Ao longo dos anos, a noiva de Frankenstein já teve diversas versões: de Penny Dreadful, a série que compilou várias figuras da literatura, até A Prometida, onde na verdade o Doutor se apaixona pela mulher que ele mesmo criou. A parceira de um dos monstros mais conhecidos da literatura chegou à telona pela primeira vez em 1935, com o longa A Noiva de Frankenstein, de James Whale. Entretanto, todas essas histórias têm um fato em comum: são baseadas no livro de Mary Shelley, Frankenstein.
A adaptação escrita e dirigida por Maggie Gyllenhaal não é diferente. Mesmo não sendo de uma fonte literária focada nela, a noiva da criatura já ganhou vida própria. Assim, com Jessie Buckley, Christian Bale e Penélope Cruz no elenco, e prometendo um romance gótico misturado com terror, A Noiva! de Maggie Gyllenhaal traz uma nova visão do universo do monstro. Confira a crítica completa abaixo.
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Jessie Buckley domina tudo
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Depois de ganhar inúmeros prêmios por Hamnet e com uma vitória quase certa no Oscar, Jessie Buckley já provou que consegue carregar tranquilamente o protagonismo. Aqui ela interpreta dois papéis, o da escritora Mary Shelley e da noiva de Frankenstein; com uma interpretação intensa e um texto brilhantemente imprevisível, Buckley se destaca em todas as cenas que participa, passando a impressão que isso aconteceria mesmo se ela não fosse a principal.
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O que me agradou bastante é que aqui, tecnicamente, tudo aposta a favor da Noiva. O cabelo, a maquiagem e as falas complementam o trabalho impecável da atriz e a personagem cativa tanto o público que está assistindo quanto às próprias pessoas do filme. O filme seria bem diferente sem a performance de Buckley. Christian Bale e Penélope Cruz segura bem seus personagens, mas no final o destaque merecido fica para a protagonista da obra.
Descontrole controlado
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A roteirista e diretora Maggie Gyllenhaal começa o filme de maneira atrevida, chutando o pau da barraca, mas essa ousadia vai ser perdendo ao longo da experiência. Ida, nome da protagonista antes de se tornar a noiva, está à beira de um colapso quando a conhecemos. Sua insatisfação fica clara de início e escala de maneira brusca e repentina, mas ainda compreensível.
Como mulher, a revolta de Ida é reconfortante. Ver tudo que ela estava disposta a fazer pelas mulheres e o que lhe foi tirado por conta disso é de partir o coração, porém essa coragem e dissimulação da personagem acaba sendo podada pelo próprio roteiro. O foco dela acaba caindo em um clichê que poderia ser evitado.
Essa não deveria ser uma história de amor
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Em todas as suas versões, o nascimento da noiva de Frankenstein veio do mesmo lugar. Trazendo uma mulher de volta à vida sem perguntá-la, e pior, apenas para servir a um homem. Enquanto o filme flerta com a ideia de mudar isso, ele nunca de fato muda.
No único momento em que “Frank” percebe que Ida não é sua, ele a questiona de maneira agressiva mostrando que ela realmente é só uma posse pra ele. Na relação dos dois, a roteirista até inclui algumas falas feministas forçadas para indicar que ela quer ser respeitada, mas ao fim falha em suas ações. Ainda assim, o filme questiona estereótipos e faz o público questionar a sua própria misoginia, mas poderia ter se mantido firme até o seu final.
Gótico de forma contemporânea
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Quando as primeiras imagens do longa saíram, já ficou claro que se trataria de um filme com referências góticas muito por conta do contexto histórico em que a criatura surgiu. Gyllenhaal acerta em equilibrar essa estética com elementos atuais e com um toque lúdico que casa bem com a ingenuidade da criatura e da noiva — que estão se habituando ao mundo real.
Além disso, a diretora utiliza da figura de Mary Shelley para trazer uma metalinguagem que favorece muito o filme e que nos ajuda até a compreender mais a protagonista. Esse complemento nos deixa mais a par da visão da diretora sobre a obra clássica.
Vale apena assistir A Noiva?
A Noiva! dá a atenção merecida à sua protagonista e acerta em sua direção de arte, mas perde coragem de deixar que sua personagem siga seu próprio caminho. A forma que Maggie Gyllenhaal escolheu contar essa história a deixa interessante e complementa muito bem a atuação de Jessie Buckley, com destaque para os diálogos imprevisíveis da personagem, mas perde a sua maior força: a sua dissimulação motivada.
Como um novo filme da noiva de Frankenstein, a roteirista e diretora não chega a desperdiçar a sua chance, mas faltou ousadia para manter a promessa definida no começo até o final. Ainda assim, o filme prova que tanto Gyllenhaal quanto Buckley dão conta do recado de um filme fantasioso, bastava um empurrão final.
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