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Vilão protagonista: um caminho complexo para a narrativa

schedule22/08/2018, às 09:00

Vilões são normalmente aqueles que o espectador deve torcer contra, seja em virtude de uma rivalidade com o protagonista ou de suas atitudes nefastas, mesmo que por algum motivo sinta-se empatia ou até mesmo concorde com a motivação dele.

Entretanto, Hollywood tem apostado em projetos que colocam os bad guys no papel principal. Essa escolha parece um tanto quanto fora de padrão, mas se baseia na exploração do universo dos quadrinhos nas telonas sem colocar os super-heróis em destaque.

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A Marvel Studios conseguiu fazer dos seus longas uma grande era de sucesso dos super-heróis, algo que ela deve manter por um bom tempo após recuperar os direitos dos personagens que estavam com a Fox. Já a Warner Bros. não consolidou as adaptações dos quadrinhos da DC como pretendia, mas agora parece ter entendido o caminho que deve seguir para as suas produções.

Enquanto isso, a Sony não possui muitas franquias com o que trabalhar em uma construção de universo compartilhado, exceto o Homem-Aranha. Entretanto, o acordo dela com a Disney tem permitido aventuras do Cabeça-de-Teia ao lado dos Vingadores, assim só lhe deixando a possibilidade de explorar o cânone do teioso com personagens coadjuvantes.

O caminho que a Sony adota é para a construção de um universo baseado nos vilões do Amigão da Vizinhança nos quadrinhos, mesmo que não coloque o jovem herói nesses longas. O primeiro passo do estúdio é com Venom, antagonista do herói que ganhou bastante relevância nas HQs durante os anos 80 e 90, se consolidando com grande parte dos fãs.

Interpretado por Tom Hardy nos cinemas, Eddie Brock é originalmente um jornalista que acaba criando uma disputa de importância com Peter Parker no Clarim Diário. Isso se intensifica quando o simbionte espacial se solta do vigilante e encontra o rival como novo hospedeiro, dando origem à combinação de seres que traria tantos problemas à vida do Homem-Aranha.

Essa personalidade quase nada carismática de Eddie Brock é um problema muito comum para vários personagens que são originalmente vilões. Como a função original dele é baseada em se opor ao protagonista, nem sempre o roteirista elabora camadas suficientes para fazê-lo alguém interessante, o que acaba se tornando um problema ao ter que criar novas histórias em que ele assume a função contrária.

A Sony deve passar por essa dificuldade tanto com o longa do Venom quanto com Kraven e Morbius, tendo Jared Leto no papel principal — produções baseadas em inimigos do Homem-Aranha. Gata-Negra também faz parte dos planos do estúdio, mas é muito mais fácil de ser levada às telonas, por causa do histórico mais rico e cativante da ladra, além do sucesso que longas de roubos acabam fazendo com o público — por exemplo, Truque de Mestre.

Essa inversão de funções já não deu muito certo nas adaptações de super-heróis nas telonas. Esquadrão Suicida tinha diversos problemas, mas o mais relevante de todos era o roteiro inconsistente. O texto de David Ayer não conseguia dar motivação crível para a formação da equipe, tornava os dramas deles desinteressantes, colocava os personagens em situações absurdas e ainda não tinha um real antagonista no seu início de trama — colocando a péssima Magia de Cara Delevingne em uma posição que se esperava do Coringa, um dos maiores vilões de todos os tempos.

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Coprotagonismo vilanesco

Algo que os filmes já comprovaram que funciona para engrandecimento do vilão é colocá-lo como coprotagonista; assim, o personagem tem desenvolvimento de suas motivações, bastante tempo de tela e pode até mesmo ganhar o público pelo carisma. Coringa e Thanos — em Cavaleiro das Trevas e Guerra Infinita, respectivamente — tiveram grande destaque nos longas e conquistaram respeito de críticos e fãs. O Palhaço do Crime, de Heath Ledger, é o pensamento irracional e inconstante que se opõe à previsão do maior detetive da DC Comics. Já o Titã Louco derrota os maiores heróis do MCU e atinge seu objetivo como nenhum outro antagonista havia conseguido.

Em ambos os longas, o roteiro abre com os vilões mostrando seu nível de ameaça e o quão grande é o impacto deles no ambiente em que habitam. Esse tipo de abertura não é deixada de lado nos minutos seguintes, o que faz o espectador entender o que eles desejam fazer para derrotar os heróis ou simplesmente criar cenas surreais o suficiente para que elas sejam memoráveis. O mais difícil para isso dar certo é definir quanto tempo de tela é necessário para se tornarem marcantes, além de uma eficiência enorme de vários elementos cinematográficos, como uma atuação impecável.

Apesar de o coprotagonismo ser uma escolha mais simples para transformar o vilão em um personagem mais marcante e carismático ao público, é possível fazê-lo memorável no papel principal se a narrativa o tornar ainda mais grandioso. Esse é um caso que foge muito de histórias mais maniqueístas envolvendo conceitos simplórios de “bem contra o mal”, já que esse tipo de estrutura, por mais esforçada que seja para dar motivações compreensíveis do antagonista da trama, tende a priorizar o lado dos heróis.

Martin Scorcese já utilizou esse recurso em O Lobo de Wall Street, por exemplo. Ao acompanharmos Jordan Belfort narrando sua própria história, inevitavelmente vemos alguém carismático e que passou por situações, no mínimo, engraçadas. Como ele dá ao público os fatos de si mesmo, o protagonista faz de seus próprios atos inescrupulosos situações menos vilanescas, principalmente tornando momentos questionáveis de suas atitudes acontecimentos surreais.

Outra forma para dar ênfase de protagonismo ao vilão é colocá-lo como o principal objeto de uma investigação, como as duas primeiras temporadas de Narcos fazem com o Pablo Escobar de Wagner Moura. Por mais que o espectador esteja acompanhando a história de como o agente americano Steve Murphy teve influência no combate aos criminosos colombianos, é o narcotraficante interpretado pelo brasileiro que toma conta e serve de principal personagem para sabermos como tais eventos se desenrolaram e, principalmente, quem faz a narrativa fluir com tanta intensidade.

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Há várias maneiras de transformar um vilão em um protagonista marcante de uma obra cinematográfica, mas para que isso ocorra é necessário que roteiro e direção estejam perfeitamente alinhados para fazer um personagem repulsivo ou, no mínimo, questionável se tornar interessante ou até mesmo muito carismático.

Isso foge de princípios simples de uma construção de história, já que o comum é o opositor do herói ser alguém simplesmente detestável ou maléfico. Hollywood tem essa tarefa para ser trabalhada nas próximas adaptações dos quadrinhos, tentando se distanciar do que foi Esquadrão Suicida e criar algo novo com o “Aranhaverso vilanesco” da Sony ou o outrora improvável filme solo do Coringa.

Este texto foi escrito por Gustavo Rodrigues via nexperts.

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