MSX vive! Apaixonados mantêm a máquina e sua cultura até os dias atuais

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Se você tem mais de 35 anos e sempre foi fã de tecnologia, provavelmente deve se lembrar de uma máquina que fez muito sucesso no Brasil. O MSX, mesmo com as limitações de mercado, foi o primeiro computador de muitos brasileiros e a escola de toda uma geração de programadores, que aprendeu ali seus primeiros passos — e até hoje brinca com o Basic ou o Assembler que usou nas versões nacionais Expert, da Gradiente, e Hotbit, da Sharp.

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O TecMundo visitou um recente encontro sobre o tema em Curitiba, no Colégio Bosque dos Mananciais, e encontrou uma comunidade apaixonada pelo MSX, que não somente revive os melhores momentos da marca com várias raridades como também alimenta novos fãs com releituras em tecnologias atualizadas.

Uma máquina para aprender

Bem, com um MSX em meados dos anos 80, se você não soubesse nenhuma linha de comando em Basic ou DOS, era quase impossível acessar jogos ou utilitários. Muita gente como Paulo Peccin, programador de 45 anos, teve que aprender os comandos em inglês “na marra”.

Era preciso saber um pouco de programação para rodar os jogos e aplicativos

“Naquela época, você ligava o computador e só aparecia o cursor piscando e mais nada. Você tinha que aprender a programar e mesmo para carregar os jogos era preciso inserir alguns comandos — bem diferente de hoje, que você coloca e está tudo pronto. Isso forçava as pessoas a entender pelo menos um pouco como a máquina funcionava.”

A história é parecida com Luciano Cadari, de 49 anos, que organiza o encontro de fãs de MSX em Curitiba e também é conhecido por ter desenvolvido o software de compartilhamento peer-to-peer (P2P) K-Lite. “Aprendi a programar em um MSX Hotbit em 1985 e sou desenvolvedor até hoje”, diz. “A bagagem que acumulei com aquela maquininha que muita gente chamava na época de ‘videogame de luxo’ foi aprendizado muito grande para muita gente.”

História “viva” da computação no Brasil

Nesses encontros de amantes de MSX é possível encontrar várias máquinas importadas, que mostram como as fabricantes levaram a sério o computador lá fora, e periféricos muito raros por aqui, a exemplo de um dispositivo de carregamento de dados com Laserdisc.

No início, os Hotbits e Experts daqui rodavam jogos em fitas cassete e vinham com manuais para digitação de longas linhas de códigos. Ou você passava a tarde para rodar um programinha simples de perguntas e respostas ou era preciso aguardar de 15 minutos a 1 hora de uma barulheira infernal para carregar um jogo que atualmente você acessa instantaneamente no celular.

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As coisas mudaram um pouco quando chegaram os cartuchos de “Megaram”, que acrescentaram RAM extra de 128 kbytes a 768 kbytes — o que para a época era algo gigante, capaz de rodar games como “Metal Gear” ou os mais sofisticados da Konami, a exemplo de “Nemesis" (que viria a se chamar "Gradius”).

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“Como não tinha internet era difícil acompanhar as coisas que aconteciam lá fora. O que chegava por aqui era por meio de revistas europeias e brasileiras. E no Brasil, como tínhamos reserva de mercado, a gente ficava limitado com o MSX 1, porque não tinha uma versão nacional do MSX 2”, lembra Cadari.

A “lenda” sobre as peças de plástico

Havia até mesmo uma “lenda” envolvendo a tributação do Expert e do Hotbit. Boatos diziam que, devido a Lei de Informática brasileira, a Gradiente e a Sharp trocavam algumas peças de metal por outras de plástico, para que as máquinas tivessem impostos menores, de brinquedos, ao invés dos de computadores.

msxLuciano Cadari

“Conversei recentemente com o pessoal da Gradiente, que trabalhou na época e hoje também faz esse circuito com a gente, que negou isso. As peças eram realmente mais frágeis, mas elas eram todas de metal e a tributação era como a de um computador mesmo”, diz Cadari.

