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Quinta temporada de The Bear encerra uma das melhores séries da era do streaming

Crítica - Temporada final entrega despedida à altura de uma das produções mais marcantes da TV nos últimos anos.

Avatar do(a) autor(a): Mateus Mognon

schedule25/06/2026, às 12:00

updateAtualizado em 25/06/2026, às 12:44

Poucas séries conseguiram retratar o ambiente de trabalho com tanta honestidade quanto The Bear (O Urso). Desde sua estreia em 2022, a produção criada por Christopher Storer conquistou público e crítica ao transformar a rotina de um chef de cozinha renomado voltando às raízes de um restaurante familiar em um retrato intenso sobre ansiedade, trauma, obsessão, propósito e as consequências de dedicar a vida inteira a uma profissão.

Agora, em 25 de junho, a premiada série do FX chega ao fim com sua quinta e última temporada, lançada com exclusividade no Disney+. Os oito episódios encerram a trajetória de Carmen "Carmy" Berzatto (Jeremy Allen White), Sydney Adamu (Ayo Edebiri), Richie Jerimovich (Ebon Moss-Bachrach) e toda a equipe responsável por manter o restaurante The Bear funcionando mesmo diante de uma realidade cada vez mais difícil.

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Eu já assisti aos sete primeiros episódios da temporada, enquanto o capítulo final foi mantido em segredo para a imprensa. Ainda assim, o material disponibilizado foi suficiente para mostrar que The Bear continua sendo uma das produções mais especiais da televisão atual e uma aula de como encerrar uma história sem perder sua essência.

O último dia do restaurante

A nova temporada retoma os acontecimentos logo após o final do quarto ano. O relógio que contabilizava o financiamento do restaurante chega ao fim e Carmy anuncia sua saída. Com isso, Sydney, Richie e Natalie precisam assumir definitivamente o comando do negócio e lidar com um futuro que parece cada vez mais incerto.

Enquanto esse pano de fundo já seria suficiente para colocar os personagens sob pressão máxima, a série adiciona mais duas camadas de caos à equação. Além de uma tempestade de grandes proporções atingir Chicago (e o restaurante), toda a temporada se passa ao longo de um único dia de trabalho, transformando cada minuto em uma corrida contra o tempo.

A estrutura lembra bastante o que vimos recentemente em The Pitt, sucesso da HBO Max que também utilizou um único turno de trabalho para construir tensão. No entanto, The Bear faz isso sem abrir mão do drama humano que sempre esteve no centro da narrativa, usando o relógio como combustível para aprofundar conflitos que vêm sendo construídos há anos.

A temporada final funciona como um grande acerto de contas

O que mais me chamou atenção nos episódios foi a sensação constante de consequência. Diferente de muitas produções que parecem esquecer acontecimentos passados conforme avançam, The Bear transforma praticamente tudo que aconteceu anteriormente em combustível para sua reta final.

As dívidas acumuladas, as escolhas impulsivas, os relacionamentos desgastados e a evolução dos personagens ficam evidentes e impactam a vida dos personagens. Como toda boa temporada de encerramento, a série entende que histórias precisam gerar consequências reais e que crescimento nem sempre acontece sem dor.

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Por isso, existe uma sensação permanente de prestação de contas. Os personagens não estão apenas tentando salvar o restaurante, mas também estão tentando entender se todo o sofrimento, sacrifício e obsessão que viveram ao longo dos últimos anos realmente valeram a pena.

Carmy, Syd e Richie vivem os melhores momentos de suas jornadas

Nesse contexto de fechamento, o crescimento dos personagens continua sendo um dos maiores acertos da série. Jeremy Allen White entrega mais uma atuação impecável como Carmy, agora enfrentando um desafio muito diferente daquele que acompanhamos nas temporadas anteriores.

Depois de anos vivendo exclusivamente para a cozinha, o chef finalmente precisa descobrir quem é sem o restaurante. O problema é que abandonar aquilo que ama talvez seja ainda mais difícil do que permanecer preso em um ambiente que constantemente cobra sua saúde física e emocional.

Sydney, interpretada por Ayo Edebiri, também ganha enorme destaque na reta final. Ao assumir responsabilidades cada vez maiores em um momento de caos, ela começa a trilhar justamente o caminho que transformou Carmy em um profissional brilhante, mas emocionalmente destruído –  levantando questionamentos importantes sobre ambição, liderança e equilíbrio.

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Marcus também segue como um dos personagens mais humanos da série ao enfrentar fantasmas ligados ao passado, ao presente e ao futuro. Mesmo com seu jeito introspectivo, podemos ver uma atuação forte de Lionel Boyce.

Já Richie continua excelente, roubando a cena toda vez que aparece e mostrando uma das maiores evoluções já vistas na televisão. Com uma atuação potente de Ebon Moss-Bachrach, o personagem é uma grande representação de quem sempre buscou seu lugar no mundo.

