Hacks: série diverte ao abordar a presença da mulher na comédia (coluna)

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Imagem: Fonte: HBO.

Precisamos falar sobre um assunto importante no campo do entretenimento: o fato de que as mulheres nunca tiveram muitas oportunidades para fazer comédia. Tem dúvida disso? Então convido-o, leitor, a listar mentalmente quais os principais comediantes que você lembra. Depois disso, compare a quantidade de mulheres e homens que surgiu nesta lista.

Ficando no contexto brasileiro de televisão, só para facilitar, é bem provável que você pense em nomes como Renato Aragão, Marcelo Adnet, Tom Cavalcanti, Ronald Golias, Chico Anysio, Fabio Porchat, Jô Soares. Já a lista feminina é provavelmente mais curta: Tatá Werneck, Dani Calabresa, Ingrid Guimarães, e, se puxarmos para o passado, você pode ter lembrado de Dercy Gonçalves, Zezé Macedo e Zilda Cardoso (respectivamente, a dona Bela e a dona Catifunda da Escolinha do Professor Raimundo). A pergunta que se insinua aqui é: por que parece ser menos permitido que uma mulher faça humor? Por outro lado, por que muitos acham que há algo de impróprio em uma mulher que faz as mesmas piadas que um homem?

Essa introdução é uma forma que encontrei para explicar do que se trata o seriado de comédia Hacks, do HBO Max, um grande sucesso de público e crítica (apenas para ter uma noção, o seriado está indicado a 14 prêmios Emmy, cujo evento ocorrerá no próximo 19 de setembro). Criada por Lucia Aniello, Paul W. Downs e Jean Statsky (também criadores de Broad City, série fundamental nesta seara de novas comediantes mulheres), Hacks é uma pequena pérola no catálogo do streaming.

Ela gira em torno de um conflito geracional: Deborah Vance, uma comediante veterana (vivida por Jean Smart, que tem duas indicações ao Emmy – uma por Hacks e outra pelo seu papel na minissérie Mare of Easttown, também ótima) que, embora tenha se consolidado como uma grande estrela do stand-up comedy, está em clara decadência; e Ava Daniels (personificada por Hannah Einbinder), uma roteirista de 25 anos que acaba de ser “cancelada” na internet e na carreira, após soltar um tweet que foi interpretado como homofóbico. Elas dividem algo em comum: o mesmo empresário, vivido por Paul W. Downs (um dos criadores de Hacks e de Broad City, na qual tem um papel hilário como personal trainer), que convence que escrever piadas para Deborah é a única oportunidade que resta para que Ava salve sua carreira.

Em Hacks, Ava Daniels e Deborah Vance duelam a partir de seus recursos na comédia.Em Hacks, Ava Daniels e Deborah Vance duelam a partir de seus recursos na comédia.Fonte:  Fonte: HBO 

O mote do conflito geracional é meio batido, e costuma ser recorrente no cinema, por exemplo, naqueles filmes estilo Sessão da Tarde em que um pai troca de corpo com o filho. Mas não se engane: o embate entre Deborah Vance e Ava Daniels em Hacks é mais interessante que isso. Elas não se acertam não apenas pela diferença de idade, mas pelo olhar diferente que colocam sobre a comédia. Deborah é uma comediante velha guarda, que faz o mesmo número e as mesmas piadas há décadas, e não parece se importar muito sobre o quão engessadas elas são ou quão ofensivas a certos grupos. Já Ava tem uma aproximação maior à comédia enquanto técnica, algo que precisa ser estudado, planejado.

Quem está certa? Hacks, felizmente, não tenta responder. A série da HBO está mais interessada em nos mostrar os duelos entre as comediantes que, com suas línguas afiadas, enfrentam-se usando como “armas” as estratégias da comédia. Tudo dá certo aqui: as duas protagonistas de Hacks (que, em tradução livre, quer dizer algo como “truqueiro”, “vigarista”, alguém que finge ser melhor do que é) brilham dentro dos seus papéis.

Vejamos: Ava Daniels, a roteirista, é um típico exemplar da geração Z. Ela está um tanto humilhada por ter que se submeter a trabalhar para uma comediante velha, que mantém há décadas um espetáculo fixo num hotel de Las Vegas. Embora milionária, Deborah está acomodada fazendo a mesma coisa: recebendo em seus shows os turistas aleatórios de Vegas e participando de ações publicitárias constrangedoras, como sessões de fotos em pizzarias, sempre acompanhada de seu magro séquito de fãs. Para Ava, isso é exatamente o contrário do que ela sonhou fazer – e, ao longo da temporada, ambas terão que lidar com as consequências de suas ações.

Já Deborah Vance é um espetáculo à parte. Defendida brilhantemente pela veterana Jean Smart, ela é uma das personagens mais fantásticas construídas dentro de uma série recente. Deborah é uma diva glamorosa que construiu uma carreira na comédia em que ri de si mesma o tempo todo. Cativante e rápida no gatilho, ela é alguém que gera amor e ódio na mesma medida – o que envolve, claro, sua família e o staff que administra sua carreira e sua casa.

A indicação de Jean Smart ao Emmy é merecidíssima. Ela consegue construir uma estrela dúbia, cheia de camadas e de dramas particulares. Nenhum deles, aliás, é colocado ao espectador de forma forçada. Não deixe de observar o contraste entre a Deborah “montada” de diva e “desmontada” como pessoa real, na casa dos 70 anos. O fato é que a estrela personificada por Jean Smart é tão detestável que não tem como a gente não se comover com a “armadura” de mulher poderosa e independente que Deborah Vance carrega o tempo toda.

E lembra que abri este texto dizendo que mulheres nunca tiveram muitas chances de suceder na comédia? Hacks não se furta a abordar esse assunto. A verdade é que a comédia sempre foi um ambiente misógino, excludente às mulheres. Por várias razões – dentre elas, a dificuldade de se aceitar que mulheres podem, sim, fazer certas piadas, de tom sexual ou escatológico, sem que isso fira a sua integridade. Preste atenção na cena em que Deborah Vance é convidada para participar de um clube de comédia e esculacha o host.

Deborah e Ava, ao assumirem-se como representantes femininas deste ramo, trazem grande contribuições para discussões sobre a mulher comediante que outras séries (como Broad City, Parks and Recreation, Lady Night) já estão fazendo.

Maura Martins é jornalista, professora e editora do portal de jornalismo cultural Escotilha. No TecMundo, é colunista nos cadernos Minha Série e Cultura Geek.