Interfaces simples dos jogos de poker online escondem tecnologias avançadas

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Equipe TecMundo

@tec_mundo

A qualidade gráfica de jogos como Metro Exodus, Resident Evil 2: Remake e Kingdom Hearts 3 criam ambientações dignas de cinema. Nesses games é possível perceber visualmente toda a evolução da indústria, que atinge níveis exorbitantes de produção imagética.

Porém, em outros tipos de games fica mais difícil perceber o intenso emprego da tecnologia no desenvolvimento das plataformas, como é o caso dos jogos de poker online. Por trás dos gráficos simples das mesas e das cartas espalhadas, há uma série de desafios estabelecidos para a indústria da programação e da inteligência artificial; mas quais os motivos disso?

Fonte: Replay PokerFonte: Replay Poker

A dificuldade de simular ambientes próximos ao real

A imagem do cenário de uma partida de poker no mundo real rapidamente vem à cabeça de quem já viu algo sobre o esporte: uma mesa (na maior parte das vezes, verde), pessoas sentadas em círculo (ou em um formato oval), fichas e cartas espalhadas sobre a superfície.

A dinâmica do jogo de pôker, essencialmente, passa muito pelas expressões dos jogadores, de maneira que a imposição do corpo faz toda a diferença. No mundo real, o competidor tem uma visão 360°, observa as feições de cada um dos oponentes, sente o clima do ambiente e faz uma leitura completa da partida.

PokerFonte: European Casinos Association

Além disso, o jogo presencial cria outras variáveis de dificuldade comuns no esporte: um jogador pode estar mais acostumado com o local, pode ter viajado menos horas para chegar até ali, ou pode se adaptar melhor ao clima da região; tudo faz diferença, já que a modalidade é baseada na capacidade de raciocínio e de concentração, elementos físicos do corpo.

Se o esporte poker é amplamente dependente de questões físicas, como emular tais contextos e sensações no mundo online?

Preocupação com a dinâmica de jogo

Logo de início, os desenvolvedores de um game de poker precisam ter os objetivos do produto bem estabelecidos. Será um jogo para divertir e entreter o usuário ou será de fato um simulador atrativo para jogadores profissionais? A primeira opção é mais simples de ser produzida, e não requer necessariamente um investimento profundo na criação de dinâmicas que emulem sensações do mundo real, e basta uma reprodução das regras e do funcionamento do esporte.

Fonte: Replay PokerFonte: Replay Poker

Ao realizar uma simples pesquisa no Google ou mesmo nas lojas de aplicativos dos smartphones, é possível encontrar uma série de opções de jogos sem custos que podem ser divertidos e oferecer entretenimento, mas não criam de fato um ambiente essencialmente desafiador para quem pretende se desenvolver de maneira profunda no esporte.

Os grandes sites de poker on-line não costumam ser gratuitos, e cobram valores de apostas tal qual uma mesa presencial. O Replay Poker é plataforma diferente no meio, que oferece experiências próximas de um torneio mundial de poker, porém, gratuitamente. Não é necessário pagar para entrar nas mesas, e basta convidar amigos para ganhar mais fichas nos jogos.

Por não se propor a ser um 'joguinho', mas sim um simulador de poker, o game precisa atingir dois públicos distintos, criando uma ambientação que chame a atenção dos jogadores profissionais acostumados com grandes torneios; porém, que ao mesmo tempo se mantenha atrativa para quem está se lançando no esporte.

Para alcançar o objetivo, a empresa desenvolveu um novo site em HTML5, substituindo o antigo em Flash. Com a nova versão, o Replay Poker torna o site mais responsivo e capaz de manter a qualidade gráfica para diferentes dispositivos. A nova plataforma também melhorou a qualidade das imagens, dos sons e da dinâmica do jogo, além de permitir a reprodução em diferentes telas sem prejudicar a qualidade para jogadores com celulares e tablets menos potentes.

O desenvolvedor desse tipo de produto precisa ter em mente que um jogador pro de uma franquia de aventura sabe que precisa de um computador potente para jogar. Porém, na situação de um objetivo misto como o simulador/jogo de poker, há a possibilidade da entrada de usuários com dispositivos bem abaixo do esperado para um completo funcionamento da plataforma. É por isso que os criadores precisam utilizar a tecnologia para minimizar a perda de qualidade e oferecer um estilo padrão.

Portanto, a dificuldade na criação dos jogos de poker não está em produzir gráficos exuberantes com simulações de variáveis de luz e de som presentes no mundo real, porque o próprio esporte não pede isso. O desafio está em oferecer dinâmica e qualidade nos sites, que precisam rodar igualmente ‘limpos’ para os mais diversos tipos de público.

