Com o lançamento do Xbox One e do PlayStation 4, a indústria dos jogos eletrônicos parece ter focado sua atenção em jogos cada vez mais complexos e longos. O gênero conhecido como “mundo aberto” não é exatamente uma novidade, estando presente desde o momento em que o PlayStation 2 era o console mais popular — no entanto, atualmente parece que os principais nomes do mercado estão apostando nesse modelo.

Basta fazer uma retrospectiva dos dois últimos anos para perceber que há uma quantidade generosa de jogos nas prateleiras acompanhados pela promessa de universos gigantescos e repletos de conteúdo. Fallout 4,  Tom Clancy’s The Division, Metal Gear Solid V: The Phantom Pain, Xenoblade Chronicles X, Batman: Arkham Knight e The Witcher 3: Wild Hunt são somente alguns dos nomes mais proeminentes que você encontra facilmente em qualquer loja.

Em teoria, essa enxurrada de jogos de mundo aberto deveria ser encarada como algo essencialmente bom: afinal, quem não gosta de jogos repletos de conteúdo que “respeitam” o dinheiro investido neles? Infelizmente, não é bem o que acontece: muitas vezes, a aposta em uma grande escala traz consequências que não são exatamente agradáveis — o que você confere na seleção apresentada por este artigo.

1. Falta de foco

Quase sinônimo de jogo de mundo aberto, Grand Theft Auto é um exemplo de como apostar em muitas coisas pode fazer com que nenhuma delas “brilhe”. Não nos entenda mal: o game oferece boas mecânicas de direção e tiro, mas elas nunca chegam a ser tão aprofundadas quanto as oferecidas por alguns games com escopo menos abrangente.

Nesse sentido, a Rockstar pode até ser considerada como uma exceção, visto o grande tempo que a empresa dedica ao desenvolvimento de seus jogos. No entanto, até mesmo os produtos do estúdio sofrem um pouco pelo fato de que, ao tentar dar atenção a tudo, há quesitos que ficam abaixo do esperado.

O foco em diversos aspectos pode prejudicar um jogo

Essa situação geralmente é reflexo do fato de que mesmo um game triplo A com orçamento grande ainda é limitado em sua engine e no número de recursos humanos que podem ser empregados. Com isso, a equipe de desenvolvimento tem que se focar muito mais em criar sistemas funcionais (que nem sempre têm muita profundidade) do que em desenvolver diversas soluções complexas que não conseguem conversar entre si.

Em outras palavras, por mais que as partidas de tênis de Grand Theft Auto V sejam divertidas, a própria natureza do game impede que elas sejam tão profundas quanto as vistas em séries como Virtua Tennis. Felizmente, há casos em que a falta de foco acaba se tornando uma força: Metal Gear Solid V, por exemplo, abraça esse elemento e permite que o jogador lide com situações de diversas maneiras diferentes sem que isso gere qualquer espécie de prejuízo.

2. Experiência inchada

Ler em um review ou em uma arte promocional que determinado game oferece uma experiência com mais de 80 horas de duração pode ser tentador. Afinal, quando só se tem suados R$ 200 para investir em um título, é bom saber que ele tem conteúdo suficiente para entretê-lo durante os próximos meses, quando não haverá mais nada para jogar.

No entanto, o que muitas desenvolvedoras não deixam claro é que, muitas vezes, mais da metade desse tempo vai ser dedicado a procurar baús e outros colecionáveis. A série Assassin’s Creed é particularmente conhecida por esse “inchaço”, adotando técnicas como a exibição de diferentes porcentagens para garantir que o jogador cace todos os itens espalhados pelo mapa — muitos dos quais, sejamos sinceros, não são realmente necessários.

A série Assassin's Creed é especialista em preencher seu mapa com baús

Na tentativa de disfarçar a falta de conteúdos interessantes, muitos jogos apostam em elementos que “incham” suas experiências para convencer o jogador a passar mais tempo neles. Até mesmo títulos de qualidade, como a série Arkham, apelam para isso — coletar os diversos troféus do Charada se assemelha muito mais a um trabalho chato do que a um elemento de jogo imersivo.

Infelizmente, parece que essa tática vai ser mantida viva pela indústria durante um bom tempo, especialmente enquanto conservarmos a mentalidade de que uma experiência com mais horas é sempre algo bom. Enquanto isso segue acontecendo, vamos ter que nos contentar a continuar pegando baús, penas, moedas e outros itens escondidos cujo principal motivo de existência é “inflar” as horas que você passa em frente ao monitor ou à TV.

3. Apostar na grande escala sem motivos

Há um bom motivo para que títulos como The Elder Scrolls V: Skyrim tenham uma escala gigantesca. O mundo criado pela Bethesda ajuda o jogador a se sentir parte de um universo ficcional que realmente existe e oferece uma sensação de descoberta única conforme você escala montanhas e explora vales inabitados.

