A sinistra verdade sobre os teletransportes

A tecnologia parece muito bonita na ficção, mas a realidade, como sempre, é bem mais complicada.
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Por Felipe Demartini em 19 de Janeiro de 2012

Quem nunca se pegou pensando no quanto seria bom se o teletransporte realmente existisse? Quando se está atrasado em meio a um trânsito caótico e parado ou naqueles momentos em que sentimos saudades de alguém que está longe, uma tecnologia desse tipo viria bem a calhar. Afinal de contas, quem não gostaria de viajar muitos quilômetros em poucos segundos e chegar ao outro lado sem cansaço?

A ideia do teletransporte é um dos pilares fundamentais da saga “Jornada nas Estrelas”. Utilizada pelos exploradores intergalácticos do seriado para os mais diversos fins, a tecnologia gerou até mesmo um jargão clássico, o “Beam me up, Scotty”, proferido tantas vezes pelo Capitão Kirk.

Apesar de parecer uma ideia extremamente útil e maravilhosa, capaz de resolver os problemas de transporte e facilitar a vida da humanidade, a aplicação dela no mundo real é bem mais complexa. A ideia envolve ainda implicações tecnológicas, logísticas e, por que não, filosóficas.

Organismo não é tão simples quanto pensa

Vamos começar do princípio. O teletransporte não consiste apenas em transportar um corpo de um ponto a outro do espaço. Não se trata apenas de braços, pernas, cabeça e órgãos internos. Temos também milhares de microrganismos que não necessariamente fazem parte do nosso DNA, mas estão dentro do nosso corpo e auxiliam no funcionamento normal do organismo e em sua proteção. Ou não.

Estamos falando, por exemplo, da flora intestinal e outras bactérias que nos ajudam em nossa batalha diária por sobrevivência ou estão simplesmente repousando em nosso corpo. Além delas, outros milhões de microrganismos estão no ar a todo momento, flutuando calmamente por aí. Uma máquina de teletransporte, então, teria que lidar com todas estas formas de vida diferentes ao mesmo tempo, e um cálculo errado poderia resultar em catástrofe.

A sinistra verdade sobre os teletransportes (Fonte da imagem: Divulgação / Fox)

É o caso, por exemplo, do filme “A Mosca”, no qual um cientista faz um experimento desse tipo e acaba fundido com um inseto, transformando-se em uma horrenda criatura. Tudo por um erro simples: a máquina não soube o que fazer com os dois organismos e os interpretou como um só. O resultado disso é um terror, literalmente.

Uma solução seria catalogar todos os tipos de bactérias que poderiam, de alguma forma, estar presentes no corpo, e diferenciá-las daquelas que estão apenas no ar. Algo que nem mesmo a ciência conseguiu até hoje...

Um zilhão de kilobytes!

Um dos princípios básicos do teletransporte é a transformação do indivíduo em informação, que seria transferida para outro local e utilizada para recompô-lo. É preciso, então, de espaço para armazenar todos esses dados. E acredite, nenhum HD é grande o bastante para isso.

A sinistra verdade sobre os teletransportesData center do Facebook, nos EUA (Fonte da imagem: Tento Aprender)

Vamos supor que toda a informação contida em um único átomo do nosso corpo seja o suficiente para ocupar uma página inteira de um documento. Partindo dessa concepção, o total necessário para armazenar todos os dados do organismo seria de cerca de 909 milhões de gigabytes. Mais do que, por exemplo, o utilizado pelo Facebook para guardar todas as informações sobre seus usuários. E tudo isso ocupado por apenas um único indivíduo. Não vamos nem falar sobre o espaço físico e poder de refrigeração necessários para que tudo isso funcione.

Chegamos então a mais uma questão prática. Por mais rápida que seja sua internet, com certeza você já ficou impaciente ao baixar um arquivo daqueles mais pesadões. Nem mesmo a conexão mais rápida do mundo seria capaz de transferir o volume de dados de uma pessoa instantaneamente, exigindo pelo menos algumas horas de espera. É claro que a tendência é que as velocidades de conexões aumentem, mas, ainda assim, imaginar uma banda de 909 milhões de GBps é algo absurdo.

