Os chineses desenvolveram as primeiras técnicas de impressão, e o primeiro texto impresso de que se tem notícia é uma escritura budista do ano de 868 d.C.  A grande revolução na tipografia, porém, ocorreu na Alemanha, quase 600 anos depois: o ourives Johannes Gutenberg entrou para a História com a criação da prensa mecânica.

A partir daí, a coisa só aumentou e nós chegamos ao século XXI com livros e leitores digitais, método que ganha cada vez mais adeptos no Brasil e no mundo, mas, por outro lado, ainda enfrenta resistência de muita gente. Assim, era só questão de tempo para que os também tradicionais métodos que prometem formas mais dinâmicas de se ler um texto também ganhassem versões digitais.

Exemplo disso é o surgimento recente de aplicativos que usam a técnica chamada de Apresentação Visual Rápida e em Série, desenvolvida durante a década de 1970 e também conhecida por sua sigla em inglês, RSVP. Eles prometem acelerar a leitura, algo que parece sedutor em um mundo onde cada vez mais temos informações para ler.

Mas a pergunta que fica é: será que isso é realmente possível? E, sendo tecnologicamente viável, vale a pena consumir livros de forma apressada? Esses novos métodos devem ser aplicados a qualquer tipo de texto ou podem se dar melhor de acordo com o tipo de material a ser lido?

A tecnologia

Uma das novidades mais recentes quanto o assunto é aplicação mais tecnológica da RSVP é o Spritz. Apesar de não ser pioneira nesse sentido, a iniciativa é a primeira a ser abraçada por uma grande empresa: a Samsung demonstrou o app em funcionamento no Galaxy S5 e também no Gear 2, o relógio inteligente da companhia, durante o MWC 2014.

Os desenvolvedores prometem que, com ele, você pode ler até mil páginas em apenas 10 horas. Além disso, garantem serem necessários apenas cinco minutos de treino para você começar a usar a ferramenta de forma proveitosa. Ela oferece inúmeras velocidades (em palavras por minuto) e a demonstração no site oficial dá uma ideia de como tudo funciona.

A ideia básica do Spritz — e também de outros apps do gênero, como o Skim, A Faster Reader e Speed Read — é a seguinte: em vez de seus olhos correrem por uma página lendo palavra por palavra, linha por linha, as palavras passam diante de seus olhos em um ponto fixo da tela; desse jeito, a leitura é feita em menos tempo.

As palavras aparecem sempre com uma letra destacada, um ponto fixo de fato, a partir do qual seu cérebro é capaz de identificar o restante da palavra. Em suma, o texto é exibido diante dos seus olhos com uma palavra por vez a uma velocidade pré-definida que, no site do Spritz, varia de 100 a 700 palavras por minuto.

Dinamismo vs. imersão

Diante desse cenário de leitura dinâmica, muita gente pode pensar que aí está a solução para aquele texto mais longo. Ler centenas de palavras por minuto parece ser o ideal para qualquer leitor, afinal é justamente esse é o objetivo de qualquer ato de leitura. Porém, há que se pensar em um contraponto para isso.

Particularmente, acredito que a ideia de “devorar” livros desse jeito pode ser avaliada por pelo menos dois pontos distintos. O primeiro deles é o da imersão de acordo com o tipo de texto que se lê: muitos livros, sejam de ficção ou não, proporcionam uma verdadeira experiência psicológica para o leitor.

Eles causam sentimentos, seja alegria, reflexão, angústia, medo, esperança, portanto, penso ser valioso curtir a leitura, refletir sobre o tema lido conforme a leitura vai fluindo e dar um tempo para a sua própria consciência processar o novo material adquirido. E isso respeitando as particularidades de cada contexto, livro e, é claro, leitor.

Por outro lado, não se pode deixar de reconhecer tais métodos de leitura dinâmica como uma inovação valiosa e útil. A aposta da Samsung de integrar o Spritz ao Gear 2, por exemplo, parece acertada, afinal um relógio tem uma tela pequena na qual fica difícil até mesmo ler um simples email.

Para se inteirar das últimas novidades, ler postagens em blogs e em redes sociais, enfim, os textos mais curtos que povoam toda a internet, uma ferramenta com essa proposta parece cair como uma luva. Mesmo se pensar em um smartphone, cuja tela é maior do que a do relógio, a técnica parece muito apropriada.

Leitura e compreensão nem sempre andam juntas

Entretanto, além das questões ligadas àquilo que a leitura pode causar no leitor, há ainda uma questão muito mais simples e sensível: a compreensão do texto. Olhar letras passando diante de nossos olhos podem otimizar o tempo gasto no processo, mas não garante o sucesso do entendimento da leitura.

Isso quer dizer também que textos mais complicados podem enfrentar ainda mais dificuldades de adaptação a tais métodos de leitura dinâmica. Tal característica demandaria mais “treino” por parte dos leitores adeptos desse tipo de tecnologia, mas mesmo assim a compreensão do material poderia se tornar ainda mais trabalhosa do que virar páginas em uma publicação física ou digital.

Adaptado aos novos tempos

Por outro lado, o consumo de livros digitais tem crescido e atualmente não é muito difícil publicar um livro na rede mundial de computadores, indicando a vontade de leitores de várias partes do mundo de buscar novas formas de interagir com a leitura. Mesmo fazendo parte da minoria, essas pessoas existem e estão se multiplicando.

Além disso, essa procura por eBooks é favorecida também pela facilidade com que tais materiais são criados. Basicamente, qualquer pessoa com um computador e acesso à internet consegue desenvolver e publicar um arquivo em PDF quase sem custo algum, algo bem diferente das publicações tradicionais impressas.

Vale lembrar ainda da quantidade de informação que circula na internet atualmente, com bilhões de páginas, compartilhamentos, emails e tudo mais. Esse parece o ambiente ideal para a proliferação de técnicas de leitura mais ativas, digamos assim, nas quais o leitor participa olhando para a tela e lendo, dispensando outras ações físicas.

Em suma, textos rápidos e simples, como provavelmente muitos emails e até mesmo mensagens que chegam a você por meio de redes sociais e mensageiros instantâneos, parecem mais aptos a serem “consumidos” por meio de uma técnica digital de leitura dinâmica.

E você, o que acha? Será que essa tecnologia é dispensável ou pode ser muito útil dependendo do tipo de texto que se lê? Ou ela simplesmente pode servir a qualquer propósito de leitura? Não deixe de registrar sua opinião aqui embaixo, na seção de comentários.

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