Há quem diga que a História é cíclica e que nossa evolução nada mais é do que uma sucessão de acontecimentos semelhantes. Não que a gente repita sempre os mesmos atos, mas que tendemos a seguir determinados caminhos e, principalmente, cometer os erros de sempre — fazendo com que o objetivo do estudo seja exatamente olhar o passado para corrigir o futuro.

Mas o que isso tem a ver com jogos? Tudo, principalmente se lembrarmos que a E3 está logo aí e todos estão empolgados com a possibilidade de uma nova geração de consoles.

Voltemos a 2010. Para os entusiastas de hardware, a feira daquele ano não poderia ter sido melhor, já que tivemos três anúncios que prometiam mudar o mundo dos jogos: PlayStation Move, Kinect e Nintendo 3DS.

No entanto, toda a euforia se tornou decepção tão logo esses equipamentos foram lançados. Mesmo com toda a expectativa em torno, o que os jogadores viram foi uma série de "fracassos" das três grandes fabricantes. Afinal, o que houve de errado na E3 2010?

A maldição de 2010

Muito hype para pouco resultado

Ok, dizer que esses lançamentos foram um fracasso pode ser um tanto quanto exagerado, principalmente porque todos eles venderam muito bem. O que aconteceu, na verdade, foi que todos os consumidores que se empolgaram com os anúncios da Sony, Microsoft e Nintendo se decepcionaram quando os produtos chegaram às lojas — e, pior, em suas casas.

Lembra-se de como foi a E3 2010? Assim como hoje, vários rumores sobre os possíveis anúncios eram constantemente discutidos em sites e fóruns especializados, fazendo com que todo mundo esperasse grandes novidades sobre o novo portátil da “Big N” e a revelação do tão falado Projeto Natal. E o que tivemos?

De fato, para os entusiastas, a edição daquele ano da maior feira de games foi muito empolgante. As três grandes fabricantes conseguiram chamar a atenção de todo mundo em suas conferências, trazendo tecnologias realmente impressionantes. O sensor de movimento de alta precisão, o video game sem controles e o 3D sem óculos eram tão incríveis quanto os boatos sugeriam.

Com tanta expectativa em torno, era óbvio que, comercialmente, Move, Kinect e 3DS seriam um sucesso. E foram. Os três principais produtos apresentados na E3 2010 se saíram muito bem nas vendas. Um pouco mais de um ano após seu lançamento, por exemplo, o revolucionário acessório da Microsoft já tinha superado a marca de 18 milhões de unidades. No mesmo período, a Sony também comemorava os 10 milhões de controles vendidos e a Nintendo via 17 milhões de portáteis em todo o mundo. Como isso poderia ser visto como um fracasso?

Muitos aparelhos, pouca diversão

Se, por um lado, as empresas celebravam o bom início de seus consoles e acessórios, o consumidor que se empolgou com eles percebia a furada em que havia entrado. Mesmo com a promessa de revolução que cada um dos novos equipamentos prometia, a verdade foi que nenhum deles conseguiu agradar ao público, que até hoje tenta trazê-los à sua realidade de modo convincente.

Não é complicado perceber o quão decepcionante eles foram. O Kinect é um dos maiores exemplos disso. Você se lembra de todo o barulho que o sensor que captava a movimentação do corpo fez pouco antes de seu lançamento? A promessa era de que ele mudaria a forma com que jogávamos video game, mas o máximo que vimos foi um periférico caro usado para nos fazer pular em frente à TV.

Embora ele realmente tenha proporcionado uma forma diferenciada de interação com alguns jogos, o resultado não foi tão interessante pelo simples fato de não haver nada que atraísse o chamado jogador hardcore — aquele que estava empolgado com as possibilidades do Projeto Natal. A chegada do Kinect não reinventou a jogabilidade, apenas fez com que o Xbox 360 fosse inundado por títulos casuais. Por mais divertidos que eles fossem, não foram o suficiente para convencer o gamer de que a compra do aparelho valeu a pena — principalmente se você não aguenta mais dançar as mesmas músicas ou simular os esportes de sempre.

(Fonte da imagem: Divulgação/Sony)

Com o PlayStation Move, a situação foi ainda mais complicada. Além de também contar com uma lista de jogos não muito interessante — até mesmo as tentativas de adicioná-lo a grandes blockbusters, como Killzone 3 e Resistance 3, não funcionaram tão bem —, a Sony teve de enfrentar a decepção do público,  que se deparou com um produto idêntico ao da concorrência.

Sejamos francos: o Move é uma versão melhorada do Wii Remote. Por mais preciso que ele seja, ele jamais vai escapar dessa sombra e, pior, de seguir seus passos. Isso significa que, assim como aconteceu com a Nintendo, o PlayStation 3 recebeu tantos jogos casuais quanto era possível. O problema disso é que nem mesmo os games eram diferentes da “fonte inspiradora”.

Em outras palavras, continuamos simulando partidas de tênis e golfe, fingindo que o controle é uma arma e fazendo os mesmos movimentos. Os poucos títulos que prometiam inovar decepcionaram ou ainda não foram lançados, como Sorcery, que chega ao PS3 neste mês, quase dois anos após seu anúncio.

(Fonte da imagem: Divulgação/Nintendo)

Por fim, temos o Nintendo 3DS, que segue com a mesma dificuldade de se estabelecer por conta dos poucos títulos disponíveis. Mais do que isso, a “Big N” viu a situação complicar com um começo morno e preocupante marcado pelas baixas vendas por causa do alto preço inicial, o que obrigou a empresa a anunciar um corte poucos meses após o portátil chegar às lojas.

Mais do que isso, os poucos jogos disponíveis não foram o suficiente para mostrar o potencial do tão comentado 3D. Os games que acompanharam o console eram, em sua grande maioria, remakes ou nada muito relevante, o que fez com que o inovador recurso não fosse devidamente aproveitado. Foi somente após os anúncios massivos durante a E3 2011 — incluindo uma pequena overdose de Marios — que isso começou a mudar de figura.

A história que se repete

A indústria também é cíclica?

Novamente, voltamos à questão inicial deste texto: a História é cíclica o suficiente para que vejamos uma nova E3 2010 no próximo mês? A decepção do Move, Kinect e 3DS vai se repetir com o Wii U e com a próxima geração ou teremos algo diferente graças a um possível aprendizado a partir desses erros?

Talvez seja muito cedo para dizermos com certeza o que está por vir. No entanto, podemos ter um breve vislumbre do futuro com base nos exemplos citados até agora. Como dito anteriormente, as empresas não viram nenhum problema comercial em seus produtos, que venderam muito bem logo após chegarem às lojas — com exceção da Nintendo, que fechou o ano fiscal no vermelho. Mesmo com a decepção do público, o saldo final foi bem positivo.

Desse modo, por que mudar? A resposta é simples: porque o público já sabe que a euforia nem sempre corresponde às expectativas. Vide o PlayStation Vita, cuja biblioteca de jogos ainda é pequena, o que fez com que o console não tenha deslanchado em vendas como a Sony esperava.

Ao que parece, o público aprendeu a conter o hype após as decepções de 2010. Resta saber se as fabricantes fizeram o mesmo, trazendo algo realmente impressionante na próxima E3. Não queremos apenas uma nova geração de hardware, mas também jogos que comprovem que o futuro já chegou.

Via BJ