Por que o poker é tão desafiador para a inteligência artificial?

Ao jogar FIFA 20, NBA 2K20 e outros games de esportes, desde as versões mais antigas, é possível travar batalhas duras contra o ‘computador’. Os softwares de inteligência artificial conseguem emular movimentos e lances dos jogadores; porém, por que no poker é tão difícil atingir um nível de excelência que realmente implique uma concorrência aos melhores competidores da modalidade?

PokerFonte: Fox Corporation

A resposta é simples: o poker trabalha com habilidades muito humanas. Ao analisar o jogo e prever os próximos movimentos, o jogador não está lidando apenas com operações matemáticas, mas também com o blefe do oponente, que pode levar a partida para o lado que bem entender e vencer na habilidade psicológica de mostrar que está com uma mão melhor.

“Se um movimento é bom ou não, depende de coisas que você não pode observar. Isso também resulta na necessidade de ser imprevisível. Se você nunca blefa, você não é um bom jogador. Se você sempre blefa, não é um bom jogador”, explica o professor especialista em inteligência artificial aplicada aos games na Duke University, Vicent Conitzer, em entrevista à revista de ciência.

Um esporte como o futebol também conta com questões psicológicas, mas isso é suprimido na versão online. O emocional faz parte da psique humana no mundo real, mas não influencia no desenvolvimento do jogo em si. Um jogador ideal deveria ser frio e executar todas as funções de passe e chute sem qualquer interferência; o que o computador pode fazer. Mas e no poker, em que as decisões são muito baseadas nos movimentos alheios?

No poker, a inteligência artificial precisa jogar com pouquíssimas informações. Não se trata de uma situação completamente lógica em que é possível analisar o contexto e fazer todos os cálculos. O poker passa pelo ímpeto de arriscar e pela capacidade de fingir. Não é à toa que existe um termo da língua inglesa para isso: ‘poker face’, que traduz uma feição livre de sentimentos e reações.

Fonte: EA SportsFonte: EA Sports

É por tudo isso que desenvolver sistemas capazes de desafiar os melhores jogadores de poker do mundo é um big deal para a inteligência artificial: o aprendizado de um esporte tão humano pode criar novos paradigmas em toda a indústria.

O projeto ‘Pluribus’

O Pluribus Poker AI é um dos projetos mais bem-sucedidos na criação de uma IA capaz de derrotar grandes jogadores de poker, o que, inclusive, ela já fez. Produzido pela Carnage Mellon University, a máquina ganhou apoio financeiro do Facebook e até do exército norte-americano.

Para vencer os campeões mundiais que enfrentou, a IA utilizou uma estratégia não muito comum a humanos: aplicar quantidades de apostas diferentes, uma tática chamada de donk betting, em que se termina a primeira rodada com uma chamada e abre a próxima com uma amposta.

Os criadores do projeto publicaram um artigo na revista Science, em 2019, explicando o funcionamento da máquina, que aprendeu as lógicas do esporte jogando contra si mesma. Em primeiro lugar, faz os cálculos de uma estratégia ‘blueprint’, em que joga seis diferentes cópias de si mesmo para a primeira rodada.

Assim, a Pluribus realiza uma pesquisa detalhada de movimentos possíveis, refinando a abstração da partida. Isso até propicia a antecipação de movimentos, mas não do jogo completo, o que poderia resultar na derrota. Essa pesquisa antecipada limitada funciona melhor em jogos de informação perfeita, o que não é o caso do poker. Porém, os pesquisadores conseguiram desenvolver um novo algoritmo de visão antecipada limitada que permitiu conquistar vitórias no jogo.

Os idealizadores Tuomas Sandholm e Noam Brown, da Carnage Mellon University, detalham a importância do projeto não apenas para o poker, mas também para todo o universo da inteligência artificial.

“A capacidade de vencer outros cinco outros jogadores em um jogo tão complicado abre novas oportunidades para usar a inteligência artificial na resolução de uma grande variedade de problemas do mundo real”, declarou Tuomas, em entrevista à publicações de ciência.

"Estamos entusiasmados com o seu desempenho e acreditamos que algumas das estratégias de jogo de Pluribus podem até mudar a forma como os profissionais jogam”, completou Brown.

Desse modo, os avanços da Pluribus podem criar simuladores de poker online que realmente sejam efetivos para os treinamentos dos profissionais. Junto disso, podem contribuir para o desenvolvimento da inteligência artificial como um todo, para muitos outros games e para inúmeros usos no dia a dia.

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