Lançamento de uma das missões do Challenger (Fonte da imagem: Nevada Space Grant)

Explorar o espaço sempre foi uma das grandes ambições da humanidade. Na corrida pelo conhecimento, deve-se aprender a lidar com deslizes que, por menores que sejam, podem se transformar em grandes tragédias. Infelizmente, em muitos desses acidentes, homens bravos e mulheres valentes acabaram dando suas vidas em nome do avanço científico.

Pensando dessa forma, parece justo que um pouco do nosso tempo seja usado para sabermos mais sobre esse lado triste da exploração espacial. Afinal, quando falamos de ciência, aprender com os erros é tão importante quanto obter sucesso.

Apollo 1: envolto em chamas

Astronautas da Apollo 1 em treinamento dentro dágua (Fonte da imagem: NASA)

O programa que levou o homem à Lua foi marcado por uma tragédia logo nos seus primeiros dias. O lançamento da nave Apollo 1  estava agendado para o dia 21 de fevereiro de 1967, mas foi durante um dos testes para a missão que os Estados Unidos enfrentaram o primeiro grande desastre de suas atividades espaciais.

Em janeiro de 1967, o comandante piloto Virgil "Gus" Grissom, o piloto sênior Edward H. White e Roger B. Chaffee entraram na cabine da nave espacial para mais uma sessão de testes e treinamento antes de serem enviados, oficialmente, para o espaço. Enquanto realizavam as tarefas de sua lista, Chaffe e Grissom perceberam que um incêndio havia iniciado no cockpit, relatando o incidente para a torre de controle e anunciando que abandonariam o módulo de comando.

Porém, devido à alta pressão interna da cápsula e a inúmeras falhas de construção do módulo, os astronautas não conseguiram abrir a saída de emergência. Do lado de fora, outros oficiais estavam com medo de que o calor intenso pudesse explodir o módulo ou fazer com que o combustível dos foguetes entrasse em combustão, o que poderia matar qualquer um ao seu redor.

Close do módulo de comando após o incêndio (Fonte da imagem: NASA)

Mesmo assim, resolveram tentar e levaram cerca de 5 minutos para abrir todas as camadas do módulo espacial. Infelizmente, o resgate chegou tarde demais. Depois de controlado o fogo e de a fumaça densa do interior da nave ter desaparecido, foi possível perceber os corpos dos astronautas. Grissom estava deitado no chão da cápsula, enquanto White foi encontrado perto da escotilha que tentava abrir. Chaffee, por sua vez, havia recebido as ordens de permanecer em contato com o comando de fora da nave e, por isso, acabou morrendo em seu assento.

Investigações posteriores não conseguiram apurar a causa exata do incêndio, mas é provável que ele tenha sido causado pela combinação de diversas falhas, como por exemplo, a presença de material inflamável no interior da cabine. O laudo indica que os três astronautas morreram por causa da inalação de uma grande quantidade de fumaça, além das queimaduras sofridas pelo incêndio.

Soyuz 1: sequência de falhas

Módulo de retorno da Soyuz 1 após a queda (Fonte da imagem: SpaceFeelings)

A Soyuz 1 foi uma das missões tripuladas do programa espacial soviético com planos mais audaciosos. Lançada ao espaço no dia 23 de abril de 1967 e levando a bordo o coronel Vladimir Komarov, fazia parte da missão a Soyuz 1 se encontrar, em órbita, com a nave Soyuz 2 e realizar uma troca de tripulação antes do retorno para a Terra.

Infelizmente, a Soyuz 1 estava repleta de problemas técnicos que acabaram não apenas atrasando o lançamento da Soyuz 2, como tirando a vida do astronauta a bordo dela. Logo depois do lançamento, um dos painéis solares não se desdobrou, prejudicando assim o fornecimento de energia para o módulo espacial.

Restos mortais de Vladimir Komarov em caixão aberto (Fonte da imagem: NPR)

Depois disso, sensores de orientação da nave também apresentaram problemas, tornando mais difícil manobrar o veículo, e, na 13ª volta ao redor da Terra, o sistema de estabilização deixou de funcionar. Para piorar a situação, o sistema manual funcionava apenas parcialmente. Assim, o diretor de voo resolveu abortar a missão.

Logo após a 18ª órbita, os retropropulsores foram acionados e a Soyuz I reentrou na atmosfera terrestre. Tudo corria bem, até que Komarov tentou acionar o paraquedas principal do módulo para aliviar a queda: o dispositivo não funcionou. E nem mesmo o paraquedas reserva, acionado manualmente, funcionou direito.

Memorial erguido em homenagem a Vladimir Komarov (Fonte da imagem: Panoramio/Google Maps)

Komarov morreu com o impacto da nave no solo terrestre, a uma velocidade de 140 km/h, seguida de uma explosão e fogo. Hoje, há um memorial na região do impacto, com um busto do astronauta e um pequeno parque ao redor. Esse foi o primeiro acidente ― de um voo espacial ― registrado pela história mundial.