Para ter um MSX 2 no Brasil, era necessário instalar uma placa de maneira informal. Havia várias lojas, a maioria nas capitais, que faziam a conversão — algumas menos para o Hotbit. Você tinha que enviar a máquina pelo correio ou levar até lá e aguardar dias até que ela voltasse modificada — ainda assim sem a garantia de funcionamento perfeito e possivelmente com uns buracos a mais e umas peças as menos, para que o chipset coubesse no gabinete dos computadores fabricados por aqui.

Konami, Hideo Kojima e “SD Snatcher”

Muita gente não sabe: tanto a Konami, quanto um jovem então desconhecido chamado Hideo Kojima e a franquia Metal Gear nasceram e prosperaram com o MSX. A Konami e Kojima foram sucesso absoluto, explorando com muita inventividade as limitações do sistema para entregar pérolas, como “Penguin Adventure”, “F1 Spirit”, "Goonies", "Kings Valley", “Maze of Galious” (talvez um dos games mais difíceis de todos os tempos), “Twin Bee”, “Vampire Killer” (a primeira versão de “Castlevania”), entre outros.

Aliás, o MSX2 até hoje é a única plataforma que teve um título considerado por muitos como a grande obra-prima de Kojima. “SD Snatcher” reúne o que aconteceu na trama cyberpunk de Snatcher e entrega um RPG cheio de quebra-cabeças e combates em turnos.

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O game possui muitos easter eggs e mecânicas emprestadas de Metal Gear e conta com a já conhecida narrativa cinematográfica de Kojima, com direito a várias pitadas de “Blade Runner”. É imperdível para os fãs do criador de Solid Snake e até hoje é uma raridade porque não ganhou reboot e sequer foi lembrado nos consoles.

MSX “New Generation”

E o que a nova geração de fãs do MSX acha da máquina? “Jogamos PlayStation 4, Nintendo Switch e PlayStation 3. É bem diferente, os gráficos e a jogabilidade são muito diferentes. O mais difícil é programar, já tentei fazer o jogo da cobrinha e fiz uma bússola e a bandeira do Brasil. Mas é muito difícil”, diz Christian Cadari, de 12 anos.

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“Já joguei o jogo do pinguim (Penguin Adventure) e gosto de tocar música”, conta Amanda Cadari, de 7 anos, enquanto arrisca uma melodia no teclado Yamaha. Ambos veem o pai reviver o MSX também em novas máquinas, como a Zemmix, que usa componentes novos para quem gosta de programar em Basic e rodar os arquivos sem emulação.

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“As novas placas são desenvolvidas na Coreia e não são emuladores, elas têm coisas mais recentes, como leitor de cartão microSD e agem como um computador da época”, descreve Cadari. Ele mesmo comercializa as unidades, por cerca de R$ 1,2 mil.

Emulador direto no browser

Já quem se interessa ou quer conhecer mas nunca pôs a mão em um Hotbit ou Expert, é possível acessar uma emulação direta pelo navegador. O webmsx.org vai na onda de outros sites retrô, como o javatari.org e o atari2600.com.br, e simplifica a experiência via browser.

“Ele emula um MX2+ completo, tudo dentro do navegador, o que é um pouco mais desafiador que os emuladores nativos que rodam na máquina — porque é preciso funcionar de acordo com as limitações do browser”, diz o criador Paulo Peccin.

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Foram mais de 2 mil horas de programação somente para “montar” o MSX 1.0 virtual. “Foi bastante difícil a conversão porque você precisa compreender como o hardware funciona e simular o que ele faz, mas com um software. Achei que era um desafio legal e então peguei os manuais do processador Z-80, registrador e seu comportamento.”

 msxPaulo Peccin

E o próximo passo? “Quero criar um multiplayer online que permite não somente jogar como também até programar em conjunto com outra pessoa em qualquer parte do mundo.”

O MSX vive e, ao que parece, deve continuar aí por muito tempo: se não como máquina em museus ou em encontros de fãs, pelo menos na história da tecnologia, como um dos computadores mais simpáticos e importantes para a informática no Brasil.

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