vezes quanto for necessário: para haver evolução, a diversidade de perspectivas é essencial.  Ou seja: além de ser inatingível, a imparcialidade, no contexto de críticas, não é algo desejável.

Então, em vez de tentarmos perseguir uma utopia (ou seria distopia?), por que não simplesmente concordamos em sermos sinceros? Sinceros com o que estamos sentindo e por que estamos sentindo; transparentes com quem quer que estejamos falando. Não estou falando de expor todas as posições e histórias de quem está escrevendo. Apenas acredito que não devemos manter segredo sobre os nossos vieses internos. Afinal, eles sempre estarão lá.

Death Stranding recebeu críticas positivas, mas também dividiu opiniões.Death Stranding recebeu críticas positivas, mas também dividiu opiniões.Fonte:  Site oficial 

Ok, mas, tendo dito tudo isso, há outra pergunta que precisa ser respondida: qual é o papel da crítica? Engana-se quem pensa que a crítica serve para apontar dedos, determinando o que é certo ou que é errado (sim, estou falando com a senhora, Lady Gaga). Muitos escritores de fato adotam essa postura, mas isso serve apenas para alimentar o ego de quem está escrevendo. A crítica, acima de tudo, deve servir a um único propósito: educar o leitor.

Lembram daquilo que falamos alguns parágrafos atrás sobre o crítico identificar o que fez com que ele sentisse o que sentiu enquanto jogava? Ao ler (ou assistir ou escutar) críticas, o público consegue aprender a fazer isso por conta própria. A partir daí, o público consegue identificar melhor falhas e acertos e, consequentemente, demandar produtos melhores. Assim, o crítico e, por consequência, o público contribuem para que a mídia amadureça. Sim, é um processo lento, porém vital.

Criação de Yuji Naja e Naoto Oshima, Balan Wonderworld decepcionou fãs.Criação de Yuji Naja e Naoto Oshima, Balan Wonderworld decepcionou fãs.Fonte:  Nintendo. 

Como falei no início, não sou um estudioso do assunto. Além disso, também não é minha intenção ditar como cada um deve escrever. Meu desejo é apenas dar uma perspectiva sobre o que deve nos motivar ao escrever ou ao simplesmente pensar sobre algo.

Para muitos de vocês, é possível que eu tenha falado uma série de obviedades. De fato, nada do que eu disse vai surpreender quem já pensou um pouco mais sobre o tema. Ainda assim, são pontos que devem ser reafirmados, porque há muitos equívocos quando falamos de análises/críticas.

Apex Legends foi lançado em 2019 e surpreendeu a público e crítica.Apex Legends foi lançado em 2019 e surpreendeu a público e crítica.Fonte:  Nintendo 

O amadurecimento da crítica é essencial para a evolução de uma mídia. É um processo longo, mas as recompensas são grandes. Para chegarmos lá, precisamos apenas ter consciência do nosso papel.

O papel da crítica em jogos [Coluna]