Challenger, o desastre que marcou a Era Reagan

Vinte e oito de janeiro de 1986. Os milhares de americanos que se mobilizaram para assistir ao lançamento do ônibus espacial Challenger não imaginavam que estavam prestes a presenciar um desastre de grandes proporções: 73 segundos após a decolagem, a espaçonave explodiu, matando a tripulação de seis astronautas e a professora Christa McAuliffe, primeira civil a participar de um voo espacial.

O acidente com a Challenger fez com que a NASA enfrentasse uma pausa de 32 meses em seu programa espacial, essencial não apenas para que erros fossem corrigidos, mas também para que uma investigação intensa sobre o acidente pudesse ser realizada. Uma das causas apontadas pelo renomado físico norte-americano Richard Feynman diz respeito a um anel de borracha usado para vedar partes dos tanques de combustíveis. Essa peça se comportava de maneira inesperada quando submetida à temperatura de 0 ⁰C.

Na ocasião, Feynman se apresentou ao vivo e em rede nacional para explicar as causas que levaram ao acidente. Além de defeitos em equipamentos, havia também problemas no processo do controle de qualidade da fabricação de peças do ônibus espacial.

Columbia, acidente na volta para casa

Desastre do ônibus espacial Columbia filmado por um helicóptero Apache

Columbia, o primeiro ônibus espacial desenvolvido pela NASA, sobreviveu 27 missões antes de se desintegrar em 2003, matando sete astronautas que estavam em órbita há 16 dias. Na época, o acidente fez com que o então presidente George W. Bush anunciasse a “aposentadoria” de toda a frota de ônibus espaciais da NASA em 2010, com o intuito de que essas naves fossem substituídas pelas futuras inovações dos programas Orion e Constellation, posteriormente cancelado pelo presidente Obama.

Ainda hoje, as imagens do acidente são muito desoladoras. Foram recolhidos 83 mil pedaços do ônibus espacial em uma área de 40 mil km². Juntos, esses destroços equivaliam a apenas 37% da massa total da nave, e continham, também, restos mortais dos astronautas.

Destroços da espaçonave recolhidos após o acidente (Fonte da imagem: NASA)

Após sete meses de investigação, um relatório com mais de 400 páginas apontou falhas técnicas e organizacionais envolvidas na destruição do Columbia, além de cerca de 15 mudanças que deveriam ser cumpridas antes de haver um regresso às atividades da agência espacial.

Mas a principal causa do acidente foi uma brecha que se abriu no sistema de proteção térmica da asa esquerda do ônibus espacial, provocada por um pedaço de espuma isolante que se soltou do tanque externo, 8,17 segundos depois do lançamento. Durante a reentrada, essa abertura permitiu que o ar superaquecido penetrasse através do isolamento e derretesse a estrutura da asa esquerda.

Tudo isso causou um enorme enfraquecimento estrutural na espaçonave, tornando-a mais suscetível às forças aerodinâmicas e ao atrito causado pela densidade atmosférica. Depois de perder a asa, o Columbia ficou completamente descontrolado e acabou se despedaçando.

Diversas homenagens foram feitas aos tripulantes mortos no acidente. Entre elas, se destaca a cratera de Marte, onde pousou a sonda Spirit, batizada como “Columbia Memorial”. Na ocasião, até mesmo uma placa em memória dos astronautas foi levada para o Planeta Vermelho.

Brasil: 21 mortos em lançamento de foguete

Plataforma de lançamento da Base de Alcântara após a explosão (Fonte da imagem: Agência Brasil)

Por mais que o Brasil ainda não tenha um programa espacial forte, ele já enfrentou um dos piores acidentes do gênero. Em 2003, durante o lançamento de dois satélites que seriam colocados em órbita pela agência espacial brasileira, o foguete que levaria os equipamentos ao espaço explodiu, causando a morte de 21 funcionários do Centro Técnico Aeroespacial (CTA) de São José dos Campos (SP).

Em entrevista para a Folha, o tenente-brigadeiro Astor Nina de Carvalho disse que a explosão foi provocada por um incêndio que ocorreu na base do primeiro estágio do foguete, gerando um calor de cerca de 3 mil ⁰C que derrubou a torre de lançamento sobre o veículo que levaria os satélites para o espaço.

Investigações posteriores apontaram como prováveis causadores do acidente a presença de gases perigosos e voláteis, sensores deteriorados e interferência eletromagnética no Centro de Lançamento de Alcântara, no Maranhão. Como se não bastasse, funcionários encarregados do controle de qualidade da base admitiram estar com excesso de trabalho e falta de empregados.

O acidente causou um impacto muito grande no programa espacial brasileiro, mas um novo veículo lançador de satélites, o VLS-1 V4, está em desenvolvimento e com planos de ser utilizado em 2013. Quem sabe, no futuro, o Brasil não passe a ser um grande explorador do espaço, certo?