Precisamos de maior acessibilidade em video games no Brasil

9 min de leitura
Imagem de: Precisamos de maior acessibilidade em video games no Brasil
Imagem: Xbox

Ao longo das últimas décadas, os video games evoluíram de um simples hobby para um dos maiores e mais lucrativos negócios do planeta. Os jogos digitais já movimentam mais dinheiro que as indústrias do cinema e da música somadas, mas ainda precisa evoluir bastante em diversas áreas, especialmente na acessibilidade.

É fácil deixar de pensar nisso quando você vive sem limitações, mas há milhares de entusiastas de video games espalhados pelo mundo que passam pelos mais diversos problemas quando tentam curtir seus jogos favoritos. Sem dúvidas, os consoles ainda têm um longo caminho a trilhar na busca por uma mídia mais justa e igualitária para as pessoas com deficiência (PCD).

Brasil atrasado

Gabriel Poli, fã dos consoles PlayStation, é deficiente visual e uma das pessoas que diariamente encontram desafios ao tentar jogar video game, até mesmo quando quer usar ferramentas já acessíveis em outras regiões. Poli notou que as versões nacionais dos aparelhos da Sony não têm leitor de tela em português, por exemplo.

Trata-se de um recurso para ajudar jogadores cegos ou com pouca visão a ouvir os textos que estão dispostos na tela. "Nós temos mesmo que lutar por mais acessibilidade nas coisas porque, do jeito que tudo se encaminha, fica cada vez mais difícil jogar video game", lamenta ele.

"Um leitor de tela é algo que todo celular tem hoje e é graças a isso que eu consigo ler as mensagens. Num console, que é um negócio monstruoso, deveria ter um leitor de tela também. No Xbox, a Microsoft colocou o narrador do Windows, mas, como eu gosto do PlayStation, acho que a gente devia ter essa liberdade de escolher em qual console jogar. No PlayStation, você tem que alterar o idioma do aparelho para poder mexer em um leitor que mal funciona, que não lê metade das configurações, e quando lê é tudo em inglês. Você tem que alterar o idioma completo do sistema. Parece preguiça da Sony", reclama o jogador.

Nem todas as ferramentas de acessibilidade do PlayStation foram adaptadas para português do BrasilNem todas as ferramentas de acessibilidade do PlayStation foram adaptadas para português brasileiro.Fonte:  Sony 

Fizemos testes e comprovamos que a revolta de Poli tem fundamento, então procuramos a assessoria brasileira da Sony para cobrar uma posição e melhorias. Infelizmente, recebemos apenas links para as ferramentas de acessibilidade do PS5 e o reconhecimento de que "realmente não temos um leitor de tela em português, mas temos em outras línguas além de inglês (US e UK): japonês, alemão, italiano, francês (da França e do Canadá) e espanhol (da Espanha e da América Latina)".

Essa situação absurda é apenas um exemplo de como o Brasil está ficando para trás na luta por jogos mais acessíveis. Nos Estados Unidos, a Sony parece um pouco mais preocupada com a questão e tem até um site sobre o tema. A página da SIE relembra que no PS4 é possível converter texto em áudio, inverter as cores e customizar o mapeamento dos botões, mas enaltece especialmente os recursos do PS5.

No novo console, é possível ditar com a voz em vez de usar o teclado virtual e até transformar mensagens de texto em áudio para os membros da party. Curiosamente, o leitor de tela também é mencionado como um recurso com "suporte a diversos idiomas ao redor do planeta", mas o português brasileiro continua não sendo uma opção, a despeito de nossa cobrança.

Os consoles da Sony, por exemplo, não têm conversor de texto em áudio em PT-BR

Essa decisão acaba indo na contramão da própria postura da Sony, que se mostra cada vez mais preocupada em tornar mais acessíveis seus principais jogos. Basta lembrar que The Last of Us Part II foi premiado no The Game Awards 2020 não apenas como melhor jogo do ano mas também em inovação em acessibilidade graças às mais de 60 opções relacionadas.

Esperamos que a Sony do Brasil reveja sua posição o quanto antes e traga logo o suporte a leitores de tela em português.

