2015 foi um ano de muitas emoções para quem acompanha o cenário profissional de Street Fighter. Em especial, este foi o ano em que o jogador Keoma Pacheco conseguiu algo inédito para o eSport brasileiro. Durante a Capcom Cup, ele chegou entre os oito melhores jogadores do mundo em Ultra Street Fighter IV.

Figura muito conhecida entre os competidores nacionais, Keoma teve a oportunidade de jogar e até vencer nomes conhecidos no mundo do Fighting Games, como Darryl "Snake Eyez" Lewis, patrocinado pela Red Bull, e Bruce "Gamerbee" Hsiang, apoiado pela Avermedia. No ano, o jogador inclusive fez uma turnê pela Europa, participando do campeonato da DreamHack Winter, realizado na Suécia.

O TecMundo e o TecMundo Games tiveram a oportunidade de conversar com Keoma durante o lançamento de Street Fighter V em Curitiba, organizado pela ICE em parceria com a Fnac. Na ocasião, o jogador profissional comentou sobre vários aspectos que ele passou nos últimos meses, como a participação no campeonato mundial da Capcom, sua rotina de treinos e o lançamento do novo título na famosa franquia de lutas.

Confira a entrevista completa logo abaixo.

TecMundo: Depois de toda a aventura que você viveu lá na Europa e depois na própria Capcom Cup, qual você acha que foi a experiência mais legal de toda essa participação?

Keoma Pacheco: Com certeza foi a Capcom Cup. O nível de produção e também o nível de habilidade dos jogadores foi incrível. 32 dos melhores jogadores do mundo, e todo mundo reunido em um lugar só. Sabe, dividir palco com tantos nomes grandes na PlayStation Experience.

Pra mim, que estava acostumado a jogar eventos de teor nacional e estadual, foi de repente que pude aparecer no meio dos melhores jogadores do mundo. E isso é indescritível. É algo que realmente demorou pra cair a ficha pra mim.

TecMundo: Tudo isso também abriu uma porta muito maior para as organizações de eSport investirem mais no cenário de Fighting Games. E isso incui você, que está na Team Innova. O que eles ofereceram pra você depois de toda essa conquista?

Keoma: Essa parte é realmente interessante porque eu não tinha tanto a perspectiva do que era ser parte de um time de eSports. O que acontece é que, graças a Team Innova, eu tenho todo o suporte necessário para seguir competindo em questão de equipamento, ajuda de custo e transporte. Todo campeonato que eu quiser participar eu posso entrar em contato com eles e ir sem problemas.

Eles estão dando todo o apoio que eu preciso para entrar no Street Fighter V e me tornar cada vez mais forte. Na verdade, a evolução será muito mais rápida graças a eles.

TecMundo: Agora, a Capcom Pro Tour teve uma remodelação bem grande e é mais separado em regiões. O que você achou desse formato?

Keoma: Eu acho bastante interessante porque, especialmente no caso da Capcom Pro Tour na América Latina, isso abrirá mais espaço para jogadores fora do Brasil. Apesar da comunidade ser forte por aqui, os jogadores da América Latina não tiveram a mesma oportunidade.

Tá certo que, apesar de termos a Brasil Game Show (BGS) no ano passado com inscrições abertas, a divulgação não foi muito boa e foi difícil para jogadores de fora do país se inscreverem. Mas, com a CPT na América Latina mais espalhada, isso dá a oportunidade de todo o talento latino americano ter a sua chance de brilhar. E isso não prejudica tanto o jogador de não participar de eventos fora do Brasil.

Agora, quem quiser participar da Capcom Cup tem que estar presente só aqui, ele tem que literalmente merecer a vaga, pois serão tantos eventos que chegarão em um torneio final que vai, aí sim, decidir os jogadores que vão pra Capcom Cup.

TecMundo: Você comentou um pouco sobre os talentos na América Latina e da sua viagem para o Peru. Como foi a sua experiência por lá?

Keoma: Bom, a viagem para o Peru foi até agora a primeira e única experiência na América Latina. Mas o nível lá é assustador. O pessoal lá tem uma boa noção do que faz. Por cima, eu também sei que temos muitos jogadores fortes no Chile.

E, agora com a Capcom Pro Tour mais espalhada, a gente vai poder conhecer mais esses jogadores. Aí sim podemos ver a diferença entre nós e os demais países.

