Pode ser que grande parte do público não admita, mas o consumo de conteúdos pornográficos na internet é um dos maiores responsáveis pela altíssima quantidade de dados que são trocados entre servidores e usuários todos os dias. Sites de downloads, páginas especializadas em fotografias ou vídeos adultos, redes sociais e canais de streaming fazem essa engrenagem girar a todo instante.

Você fazia ideia de que uma única empresa é responsável pelos maiores sites especializados nesse tema? É verdade... Uma única companhia detém os direitos e acumula o tráfego das páginas mais acessadas do mundo pornográfico. Afinal de contas, quem é essa empresa e o que ela representa para a indústria da internet e da produção adulta? É o que você logo vai descobrir. Porém, antes, segue uma pequena contextualização.

Pornô online e a crise da indústria

Por muitos anos, o mercado pornográfico era abastecido pelas pequenas videolocadoras que existiam nas cidades — as famosas “locadoras de bairro”. Separadas por cortinas nada discretas, as seções de vídeos adultos faziam sucesso em grande parte dos estabelecimentos desse tipo, atraindo homens e mulheres de todas as idades. No entanto, os ganhos desse mercado começaram a declinar com o surgimento das “Blockbusters”.

Separadas por cortinas nada discretas, as seções de vídeos adultos faziam sucesso em grande parte das locadoras

O nome é bem conhecido dos brasileiros: as locadoras trabalhavam com grandes franquias e foram responsáveis por acabar com grande parte das “locadoras de bairro” ao redor do mundo. Junto com isso, a indústria pornô viu a sua primeira grande crise, uma vez que as grandes redes não trabalhavam com volumes tão altos de conteúdo adulto — afastando bastante o consumidor do produto final.

Para fugir desse cenário nada promissor, alguns anos depois muitas produtoras partiram para o mercado online. Trabalhando com conteúdo pago e premium, boa parte dessas empresas começou a elevar seus lucros novamente e conseguiu se sustentar, mas não demorou para que um novo tipo de ameaça surgisse para afundar mais uma vez as finanças da produtoras.

Estamos falando dos conhecidos sites de streaming de vídeos. Com uma gigantesca gama de conteúdos amadores e um volume ainda maior de pirataria, o segmento roubou muitos consumidores dos sites de conteúdos pagos e também do que restava nas locadoras. E quem está por trás disso tudo?

O poder da MindGeek

O nome “MindGeek” não remete a nada que seja pornográfico. O site da empresa também não — pois apenas fala sobre o poder dos sites que são gerenciados e sobre a quantidade de impressões que os anúncios veiculados neles representam. Apesar disso, é sabido que a holding é dona de alguns dos maiores sites de streaming de pornografia do mundo, incluindo YouPorn, Pornhub, Tube8, XTube, RedTube, ExtremeTube e SpankWire.

De acordo com a página do MindGeek, isso representa mais de 100 milhões de visitantes todos os dias. Especialistas em tráfego de dados online afirmam conteúdos pornográficos representam 35% das transmissões do mundo — sendo que quase 30 mil usuários estão acessando conteúdo desse tipo a cada segundo. Somando o alto tráfego e a influência da MindGeek, é possível inferir que há muito dinheiro envolvido.

E a pirataria?

Assim como acontece no YouTube, o conteúdo presente nos sites pornográficos pode ser enviado por produtoras e também por usuários — e é esse tipo de upload que gera o maior volume de informações para os serviços. E como você deve imaginar, uma enorme quantidade desses materiais está bem longe de respeitar as leis de direitos autorais de qualquer parte do mundo.

Por causa disso, nos últimos anos os sites da MindGeek abriram uma seção especialmente dedicada ao controle do DMCA — permitindo que donos dos direitos autorais entrem em contato com os sites para que os materiais protegidos sejam excluídos do serviço de streaming. Tudo parece muito simples, não é mesmo? Mas a realidade é bem diferente.