The Last of Us Part II virou referência como grande jogo AAA com boas opções de acessibilidadeThe Last of Us Part II virou referência como grande jogo AAA com boas opções de acessibilidade.Fonte:  The Game Awards 

Uma questão legal

Enquanto as grandes produtoras ainda não conseguem trazer tantas opções de acessibilidade quanto gostaríamos de encontrar em seus produtos, os jogadores não conseguem o problema por conta própria nem mesmo apelando para modificações realizadas por terceiros nos video games. Como Marco Antonio Araújo Júnior, advogado especialista em Direito do Consumidor e diretor do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor, explica, "A modificação no sistema original faz que o consumidor perca a garantia legal do produto".

Embora a Lei n. 13.416, de 6 de julho de 2015, disponha claramente sobre a inclusão de PCD na cultura e no lazer, as coisas não são tão simples na prática. "O inciso 1º do art. 4º do Código de Defesa do Consumidor garante o princípio de que todo consumidor é vulnerável, a parte mais fraca na relação de consumo", prossegue Araújo Júnior, "Só que a pessoa com deficiência é considerada hipervulnerável e tem uma garantia e uma proteção especial dentro do código de defesa do consumidor e da lei".

"No mercado de games não é diferente. Os jogos digitais são tecnologias idealizadas para corpos padronizados, e essa diversão não foi projetada para todos. O mercado de fornecedores de produtos ou serviços de gamers está se adaptando às necessidades das pessoas, e é isso que deve ocorrer. Essa acessibilidade, adaptabilidade, é uma exigência que vem da lei que defende as pessoas com deficiência, e o Código de Defesa do Consumidor incentiva que o consumidor faça isso", explica o especialista.

O Estatuto da Pessoa com Deficiência garante o acesso das PCD ao lazerEstatuto da Pessoa com Deficiência garante o acesso das PCD ao lazer.Fonte:  Planalto 

Mas há barreiras para até onde um cliente pode ir. Como Poli contou, ele e outras PCD ficam temerosas de instalar softwares e periféricos externos em seus aparelhos, já que, a depender do console e da produtora, a iniciativa pode ser considerada pirataria. Isso é ainda mais frustrante quando levamos em conta as limitações de um console oficial, como no caso de PlayStation nacionais sem leitor de tela em português. Como proceder, então?

"Se o fornecedor ainda não conseguiu dar acessibilidade ao serviço, isso tem que ficar claro na oferta, no rótulo, na publicidade e no site de maneira ostensiva e com linguagem acessível", explica Araújo Júnior. "O fornecedor tem que dizer se aquele serviço atende a PCD. Se a pessoa contratar um serviço que não está adaptado, o CDC impõe que ela terá direito à devolução do produto sem nenhuma multa. O que a gente quer, entretanto, não é só a possibilidade de devolver, é que esse mercado atue de forma a incluir a pessoa com deficiência.", finaliza o especialista.

O que a gente quer não é só a possibilidade de devolver, é que esse mercado atue de forma a incluir a pessoa com deficiência

"A pessoa que tem dificuldade de usar um stick, por exemplo, porque tem lúpus ou dores crônicas, tem que ter a possibilidade de usar o mesmo joystick de outra maneira. Isso é inclusão. Existe uma consciência se formando aos poucos nos fornecedores, e caso o consumidor se sinta prejudicado pela falta de informação, acessibilidade ou porque tentou devolver e não foi atendido, é preciso registrar a queixa junto ao Procon e fazer valer seus direitos."

E as outras produtoras?

Eleito pela revista Time como uma das melhores invenções recentes, o controle adaptativo do Xbox chegou a ser prometido para o mercado brasileiro em um comunicado oficial, mas simplesmente não foi lançado por aqui, com a Microsoft alegando problemas de alta demanda no resto do planeta. Pedimos um posicionamento da empresa sobre sua visão do mercado atual de video games e o que ela está fazendo para ajudar as PCD.