TecMundo: Durante a Capcom Cup, a comunidade comentou muito do teu avanço sobre grandes nomes e como você mostrou que sempre podemos ter novos jogadores aparecendo e brilhando. Como você se sentiu nesse momento?

Keoma: De certa forma, eu fiquei muito contente porque o cenário competitivo estava muito repetitivo. Os nomes no top 8 eram praticamente os mesmos. Aqui no Brasil tínhamos o mesmo problema frequentemente. Estávamos com os mesmos nomes há uns três, quatro anos. Isso significa que só as mesmas pessoas evoluíram? Ou o interesse pelo jogo diminuiu?

Então, aparecer sangue novo na competição e pegar o top 8 é importante pro pessoal não desanime de ir tentar e fazer o mesmo. Seguir evoluindo pra querer estar lá. É muito importante que, independente de quem seja, ele traga a motivação para o jogador crescer.

A regra número um de qualquer Street Fighter é: não pule.

TecMundo: Qual você acha que foi o maior desafio de toda a sua participação lá fora?

Keoma: Essa é difícil.

Todos foram muito desafiadores, mas eu acho que a minha partida contra o Xian foi a mais difícil. Aos poucos, mesmo vencendo no placar, eu estava constantemente sentindo que estava perdendo o controle da partida. Cada vez eu me sentia mais pressionado mesmo vencendo porque eu percebia “cara, eu estou prestes a perder o controle da partida”. E se isso acontecesse, eu perderia.

É muito difícil retomar o controle a partir daí, então eu me tornei um pouco mais agressivo por causa desse tipo de pressão que eu senti. Não exatamente psicológica, mas de ver que o jogo dele era superior e que ele tava me alcançando.

Se formos colocar em termos de uma corrida, eu tive uma arrancada muito boa. Mas a final dele era com certeza melhor. Então tive que fazer alguma coisa pra chegar na frente antes que ele me alcançasse.

TecMundo: Você teve uma série de viradas em toda a sua campanha por lá. E muitos comentaram que os seus momentos foram uns entre os mais altos da Capcom Cup. Como era a emoção nesse momento?

Keoma: Na verdade, eu só estava pensando: “bem, agora ele tem muitas barras para o próximo round”. Eu não estava exatamente pensando “nossa, que virada incrível”. Quando você tá na partida, você não tem tempo pra pensar nisso. Você tem que analisar a situação e ver o que você tem para a próxima rodada.

Quando você começa a virada, você tem que ter o seu momento. Você tem que ter fé em ti. Você tem que acreditar no que tá fazendo porque, bem, a partir dali é tudo baixo risco. Qualquer coisa que aconteça, você morre. Então você pode correr pra recompensa e ignorar o risco porque ele sempre estará ali. É o momento do tudo ou nada. É a hora de fazer a aposta e simplesmente tomar a decisão que você acredita que seja a certa.

Por sorte, eu tomei as decisões certas e pude olhar para o próximo round e ver que estava na vantagem.

TecMundo: Agora você entende porque o Daigo aparenta ser tão frio durante as partidas?

Keoma: O Daigo só é frio por fora. E isso é dito por ele durante algumas entrevistas. O Daigo é um dos jogadores que eu mais me inspiro, sem sombra de dúvidas.

Apesar de eu ficar nervoso, eu desenvolvi alguns tipos de técnicas pra não deixar isso transparecer. E especialmente pra tentar aliviar um pouco a tensão e não deixar que eu erre graças ao nervosismo.

Tem muita tentativa e erro. Tem muita autocrítica no treino.

TecMundo: Falando nisso, como é a sua preparação fora das partidas?

Keoma: Na verdade, varia muito. Eu não tenho algo fixo. Eu simplesmente faço o que estou a fim de fazer. Obviamente, existe o comprometimento do jogador na hora da competição, mas antes dela vai muito de jogador para jogador.

Mas eu acredito que treinar muito intensamente antes do campeonato não seja algo bom. Dois dias antes do campeonato eu paro de jogar. Talvez eu retome para pegar o tempo de combos ou algo assim, mas eu geralmente eu não fico muito tempo online.

Eu sempre tento dar uma descontraída. Fazer com que as coisas tenham o menor peso possível na hora. Claro que você não consegue anular a importância de um campeonato mundial. Mas, na hora que você tá lá, você só pensa em fazer o melhor que puder.

