Carlos Bandeirense Mirandópolis. Se você, só pelo nome, já sacou que há algo estranho, saiba que muitas pessoas acreditam na existência dessa pessoa. Dois advogados de São Paulo criaram um perfil falso na Wikipédia, em 2010, para trollar um estagiário na mesma empresa em trabalhavam. Acontece que, com um perfil bem elaborado, ele acabou sendo usado em trabalho acadêmico, um documentário e até em uma decisão do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, de acordo com o G1.

O inexistente Carlos Mirandópolis era um jurista, professor de Direito, amigo pessoal de Chico Buarque — e inspirador do "Samba de Orly" — e filósofo político. Segundo a página na Wikipédia, que saiu do ar (mas você pode conferir clicando aqui), ele "marcou época não somente por seus profundos estudos sobre as associações civis como também por ter sido um incansável defensor da democracia".

Entre as aventuras do falso Carlos Bandeirense Mirandópolis, estão a "famosa" tese OPA – Oferta Pública de Associação, uma perseguição durante a ditadura militar de 64, o exílio em Paris e um convite para ocupar a cadeira de Ruy Barbosa na Academia Brasileira de Letras. O engraçado é que, de acordo com o perfil falso, Carlos declinou o convite e disse: "Como posso ser imortal na terra em que já morri há muito?".

Em entrevista ao G1, um dos criadores, o advogado Daniel Tavela, disse: "A ideia veio de uma experiência com um estagiário que eu e o Vitor tivemos (outro advogado 'dono da ideia). A gente tinha identificado nele uma dificuldade em fazer pesquisa. Particularmente, por ele acreditar em tudo que aparecia na internet. Aí a gente resolveu criar esse personagem e fazer essa experiência didática com ele". Ao que parece, não foi só o estagiário que acabou pego.

A trollada

Acontece que algumas pessoas encontraram a história de Carlos Bandeirense Mirandópolis na Wikipédia e resolveram usar em vários documentos. Um dos casos mais esdrúxulos está na Ação Direta de Inconstitucionalidade (Adin), que pede o fim da lei estadual que proíbe o uso de máscaras em manifestações — a lei aprovada diz que uma pessoa presa com o rosto coberto em manifestação de rua deve ser encaminhada para a delegacia.

Mirandópolis foi utilizado pela desembargadora Nilza Bittar para explicar que ele não havia usado máscara quando participou de um comício das Diretas Já, como consta na página falsa da Wikipédia. Ainda, que ele protestou ao lado de figuras como Luiz Inácio Lula da Silva, Fernando Henrique Cardoso e Ulysses Guimarães.

Segundo o Tribunal de Justiça, a menção teve como fonte uma página do núcleo de memória da PUC do Rio de Janeiro e o documentário "Diretas Já". Ou seja, mais obras que utilizaram o perfil falso. Outro trabalhado acadêmica em que Mirandópolis aparece foi produzido na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, sobre produções artísticas censuradas na ditadura militar, do curso de arquivologia.

Atualização: ao checar o site do Núcleo de Memória, da PUC-RIO, não é encontrada qualquer menção ao personagem da matéria. Talvez, segundo colaboração de pessoas ligadas ao núcleo, a desambargadora tenha encontrado referência ao documentário "Diretas Já" — mas não informações relacionadas ao personagem. O Núcleo de Memória pode ser acessado aqui.

Ainda, a foto que ilustra a matéria e a mesma encontrada na Wikipédia, na verdade, é a de Michael Häupl, um político austríaco.

Na entrevista, os criadores disseram que "a coisa tomou uma proporção que a gente nunca imaginava. Eu esperava aparecer em alguns blogs, mas não em uma fonte mais séria. Eu gargalhei. Mas, se é engraçado por um lado, é triste por outro, porque as pessoas não estão usando a internet corretamente".

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