Há ainda um último ponto: as interferências que podem interromper ou sujar o sinal emitido. Estamos suscetíveis a elas o tempo todo. Seja pela chuva que causa chuviscos em sua TV ou pela radiação solar e cósmica que nosso planeta recebe constantemente, pedaços do seu corpo poderiam se perder pelo caminho, resultando em bizarrices inimagináveis na hora da remontagem do indivíduo.

De olho na conta de luz

A sinistra verdade sobre os teletransportes

O corpo humano é uma verdadeira usina elétrica. Enquanto você lê este artigo, está produzindo e gastando energia. Suas unhas estão crescendo, seu cérebro está funcionando, você está se mexendo e inúmeras funções estão ocorrendo ao mesmo tempo. Tudo isso está consumindo energia, mas o lado bom é que você não precisará pagar uma conta de luz por isso.

Isso não é válido, porém, para os operadores de teletransporte, que gastarão incontáveis unidades de energia para reconstituir seu corpo. Cientistas da atualidade já são capazes de, com milhares de raios em um acelerador de partículas, criar alguns microgramas de antimatéria. Porém, nem mesmo toda a energia do Sol seria suficiente para recriar um corpo completamente. Sendo assim, o teletransporte torna-se praticamente inviável.

Para ser transportado, o corpo do indivíduo também deve ser transformado em energia. Uma quantidade absurda de energia, muito maior que o poder de uma bomba atômica, e capaz de gerar uma explosão de milhares de quilômetros. Não existe material ou método capaz de conter tamanha potência.

É você, mas não exatamente

A sinistra verdade sobre os teletransportes

Teletransportar algo é, basicamente, transformar o corpo em informação e levá-lo para outro lugar. A grande questão, porém, é que o indivíduo resultante do processo, apesar de idêntico em forma de conteúdo, não é o original. O ser primário, que nasceu do ventre de uma mãe, foi vaporizado e não existe mais. O resultante é uma cópia.

Entra aí toda uma questão filosófica: será que o indivíduo que saiu da máquina de teletransporte é realmente o mesmo que entrou nela? O que define um ser humano como “verdadeiro”? A consciência, a alma, as células ou átomos que constituem o corpo? Como provar que a pessoa continua a mesma?

Apesar disso tudo, uma verdade é certa: você morreu a partir do momento em que foi transformado em meros dados sendo transportados por uma rede. Torça bastante para que o processo funcione e você saia como uma cópia idêntica do outro lado.

Dados violados

Os motivos citados até agora impossibilitam completamente a transformação do teletransporte em realidade. Mas vamos supor que a humanidade tivesse passado por cima de todas essas barreiras e realmente obtido sucesso na ideia. Quem garante que os dados dos seres humanos seriam invioláveis?

Se manipuladas, as informações genéticas, mentais e físicas dos seres teletransportados poderiam servir para possibilidades infinitas. Pensando pelo lado do bem, seria possível, por exemplo, trabalhar os dados em computador para acabar com células cancerígenas, tratar doenças apenas deletando seus focos ou realizar cirurgias instantâneas.

Um transplante, por exemplo, poderia ser realizado sem incisão, apenas substituindo os dados do órgão original pelos de um novo. Plásticas também se tornariam bem mais rápidas, bastando apenas alterar o tamanho do nariz ou dos seios no computador.

A sinistra verdade sobre os teletransportesTeleport "fail" em Star Trek (Fonte da imagem: Divulgação / Paramount)

Porém, as mesmas hipóteses também podem ser utilizadas por pessoas nada bem intencionadas. Criminosos procurados poderiam mudar completamente de aparência e sexo apenas com um teletransporte, enquanto desafetos poderiam ser assassinados sem rastros, com um simples pressionar do botão “Delete” na pasta que armazena seus dados. Um verdadeiro mercado negro de informações sobre seres humanos se formaria.

Ainda, a espionagem seria facilitada com o acesso total a memórias e conhecimentos do indivíduo. Memórias poderiam ser apagadas ou inseridas sem que o teletransportado tivesse ideia do que houve. E o mundo viveria uma era em que nada mais poderia ser real.

É, acho que é melhor aprendermos a conviver com a saudade e o trânsito...



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