TecMundo: Você estuda muito o jogo durante a sua preparação técnica. Eu mesmo já acompanhei alguns dos seus vídeos em que você volta nas suas partidas e analisa o que você fez de errado. O quanto você valoriza isso?

Keoma: Essa é a parte mais importante quando o jogador está familiarizado com o jogo, porque fica cada vez mais difícil perceber o que está errado. Isso requer um grau de concentração muito mais alto que simplesmente jogar.

Ou, quando você joga com um oponente forte, é normal ficar mentalmente cansado e isso acaba te inibindo de tomar a decisão certa. E um motivos de eu gravar todas as minhas partidas é: “como eu tomei isso daqui?” Ou ainda “porque eu tomei isso daqui?” Tudo tem um ponto inicial, e o ponto inicial pra sua derrota é quando você foi atingido.

Então o que você pode fazer pode fazer evitar ser atingido naquela situação? O que eu fiz de errado aqui? É o momento que você começa a rebobinar a fita e vê uma situação que acontece o tempo todo. E então é tentativa e erro. Talvez eu chame alguém online pra tentar reagir a isso. Tentar treinar a melhor decisão ou a melhor reação para isso.

Tem muita tentativa e erro. Tem muita autocrítica no treino.

TecMundo: Agora que a comunidade está vendo uma transição bem grande entre o Street Fighter IV e o Street Fighter V, o que você acha que será a grande diferença para os jogadores antigos e para os novatos?

Keoma: Os veteranos do Street Fighter IV vão ter alguns problemas por causa dos hábitos que o jogo traz pra ele, como por exemplo os “backdashes” (corrida para trás), que não são mais invencíveis no começo. Agora, eles são mais suscetíveis a “crush counters” e punições bem fortes, servindo só pra escapar de agarrões.

Falando em fugir de agarrões, não há mais um tipo de técnica do Street Fighter IV chamada “crouch-tech”, que era simplesmente fazer o comando do agarrão abaixado pra resultar em diversos comandos.

Com a ausência dele, isso pode fazer com que o jogador que o jogador de SFIV execute muito mais arremessos do que ele gostaria, e isso pode funcionar contra ele em técnicas como “frame traps”, que é quando você cria uma brecha intencional para o adversário achar que tem espaço. Se ele tentar agarrar naquele intervalo de tempo, também poderá tomar uma punição bem severa.

A gente não tem mais o “Focus Attack”, que eu acho a principal mudança porque ele te permitia de absorver um ataque de quase qualquer tipo e ignorar a aproximação do oponente. Agora, a conquista da abertura pro adversário está um pouco mais legítima nesse sentido, porque você não precisa mais se preocupar com o cara absorvendo um ataque na sua frente. Você tem muito mais confiança para apertar um botão na frente dele.

Tudo tem um ponto inicial, e o ponto inicial pra sua derrota é quando você foi atingido.

TecMundo: Estamos agora nas fases iniciais do Street Fighter V e o pessoal já pode dar uma olhada como que está o jogo competitivamente. Qual personagem você terá que tomar mais cuidado já nesse início?

Keoma: Inicialmente, eu acho que a Laura porque o potencial depois dela acertar o Bolt Charge fraco é ridiculamente alto. Isso força o oponente adivinhar a variação de um botão qualquer e o agarrão de comando. E essa situação se torna extremamente eficaz porque, quando o jogador toma a decisão errada, ele vai cair no mesmo "loop".

Eu acho que a Laura será um personagem bastante desafiador no começo porque ninguém estará habituado a grande quantidade de macetes que ela tem.

TecMundo: Muitos jogadores estão entrando agora no Street Fighter. Quais são as grandes dicas que um jogador novato deve seguir já neste começo?

Keoma: A regra número um de qualquer Street Fighter é: não pule. É um hábito que outros jogos podem trazer, mas em Street Fighter V acontece que, quando você pula, você também perde totalmente o controle do personagem. Você fica aberto a antiaéreos e uma série de outras coisas que um jogador experiente vai punir e tirar o controle da sua partida.

Não pule é a regra fundamental de qualquer Street Fighter. É algo que tem um alto risco e uma alta recompensa quando acerta, mas, quando abusado, se volta contra ti.