Crítica: biografia 'Tolkien' conta poeticamente como o criador foi criado

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Escrever ou filmar biografias de escritores realmente não é uma tarefa fácil, visto que — com algumas raras exceções — trata-se de uma profissão de poucas emoções, pelo menos daquelas que despertariam a curiosidade de espectadores ou leitores. Justamente por isso, “Tolkien”, a cinebiografia de um dos maiores escritores contemporâneos acaba se focando naquilo que provavelmente ajudou a inspirar suas maiores obras: o amor e a amizade.

“Tolkien” foi realizado pelo diretor finlandês Dome Karukoski e não é baseado unicamente em uma das biografias literárias do escritor britânico, mas sim em muitas delas. A opção pelo foco do filme em um Tolkien mais jovem é bastante acertada, visto que pouco haveria para ser contado de sua vida posterior como pai de família, professor de universidade e, claro, autor de obras de fantasia.

Forjado na guerra

O filme tem como centro narrativo uma ocasião que certamente marcou profundamente o Professor: sua participação na Batalha de Somme, talvez a mais sangrenta da Primeira Guerra Mundial. Tolkien, já sofrendo com a “febre de trincheira” no fronte de guerra, busca desesperadamente por um amigo e tem alucinações que vão ser familiares para quem conhece bem sua obra.

Quem está familiarizado com a obra do escritor sabe o valor que ele dá para as relações de amizade

Tolkien sempre foi extremamente contrário ao uso de alegorias em obras literárias, mas o que o filme mostra é como o horror da guerra pode ter influenciado a criação de tudo que é maligno em seus livros mesmo sem representar uma alegoria de fato da própria Guerra — seja a Primeira ou a Segunda —, como ele mesmo já desmentiu em suas cartas pessoais e até em um prefácio para “O Senhor dos Anéis”.

O filme passa, então, a mostrar como Tolkien chegou até o momento da Guerra, e retorna para sua infância pobre em Birmingham e a formação de seu primeiro grupo de amigos, o chamado Tea Club Barrovian Society, onde trocava criações artísticas que iam da poesia à música. Quem está familiarizado com a obra do escritor sabe o valor que ele dá para as relações de amizade e isso fica claro por sua própria postura entre os colegas queridos.

aO jovem Tolkien vivido por Nicholas Hoult (Foto: Reprodução / Fox Searchlight)

Companheira inseparável

O amor romântico também é parte central da trama de “Tolkien”. O escritor conhece ainda jovem a mulher com quem viria se casar e que inspirou a mais bela personagem de seu universo literário, a elfa Lúthien, que assim como quem a inspirou dança para seu amado sob a sombra de uma árvore.

Em muitos pontos, temos 'easter eggs' agradáveis que mostram como a realidade de Tolkien influenciou sua obra

Esse clima de poesia, quase que de suspensão da realidade, mas de maneira leve e mágica, está presente em muitas partes do filme. Nesses momentos, a obra reflete a subcriação do escritor, que começou também por meio de poemas. Mesmo que em momentos mais duros, como a Guerra, nós sejamos trazidos de volta para a dura realidade, o filme deixa a impressão de que a alegria de Tolkien aflorava de fato em momentos em que o mundo real parece sobreposto pela fantasia. E isso acontece por meio de seu amor por Edith e sua amizade pelo grupo de amigos.

aNicholas Hoult, como Tolkien, ao lado de Lilly Collins, como Edith, que viria ser a esposa do escritor (Foto: Reprodução / Fox Searchlight)

A futura esposa de Tolkien é vivida pela atriz Lilly Collins, que traz uma personagem vívida e com brilho no olhar. A química de atuação entre ela e Nicholas Hoult, que faz Tolkien em sua fase já adulta, é bastante boa, deixando o espectador com aquela sensação de que talvez eles realmente tenham sido feitos um para o outro — por mais piegas que isso possa soar, mas quais grandes histórias não possuem um belo clichê?

Em muitos pontos, temos "easter eggs" agradáveis que mostram como a realidade de Tolkien influenciou sua obra, como quando o soldado adequadamente chamado Sam insiste em tirar o escritor em estado febril de um lugar perigoso a qualquer custo, ou quando vemos chamas e fumaça das bombas no campo de batalha ganharem o formato de Sauron e seus Espectros do Anel.

Pequeno grande filme

Seria injusto comparar essa cinebiografia com os filmes baseados nos livros de Tolkien — tanto a trilogia de “O Senhor dos Anéis”, um dos maiores sucessos da Sétima Arte tanto em bilheteria quanto em crítica, como os três filmes de “O Hobbit”, que mesmo inferiores aos primeiros, continuam sendo obras épicas e grandiosas. São propostas completamente diferentes, mas competentes cada uma em sua área. Esperar ação, aventura e altas emoções em uma biografia de alguém como Tolkien é um erro que pode levar a conclusões equivocadas. Aqui, não se pode confundir criação com criador.

“Tolkien” é simples, sem grandes segredos ou revelações, mas carrega uma ternura que talvez agrade mais os fãs das obras do escritor do que o público em geral sem deixar de ser uma homenagem bonita a uma das maiores mentes criativas que já existiram — e uma exaltação ao amor e à amizade, elementos de imensa importância na obra do Professor.

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