O controle adaptativo do Xbox foi uma das melhores iniciativas de acessibilidade já vistas nos videogamesControle adaptativo do Xbox foi uma das melhores iniciativas de acessibilidade já vistas nos video games.Fonte:  Xbox 

"O Xbox Series X e o Xbox Series S apresentam indicadores táteis nas portas para apoiar as pessoas cegas e para ajudar com o cabeamento de alcance. Além disso, o Xbox oferece uma variedade de recursos de acessibilidade, incluindo Copilot, Magnifier, Narrator, aprimoramento de vibração, Game Chat Transcription, compatibilidade com o Xbox Adaptive Controller e mais para ajudar os jogadores a criar, competir, conectar e se divertir de maneiras que atendam às suas necessidades. Esses recursos estarão disponíveis com o Xbox Series X e Xbox Series S e continuaremos procurando maneiras de tornar os jogos mais acessíveis.", disse a Microsoft.

Na família Xbox, há muitos recursos que ajudam as PCD, mas o Xbox Adaptive Controller ainda não chegou ao Brasil

A situação é muito pior nos video games da Nintendo. No site da AbleGamers.org, Josh Ziri fez uma avaliação dos recursos de acessibilidade do Nintendo Switch, e a Big N infelizmente não se saiu nada bem. Entre todos os sistemas da nova e da antiga geração, o console híbrido é o que tem menos recursos de acessibilidade, o que o deixa bem trás da Microsoft e da Sony.

"Nas opções do sistema, encontramos zero recurso e opção de acessibilidade", lamentou Ziri em sua análise. "O mais perto que chegamos disso é na capacidade de mudar o tema de fundo do console entre branco e preto, o que pode ajudar a vista jogando no escuro, além de tornar parte do texto mais legível [...]. Depois de ver outras companhias indo tão longe na implementação de recursos de acessibilidade, é decepcionante, para dizer o mínimo, ver a Nintendo ignorar isso completamente".

Nintendo Switch é o pior console em opções de acessibilidade, segundo o AbleGamers

Procurada para se posicionar sobre suas limitadas políticas de acessibilidade, a Nintendo não ofereceu uma resposta até a data de publicação deste texto, mas atualizaremos o conteúdo assim que isso acontecer.

Mudando o jogo para a melhor

Se a legislação brasileira se limita a garantir o direito de devolução do dinheiro das PCD e as produtoras sequer se dão ao trabalho de localizar todas as ferramentas no mercado, existe alguma luz no fim do túnel para quem só quer curtir os video games sem limitações?

Um dos exemplos mais legais do poder da comunidade veio da organização de caridade norte-americana AbleGamers, que foi criada em 2004 para ajudar mais de 46 milhões de jogadores com deficiência a se divertirem. Além de cobrar e trabalhar com os desenvolvedores para tornar os produtos mais acessíveis, fornece controles adaptados às necessidades de cada um.

A AbleGamers chegou ao Brasil em 2020 para lutar por mais oportunidades aos jogadoresAbleGamers chegou ao Brasil em 2020 para lutar por mais oportunidades para os jogadores.Fonte:  AbleGamers 

Desde 2017 rola aqui no Brasil um evento anual de arrecadação de fundos para esse fim. Em 2020, a AbleGamers passou a atuar oficialmente em nosso território com direito a site e conta no Twitter.

Com a ajuda do representante da organização no Brasil, Chrizeba, que gentilmente nos forneceu bastante material, conhecemos diversos jogadores incríveis que servem de exemplo de sucesso e podem inspirar muitos gamers em potencial, como o incrível Esquerdinha Games. Após sofrer um acidente e ficar com boa parte do corpo paralisada, ele produz conteúdo e gameplay de alta qualidade jogando com apenas uma mão.

Outro ótimo exemplo é André Nerdsurdo, CEO e fundador da Liga dos Surdos, que, após perder boa parte da audição, formou um grupo de jogadores com deficiência auditiva. Você pode conferir o trabalho dele em https://www.twitch.tv/nerdsurdo.

Jogadores como eles lembram que, por pior que seja a realidade do mercado, a fragilidade da legislação e até mesmo o profundo descaso das empresas, o amor e a dedicação dos fãs podem desafiar os limites, romper barreiras e cativar inúmeras pessoas a se apaixonarem por essa mídia tão legal.

Torcemos para que as grandes empresas um dia mostrem por esses gamers o mesmo carinho que eles têm pelos jogos.

Precisamos de maior acessibilidade em video games no Brasil