Entrevistamos o CEO da Modern Wolf, uma produtura anti crunch

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Imagem: Modern Wolf

Não é segredo que, por mais divertidos que os videogames sejam, muitos deles ganham forma ao explorar abusivamente a mão de obra de seus desenvolvedores, com jornadas de trabalho extenuantes e a infame cultura do crunch, que obriga os funcionários a trabalhar em hora extra a fim de cumprir o prazo de lançamento dos jogos.

Já vimos diversas denúncias do tipo em estúdios renomados como a Naughty Dog e a Rockstar, e é coisa rara ver produtoras preocupadas com o bem estar de seus funcionários. Até por isso, o trabalho da Modern Wolf é tão especial e digno de nota. Trata-se de uma produtora novata, que completou um ano pouco tempo atrás, mas que tem como um de seus principais valores respeitar os desenvolvedores indie e garantir um ciclo de lançamento mais responsável e humano.

Em 30 de julho será lançado seu primeiro jogo, Necronator: Dead Wrong, mas ela tem muito mais jogos a caminho, como você pode conferir no trailer acima. São títulos vindos de estúdios de todo o planeta, já que a ideia da Modern Wolf é valorizar criadores de mercados pouco celebrados pelo mainstream. Para entender melhor esses ideias, conversamos com Fernando Rizo, o CEO da publisher.

Como produtora, vocês estabeleceram um compromisso firme sobre garantir um ambiente de trabalho seguro e saudável. O quão importante é, para vocês, combater a cultura do crunch?

"É extremamente importante para nós! A cultura do crunch só existe porque a indústria a tolera, facilita, é conivente. A Modern Wolf é um pequeno peão em um grande jogo, mas absolutamente vamos fazer a nossa parte. Eu acho que é tudo um exercício de empatia. Muitos de nós por aqui, eu incluso, éramos desenvolvedores antes. Sabemos como funcionam as coisas e não queremos ajudar a perpetuar práticas desumanas. É simples assim."

Vocês também disseram que vão sempre ajudar a lançar jogos de países que não aparecem tanto na grande mídia, amplificando vozes e culturas diferentes. Como se sentem sobre esses mercados estrangeiros? Há algum plano de trabalhar com o Brasil?

"Neste segundo estamos trabalhando com a Toge Productions, da Indonésia, em Necromator: Dead Wrong. Eles são um time extraordinariamente talentoso e muito trabalhadores. Adoraria ver a Modern Wolf conseguir levar ao mainstream os desenvolvedores de partes menos representadas do mundo. A América Latina em especial é muito importante para mim, já que meus pais são cubanos e seria motivo de orgulho pessoal para mim — e para a minha mãe! — ajudar a promover jogos latinos. Estava nos meus planos visitar alguns eventos de jogos na região antes do mundo implodir. Se tivermos eventos presenciais ano que vem, você pode esperar me encontrar no Brasil para ouvir os desenvolvedores e suas ideias!"

Como vocês se sentem em relação ao suporte a jogos indie vindos das principais produtoras de console, como a Nintendo, Sony e Microsoft?

"Acho que as produtoras de consoles estão fazendo coisas muito legais para ajudar a apoiar os desenvolvedores indie. Você encontra jogos indie no Xbox Game Pass, e a Nintendo tem o seu programa Indie World Showcase que apresentam regularmente. Mas é claro que, por ser uma plataforma mais aberta por definição, você sempre vai encontrar mais jogos indie no PC, e isso é ótimo. O PC é tipo o Oeste Selvagem, e eu acho muito empolgante sair para explorar em lugares como o Itch.io para descobrir desenvolvedores talentosos fazendo coisas realmente inovadoras!"

Devido à pandemia do coronavírus, deve estar mais complicado divulgar os seus jogos agora que as feiras de videogame foram todas canceladas. Como foi a adaptação para a rotina de trabalho em homeoffice?

"Rapaz, essa é uma grande pergunta! Você está totalmente certo sobre estarmos perdendo os grandes eventos, já que não existe sensação mais legal do que encontrar fãs e jornalistas cara a cara e então deixá-los jogar nossos títulos. Eu amo encontrar os desenvolvedores e ouvir suas ideias para novos jogos ao vivo. É uma sensação sem igual, eu adoro! Espero que em 2021 a gente já tenha uma vacina eficiente contra a COVID e que ela esteja democraticamente disponível para todos, e que com isso a gente possa fazer eventos de novo.

Porque obviamente a saúde geral é muito, muito mais importante do que fazer eventos de jogos, então fico feliz que esteja tudo pausado agora. Só seria uma pena se eles nunca mais voltassem. Alguns de nossos desenvolvedores foram mais afetados do que outros, mas temos a sorte de continuar nos negócios. Se estivéssemos no ramo de musicais ou de luta livre, estaríamos ferrados. Tivemos que fazer alguns pequenos adiamentos, mas estamos felizes de dar aos nossos desenvolvedores mais tempo. Até porque, no grande esquema das coisas, que diferença faz? Somos muito sortudos por poder continuar nos comunicando e trabalhando remotamente, e sou grato por isso."

Presumo que agora vocês devem estar focando na divulgação de Necromator: Dead Wrong, que já saiu no Early Access do PC. Como vocês se sentem sobre esse jogo, e o que devemos esperar do futuro?

"Você presumiu certo! Necronator: Dead Wrong é um jogo totalmente incrível, e ele já alcançou tanto em Early Access! Desde o primeiro dia ele é cotado com análises muito positivas na Steam, e o máximo que reclamavam era que faltava conteúdo, o que não discordamos! A Toge Productions adicionou um monte de conteúdo novo desde a chegada ao Early Access em fevereiro, então agora o jogo está lotado de coisas incríveis. Eu genuinamente acredito que agora ele é tão bom quanto Slay the Spire ou Monster Train, dois jogos que admiramos muito. Acho que fãs desses jogos vão encontrar muito para amar em Necronator: Dead Wrong.

Nosso catálogo futuro também está lotado! Temos o simulador de vida em uma nave espacial, o Ostranauts, e então a sequência do hit cult NEO Scavenger mais adiante neste ano. Também temos Kosmokrats, um jogo de puzzle em gravidade zero hilário focado em um universo onde os soviéticos venceram a Guerra Fria. No ano que vem vocês verão o multiplayer cooperativo caótico Skeleton Crew, o simulador político Rogue State Revolution, e Out There: Oceans of Time, a sequência do clássico indie Out There, com bastante exploração em ficção científica. E tem mais vindo por aí, mas vocês vão ter que conversar comigo ano que vem para saber exatamente o que é, sinto muito pelo suspense. Muito obrigado pelo seu tempo!"

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