Just Cause 3 peca por ter um mapa gigantesco preenchido por atividades repetitivas

Infelizmente, o RPG não é exatamente a regra quando falamos desse quesito em um jogo de mundo aberto. Títulos como Just Cause 3 parecem ser grandes simplesmente pelo intuito de fazer o jogador ter que viajar durante muito tempo até encontrar seu objetivo — o nível de detalhes oferecidos é baixo demais para gerar qualquer espécie de imersão.

O problema é semelhante ao do “inchaço”: muitas desenvolvedoras oferecem mapas gigantescos com o objetivo de fazer o jogador passar muito tempo se deslocando, o que contribui para aumentar as horas gastas em frente à TV. Na prática, isso resulta em muitas experiências que caberiam muito melhor em uma estrutura mais concisa e fechada, mas que são prejudicadas pela inserção de grandes “corredores virtuais” entre uma missão e outra.

4. Falta do que fazer

Um problema bastante ligado ao item anterior de nossa lista, a falta do que fazer também condena muitos games que apostam na estrutura de “mundo aberto”. Ao andar de um ponto para outro do mapa, o mínimo que se espera é ter alguma coisa a fazer que vá além das missões principais.

Mafia 2 tem um mundo gigante, porém vazio

Grand Theft Auto V é exemplar nesse sentido, oferecendo eventos aleatórios, lojas e pontos de interesse que distraem o jogador. O game dificilmente dá a sensação de que não há “nada o que fazer”, visto que simplesmente parar e atirar em um motorista aleatório pode desencadear eventos bastante divertidos que não foram necessariamente programados pelos desenvolvedores.

Em compensação, títulos como Mafia 2 parecem simplesmente vazios e pouco oferecem em matéria de atividades paralelas. Se, ao entrar em um jogo de mundo aberto, a sensação que fica é a de que estamos explorando um cenário vazio de um set de filmagem, é difícil se sentir estimulado para apreciar outros pontos da aventura.

5. Narrativa rasa

Devido à própria natureza de um jogo de mundo aberto, é difícil para os desenvolvedores criar uma narrativa que seja realmente envolvente. Isso porque, em meio a uma história principal, pode haver centenas de tramas secundárias que fazem você se esquecer da missão supostamente importante que deveria estar seguindo.

Skyrim teve que sacrificar sua narrativa ao adotar uma escala gigantesca

Infelizmente, esse é um problema que permeia até mesmo games de qualidade, como Grand Theft Auto V ou The Elder Scrolls V: Skyrim. Após passar dezenas de horas roubando carros para revendê-los ou liberando cavernas em busca de itens poderosos, é natural esquecer que você tem uma dívida a pagar ou que deveria estar salvando o mundo de um dragão renegado.

Há exemplos — como The Witcher 3: Wild Hunt — que provam que não é preciso sacrificar uma história grandiosa em jogo com áreas gigantescas. No entanto, ainda são raros os casos de empresas como a CD Projekt RED que conseguem unir de maneira primorosa a liberdade de movimentos e ações com uma narrativa coesa.

6. Exploração forçada

Após mais de 200 horas em um jogo, não é normal haver áreas do mapa que não são exploradas — no entanto, isso pode acontecer com relativa facilidade em um jogo de mundo aberto. Ciente disso, muitos desenvolvedores introduzem missões que “forçam” o jogador a ir para áreas novas, mesmo que seus interesses imediatos passem longe disso.

Infelizmente, ainda é comum ser forçado a andar por todo um mapa (processo que pode levar um bom tempo) para cumprir um objetivo essencial ao prosseguimento da trama. Embora seja compreensível a intenção por trás dessas mecânicas, fato é que continua sendo muito mais agradável prosseguir por um jogo em ritmo próprio — por mais que isso signifique nunca ver alguns dos conteúdos oferecidos.

7. Falta de direcionamento

Poucas experiências são mais prazerosas que se perder em um universo repleto de elementos interessantes e missões a cumprir. No entanto, essa sensação pode se transformar rapidamente em desespero quando a liberdade oferecida é tanta que não há qualquer ideia de como fazer para progredir.

Xenoblade Chronicles X tem diversos momentos que deixam o jogador confuso

Um problema comum aos MMOs que é incorporado na estrutura de muitos jogos de mundo aberto é o fato de que muitos jogos falham miseravelmente em guiar o jogador. Embora as famosas flechas e ponteiros vistos em dezenas de games não sejam a solução ideal, elas ainda são melhores do que perder dezenas de horas andando por áreas claramente inadequadas a seu nível até descobrir que você deveria falar com um NPC específico para poder continuar se divertindo.

E para você, qual característica de jogos de mundo aberto é a mais irritante? Comente no Fórum do TecMundo.