Se você é daqueles que nunca teve talento ou disciplina para os estudos, respire fundo e comece a se sentir aliviado. Por quê? Porque existem milhões de outras pessoas como você! Exatamente: tem muita gente por aí que é um zero à esquerda em matemática, um ponto fora do mapa em geografia ou um sujeito fora de ordem no português.

Desde cedo, a triste sina desses espécimes se resume a levar bronca dos professores, receber castigos dos pais e virar pauta constante nas discussões de conselho de classe.  Mas, mesmo assim, esses seres taxados de hiperativos, preguiçosos, encapetados — ou seja lá o que for — crescem e contribuem muito mais para a sociedade do que contribuíram para a escola.

Portanto, se você é adepto do bordão “quem cola não sai da escola” e está empolgado com a história de que notas baixas não levam necessariamente uma pessoa a ser um futuro morador de rua ou algo do tipo, acompanhe três casos que o Tecmundo preparou para inspirar os dias vindouros.

Diploma em Starcraft

Parte I: paixão à primeira vista

Jogar, jogar, jogar... Por horas a fio. É tudo que Emílio Filizbehn sempre soube fazer. Desde a primeira vez que o garotinho viu um Master System, sentiu que existia uma relação especial entre ele e os jogos eletrônicos. Talvez fosse a emoção. Talvez fosse o desafio. Ou talvez fosse somente a sensação de segurar o controle e tentar conquistar o mundo.

Ampliar (Fonte da imagem: Arquivo pessoal de Emílio Filizbehn)

A cada novo console que surgia, mais abandonados ficavam os outros brinquedos. A bola de couro, com o distintivo do time, dada de presente pelo pai, ficou esquecida no armário. No mesmo ritmo, a cada novo título lançado, mais o menino economizava o dinheiro do lanche para alugar joguinhos.

Enquanto os outros rapazes estavam às paqueras e se divertindo no shopping, Emílio se apaixonava por um Pentium 100 com um modem de 28.8 kbps (nessa época, ele também descobriu a incrível capacidade do seu pai surtar ao ver o preço da conta telefônica). Warcraft, Diablo, Command & Conquer — tudo era fichinha para ele.

Depois da virada do século e com a chegada da banda larga à sua cidade, o jovem pôde exercer sua jogatina por muito mais tempo. Nessa época, já era figurinha carimbada e temida nas lan houses da região. Contudo, ainda assim existia uma ferida aberta na reputação de Emílio: seus pais sentiam muita vergonha de um garoto que não conseguia sair do primeiro grau no colégio.

Parte II: o spam salva-vidas

Os anos seguintes foram repletos de altos e baixos. De um lado, medalhas, prestígio e mais medalhas nos campeonatos de games. Do outro, sete longos anos até o jovem se formar, com muito esforço, no segundo grau.

Ampliar (Fonte da imagem: Email pessoal de Emílio Filizbehn)

É lógico que ele não passou no primeiro vestibular que prestou. E, como era de se esperar, seus pais continuavam achando que ele não prestava para nada. Porém, tudo mudou quando Filizbehn abriu o seu email e, por um lampejo do destino, foi verificar a caixa de spam.

Lá estava a mensagem, bela e formosa: “Temos a honra de comunicar que você foi convidado para ingressar na Universidade Avançada de Games de Estratégia”. Tudo OK, senão um probleminha. Para ir até lá, era preciso desembolsar alguns milhares de dólares.

Parte III: vendendo a mãe no Mercado Livre

Sem o estudo necessário e sem emprego fixo, o jovem viciado teve que recorrer à criatividade. Foi quando, entre uma vitória e outra no ladder de Starcraft II, ele decretou que não podia abandonar o sonho de se aprimorar naquilo que sempre soube fazer bem.

Ampliar (Fonte da imagem: Mercado Livre/Arquivo)

Emílio Filizbehn decidiu que, para levantar dinheiro, ia vender a mãe no Mercado Livre. Surgiram algumas propostas do Recife e Belo Horizonte, mas o martelo foi batido quando um comerciante de doces falou que pagava o frete para entregar no interior de São Paulo.

A transação foi rápida e segura, tudo via paypal. Com a grana em mãos, Emílio foi para os Estados Unidos, onde concluiu o curso em oito semestres. No dia da formatura, recebeu uma menção especial pela conquista da maior soma de notas junto aos jogos da Blizzard.

Hoje, nosso herói vive na Coreia do Sul, regado a champanhe, caviar, carrões e belas garotas. Lá, como um astro profissional de Starcraft, ele tem suas partidas assistidas por mais de 100 mil pessoas e é reconhecido por todos nas ruas — assim como ocorre com Zico no Japão. Até hoje, seu pai acha que mãe e filho foram para um cruzeiro marítimo e não voltaram mais.

Por que a Wikipedia não pede mais doações

Leocádio Bolludo nasceu distinto, dotado de enorme coração. Mesmo não sendo tão ruim assim, pedia para ser o último a ser escolhido no futebol — dessa maneira ele se sentia mais camarada dos demais. No entanto, devido à sua incrível miopia de 18 graus, o pobre garotinho teve seu progresso intelectual afetado durante a infância.