Um restaurante além do chef

Além do trio principal, a temporada continua se apoiando em um elenco extremamente talentoso. Nomes como Abby Elliott (Natalie "Sugar"), Liza Colón-Zayas (Tina) e Matty Matheson(Neil Fak) ajudam a construir um ambiente de trabalho que parece genuinamente vivo e, acima de tudo, humano.

Até personagens secundários recebem espaço para encerrar suas histórias de maneira satisfatória e com impacto, como Tio Jimmy, interpretado por Oliver Platt. O resultado é uma temporada que faz questão de lembrar que o restaurante nunca foi apenas sobre Carmy, mas sim sobre um grupo de pessoas tentando encontrar sentido em meio ao caos.

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Essa dinâmica coletiva sempre foi uma das maiores forças da série e continua funcionando muito bem na despedida. Quando os personagens dividem a cozinha, a sensação é de que estamos observando uma família disfuncional tentando sobreviver junta mais uma vez – e isso fica ainda melhor sob a liderança de Syd.

Todo o talento do elenco fica ainda mais evidente se você assistiu ao especial Gary, lançado recentemente no Disney+, ou revisitou temporadas anteriores da produção. Em tempos onde grandes séries pecam por trazer unidade do início ao fim, é muito interessante ver The Bear encerrando o seu ciclo de maneira tão coerente.  

The Bear continua sendo uma série sobre trabalho, não sobre comida

Enquanto a comida ainda possui grande protagonismo na produção, a última temporada também evidencia que o trabalho é o grande protagonista da série. The Bear sempre conseguiu transmitir com autenticidade as exigências físicas, emocionais e financeiras de se dedicar a um restaurantes, algo que poucos programas conseguem representar de forma convincente.

Ao mesmo tempo, a produção também serve como exemplo sobre dedicação a uma carreira – e não necessariamente culinária. O restaurante funciona como um cenário para discutir temas universais como pressão profissional, síndrome do impostor, excesso de trabalho, luto, ansiedade e a busca constante por validação.

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Por isso, é impossível não enxergar paralelos com diversas outras profissões. Jornalismo, produção de conteúdo, publicidade, desenvolvimento de software e inúmeras carreiras criativas compartilham o mesmo sentimento de dedicação extrema retratado pela série.

A rotina enfrentada pelos personagens representa qualquer pessoa que já permaneceu em um ambiente desgastante porque acreditava no que estava construindo. Mesmo diante de cortes, horas extras, instabilidade financeira e frustrações constantes, eles continuam tentando fazer algo de que possam se orgulhar.

Uma das frases que segue martelando na minha cabeça após assistir veio do personagem Computador. Sem dar spoilers, em um momento da série, Tio Jimmy questiona por que continuar insistindo diante de tantas dificuldades após o financiamento do restaurante terminar. Ele responde, de maneira simples e direta: "Porque é o que nós temos".

A frase resume perfeitamente o espírito de The Bear. Muitas vezes, continuamos lutando não porque seja racional ou confortável, mas porque aquilo faz parte da nossa identidade e representa algo que não estamos prontos para abandonar – e isso já é suficiente para ajudar a passar por outros traumas e situações difíceis da vida.

É justamente nesse ponto que a série encontra sua maior força emocional. Apesar de se passar em um restaurante, a história fala sobre qualquer pessoa que já amou um trabalho, um projeto ou um sonho mesmo quando ele parecia cobrar um preço alto demais. De vez em quando, não existe muita explicação, apenas motivação.

Vale a pena assistir à temporada final de The Bear?

Mesmo sem ter assistido ao episódio final, fiquei extremamente satisfeito com tudo que foi entregue por The Bear em sua última temporada. O humor, a emoção, a beleza visual e as atuações que marcaram a série continuam presentes, agora acompanhados por uma sensação constante de encerramento que dá peso a cada acontecimento.

Em uma época em que tantas produções parecem não saber como concluir suas histórias, The Bear demonstra que ainda é possível fazer televisão com planejamento, sensibilidade e confiança nos próprios personagens. A temporada final transforma aquilo que poderia ser uma despedida melancólica em algo cheio de esperança, sem abandonar o realismo que sempre definiu a série.

The Bear demonstra que ainda é possível fazer televisão com planejamento, sensibilidade e confiança nos próprios personagens.

A melhor comparação possível talvez seja a de um restaurante de alta gastronomia, com entrada, prato principal e sobremesa. Como a própria série mostra, nem todas as refeições servidas ao longo da jornada são perfeitos e podem contar com deslizes, mas o conjunto da obra justifica completamente a visita. 

Se os sete episódios disponibilizados para a imprensa servirem de indicativo, The Bear encerra sua trajetória como uma das séries mais importantes da era do streaming. Assim como gastronomia, o gosto varia de acordo com o paladar do consumidor, mas eu fechei o Disney+ com sensação de barriga cheia e extremamente satisfeito.

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