Excluir um vídeo é fácil, mas enviá-lo de novo também. Quando isso é referente a um vídeo muito procurado, mais fácil ainda. Fora isso, existe uma questão bastante complexa que mostra ainda mais o domínio da MindGeek no mercado internacional: o monopólio da empresa vai muito além da execução dos vídeos em streaming digital para os usuários.

Dinheiro de todos os lados

Você já viu que a MindGeek cuida dos maiores sites. Também já soube que ela é responsável por grande parte do tráfego de dados da internet mundial. Logo, você pode imaginar que os anúncios veiculados nos sites da empresa fazem com que muito dinheiro de publicidade vá para a conta da MindGeek. E sabe para onde foi parte dos recursos obtidos nisso tudo? Para a aquisição de produtoras.

De acordo com o TorrentFreak, a MindGeek investiu pesado na compra de produtoras de conteúdo digital. Isso inclui Brazzers, Digital Playground, Mofos, MyDirtyHobby e Twistys, que também são algumas das maiores fornecedoras de conteúdo para os sites controlados pela mesma empresa. Você pode até pensar que isso acaba fechando o ciclo da pirataria, mas outra vez a realidade é bem diferente.

Ninguém quer falar sobre o assunto

Atores e atrizes que participam de vídeos criados para o mercado online recebem também pelo alcance de seus trabalhos. O problema é que os materiais pirateados não contam para esse pagamento. Mas como denunciar uma empresa por pirataria (na não retirada de vídeos do ar) se é o dinheiro conseguido a partir da pirataria que permite que os salários sejam pagos (ainda que menores do que o devido)?

Ainda de acordo com o TorrentFreak, há muitas atrizes que evitam falar sobre o assunto. Uma fonte não identificada revelou ao site: “Alguns me chamam de hipócrita por trabalhar para a MindGeek, mas, como atriz, boicotar essas companhias não vai tirar nenhum tempo, dinheiro ou nada deles. Se eu disser ‘não’, ainda existem centenas de outras loiras que aceitarão o trabalho”.

Se eu disser ‘não’, ainda existem centenas de outras loiras que aceitarão o trabalho

Com isso, a MindGeek continua fazendo mais e mais dinheiro. A empresa vende conteúdos Premium para um público, entrega pirataria para outro e recebe ainda mais pelos anúncios veiculados nesse mercado. Com cada vez mais poder econômico, o monopólio que a companhia possui sobre transmissão, produção e controle do mercado pornográfico só aumenta.

O Brasil é afetado?

Boa parte dos tópicos abordados aqui neste artigo também puderam ser vistos na indústria pornô brasileira ao longo dos anos — ascensão nas videolocadoras, declínio com a chegada das grandes franquias, volta por cima com os conteúdos Premium e outra derrocada por causa dos serviços de streaming. Muitas das produtoras brasileiras não aguentaram o tranco e fecharam as portas nesse processo.

Hoje, uma das únicas companhias que continuam no mercado é a Brasileirinhas, que foi obrigada a se reinventar para não encerrar as atividades. Na metade da década passada, a empresa ganhou muitos fãs ao levar celebridades da mídia convencional para o mundo pornográfico com salários altíssimos para os padrões brasileiros. Hoje, sobrevive com 14 sites de conteúdo pago.

Como mostrado pelo site Motherboard, a MindGeek também afeta a produtora brasileira. Replicando muitos dos conteúdos produzidos pela Brasileirinhas, os sites de streaming são grandes rivais do sucesso da empresa nacional. A própria Brasileirinhas sabe que vencer essa batalha é praticamente impossível e, por isso, adotou uma tática voltada a controle e minimização de danos.

A produtora possui duas funcionárias que são responsáveis pela localização e denúncia de pirataria nos sites de streaming. Elas vão em busca de conteúdos protegidos da Brasileirinhas e pedem a retirada dos materiais — o que resulta em cerca de 1,5 mil derrubadas de vídeos por dia. Esse é um trabalho difícil, mas que é vital para ajudar os estúdios a continuar funcionando.

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