Após uma série de procedimentos médicos para conseguir enxergar bem, o rapaz conseguiu finalmente recuperar a confiança em si mesmo e decidiu que queria ser inteligente. Aliás, muito inteligente, pois pensava que somente assim poderia recompensar o mundo.

Entretanto, os anos no escuro acabaram deixando uma marca profunda na personalidade do pequeno Leocádio. O menino tinha uma dificuldade tremenda de concentração, o que tornava impossível o aprendizado e fixação de alguns conteúdos. Enquanto a professora falava do X, ele pensava no que aconteceria se o Y, seu tio Zé e a diretora se encontrassem.

Indo e voltando de aulas de recuperação, o jovem obteve êxito no colégio e ingressou no curso de Sociologia Animal na Faculdade Narciso Rei. Apesar das frequentes dificuldades com as coisas mais simples, Leocádio conquistou a confiança dos professores e passou a ser estagiário de pesquisa.

Ampliar (Fonte da imagem: Formigabook)

Em dois anos e meio, desenvolveu um projeto inédito reunindo insetos e web 2.0. Sua rede social destinada a formigas permitia que espécies dos quatro cantos do mundo trocassem mensagens, compartilhassem dicas de engenharia subterrânea e enviassem fotos das novas larvas para parentes de outros formigueiros.

Isso sem contar os aplicativos. A vida das trabalhadoras nunca mais foi a mesma depois do GPSugar, que indica as melhores rotas para chegar a potes de açúcar e o iHumidity, que exibe as alternâncias de umidade relativa do ar sincronizadas e em tempo real.

O reconhecimento levou Bolludo à ONU, onde instaurou projetos de ação humanitária. Graças à sua experiência com formigas, o (agora) cientista conseguiu implantar métodos para transportar refugiados através de vias construídas por debaixo da terra.

(Fonte da imagem: Wikimedia)

No mesmo ano, foi vencedor do prêmio Nobel da Paz em decisão unânime do comitê julgador. Junto à sua competência, vieram também fama e fortuna.

Mas, sempre com os pés no chão, o premiado pesquisador resolveu patrocinar quem realmente o fez chegar aonde chegou: o poder do conhecimento.

Sem pensar duas vezes, ele doou 99,6% da sua riqueza para a Wikipedia. Você já reparou que na página inicial do site não tem mais aquela mensagem mendigando doações? Pois é. Tudo isso se deve a atitude nobre de um homem: Leocádio Bolludo.

Um mestre de RPG no Planalto Central

Adamastor Félix era notável. Ainda no jardim de infância, conseguia convencer todos de que o parquinho de diversões era na verdade uma área monitorada por câmeras — e que havia uma conjuração de professores fazendo apostas na tentativa de prever o comportamento das crianças.

Apesar de ser considerado entre seus amigos, Félix tinha o porte físico mirrado e sofria com as investidas dos valentões. Depois de muitas bofetadas e humilhações, teve uma ideia que poderia facilitar muito a sua sobrevivência: propôs fazer as provas dos seus inimigos em troca de um tratamento digno.

Conseguiu se safar por vários anos e, na sua turminha, era líder e exemplo. Ao conhecer o RPG, ficou fissurado pela coisa e passou a ver as pessoas com olhar clínico: “Aquele ali tem cara de clérigo nível 52”. Os amigos, ao mesmo tempo em que achavam aquilo estranho, também achavam o máximo.

Ampliar (Fonte da imagem: Imaginação de Adamastor Félix)

Já na adolescência, ainda deixava de fazer as próprias provas para fazer a dos outros. Após reprovar pela segunda vez, parou de estudar e se refugiava em encontros e partidas intermináveis de RPG (uma delas inclusive, memorável, chegou a durar 156 horas ininterruptas).

Todo mundo — incluindo você que está lendo este artigo — acha que RPG não dá futuro. Mas não era assim que pensava o melhor dos mestres de RPG. Como um verdadeiro paladino e sem ligar para as convicções alheias, ele deu duro para se tornar a principal referência do assunto no país.

Além de organizador dos encontros Brasil afora, Félix passou a dar palestras sobre como o RPG pode ser útil no ambiente corporativo e virou consultor de bingos e cassinos ilegais. Artistas circenses e mágicos com bloqueio criativo também estão entre os profissionais que admiram e contratam seus serviços.

Tanta visibilidade acabou rendendo um cargo no governo para Félix. Atualmente, ele trabalha no Ministério da Educação, coordenando um bem-sucedido projeto que leva o RPG às escolas. Se você quiser falar com ele, basta ir ao Google e procurar pelo nome e telefone.

No entanto, dependendo da hora que você ligar, o Tecmundo não garante que o protagonista dessa história vai estar no seu gabinete para confirmar seus triunfos. Sabe como é, pessoas importantes geralmente são bem ocupadas.

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Você nunca teve talento para os estudos? Ou melhor... Você nunca sentiu que tem talento para alguma coisa? O colégio e os professores sempre foram um verdadeiro pé no saco?  Lembre-se: tem sempre boas ideias por aí. O que falta são gênios para descobri-las.

Atenção: este artigo faz parte do quadro "Erro 404", publicado semanalmente no Baixaki e Tecmundo com o objetivo de trazer um texto divertido aos leitores do site. Algumas das informações publicadas aqui são fictícias, ou seja, não remetem à realidade.

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