Teclepatia: seu cérebro pode fazer mais do que pensar

Até o momento, a ciência não confirma a existência de fenômenos paranormais, como a telepatia e a telecinesia. Mas com a ajuda da tecnologia, qualquer um pode se tornar Uri Geller.
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Por Felipe Arruda em 7 de Fevereiro de 2012

Teclepatia: seu cérebro pode fazer mais do que pensarNo futuro, dispositivos eletrônicos ajudarão a ler o pensamento de outras pessoas

A telepatia sempre foi muito bem explorada pela ficção. São muitos os personagens de filmes e histórias em quadrinho que podem se comunicar apenas com o poder da mente, sem a necessidade de usar as cordas vocais ou de inserir um SIM card no cérebro.

No mundo real, o assunto tem sido objeto de estudos e experimentos realizados por estudiosos do mundo todo. Para a comunidade científica, telepatia não existe, e a parapsicologia é apenas mais uma pseudociência. Mas independentemente disso, há pesquisas e avanços muito concretos na área de “leitura do pensamento”, tanto que isso acabou dando origem a uma nova área: a teclepatia ou telepatia sintética.

A ideia por detrás dessas palavras é simples: usar a tecnologia para ler o pensamento de seres humanos, por meio, por exemplo, de computadores conectados aos miolos de alguém. A mesma técnica também pode ser usada para habilitar o dom da telecinesia, ou seja, a capacidade de mover objetos com o “poder da mente”. E se depender de cientistas e engenheiros, tudo isso está cada vez mais acessível.

Cientistas e a máquina de ler pensamento

Pesquisadores da Universidade de Berkeley, na Califórnia, divulgaram recentemente um feito incrível: foram capazes de reconstruir sons a partir das atividades elétricas ocorridas no córtex auditivo humano. Não ficou claro? Pois a gente explica.

Fisicamente, as atividades cerebrais, como o pensamento, se dão na forma de pequenas ondas elétricas que se espalham pelo cérebro humano em questão de milissegundos. Mas essas atividades elétricas também funcionam como uma espécie de código, soando de maneira diferente e em regiões determinadas de acordo com a atividade realizada pela pessoa.

No caso da pesquisa de Berkeley, os cientistas focaram nas atividades que acontecem em uma região conhecida como córtex auditivo, responsável, como você já deve ter imaginado, por detectar informações sobre os sons que ouvimos. Tendo isso em mente, fica mais fácil entender o experimento.

Transformando ondas cerebrais em áudio

Teclepatia: seu cérebro pode fazer mais do que pensarTomografia da cabeça com eletrodos de um dos voluntários (Fonte da imagem: Adeen Flinker, UC Berkeley)

Imagine que um pianista esteja assistindo ao vídeo ― sem áudio ― de outro músico tocando piano. Mesmo sem ouvir a música que está sendo executada, é provável que o pianista possa imaginar como ela soa, apenas observando os dedos do músico sobre as teclas do instrumento.

É dessa forma que Brian Pasley, coautor do estudo, exemplifica sua pesquisa. Porém, a situação foi um pouco mais complexa e envolveu o posicionamento de 256 eletrodos sobre o cérebro de 15 pessoas.

E é claro que ninguém, em sã consciência, acorda com disposição para ter o crânio perfurado e servir de cobaia para a ciência. Os corajosos voluntários dessa pesquisa foram pacientes com epilepsia que já seriam submetidos a uma cirurgia para o tratamento de convulsões que podiam ser controladas com remédios. Pasley visitou cada um deles no hospital e gravou a atividade cerebral detectada pelos eletrodos, enquanto os voluntários ouviam uma conversa que durava de 5 a 10 minutos.

Depois disso, dois métodos computacionais foram usados para tentar reconstruir as palavras que os pacientes ouviram.  É possível escutar o resultado no vídeo acima. Primeiro, ouve-se uma das seguintes palavras sendo pronunciada normalmente: “Waldo”, “structure”, “doubt” ou “property”. Em seguida, o vídeo demonstra como o áudio foi resgatado a partir de cada um dos métodos.

O futuro da teclepatia

Stephen Hawking poderia voltar a se comunicar com a Teclepatia

Stephen Hawking poderia ter seus pensamentos convertidos em voz sintetizada (Fonte da imagem: Stephen Hawking)

Além da possibilidade extravagante de criarmos máquinas de telepatia, esse tipo de pesquisa pode devolver a voz a pessoas que sofrem de paralisia ou de doenças degenerativas que afetaram a habilidade de se comunicar. Os indícios para isso se baseiam em evidências de que atividades cerebrais semelhantes a essas também acontecem quando simplesmente pensamos em uma palavra.

Dessa forma, de acordo com Pasley, seria possível sintetizar o som daquilo que a pessoa está pensando ou simplesmente escrever as palavras por meio de uma interface que fosse capaz de converter esses sinais em texto. Além disso, a pesquisa também está ajudando os cientistas a entenderem melhor o cérebro, em especial a maneira como as pessoas representam e processam os sons da fala.

Telecinesia ao alcance do seu bolso

Teclepatia: seu cérebro pode fazer mais do que pensarMindWave: o dom da telecinesia por apenas US$ 99 (Fonte da imagem: NeuroSky)

Se conhecemos bem a cabeça de vocês, leitores do Tecmundo, é provável que os mais curiosos possam ter ficado empolgados com a possibilidade de explorar ou estudar as próprias atividades cerebrais. Isso seria muito divertido, não fosse um porém: grosso modo, os métodos existentes até o momento envolvem equipamentos hospitalares caríssimos ou métodos cirúrgicos que não devem ser realizados por amadores.

Mas existem algumas alternativas preparadas pela indústria para o consumidor final. Um dos “neurogadgets” mais famosos é o MindWave, uma espécie de headset capaz de ler as ondas cerebrais da sua cabeça e usá-las como forma de interagir com games e aplicativos para PC e Mac. Na prática, é como se você comprasse uma máquina de eletroencefalograma muito moderna e que custa menos de US$ 100.

Um dos pontos positivos do MindWave é que ele dispensa o uso de gel e dezenas de eletrodos. Toda a leitura cerebral é feita por meio de um único sensor. E os jogos que podem ser controlados pelo poder da mente parecem ser bem divertidos. Há, inclusive, um game de zumbi, em que o objetivo é evitar que o morto-vivo coma seus miolos com uma colher. Para isso, o jogador precisa entortar o talher com o poder da mente.

Em relação aos aplicativos, muitos deles são voltados para o aperfeiçoamento da concentração e do intelecto por meio de puzzles e exercícios mentais. Há também algumas opções para quem gosta de meditar, com apps que monitoram e registram o nível de relaxamento de uma pessoa. Além disso, também existem softwares para a plataforma capazes de registrar as atividades da sua “cuca” de maneira semelhante a um exame clínico.

Recorde: um carro movido com o poder da mente

Teclepatia: seu cérebro pode fazer mais do que pensarCarro foi movido por guindaste controlado pelo MindWave (Fonte da imagem: Agcranes)

E não são apenas games que podem ser controlados com o poder do MindWave. Em abril de 2011, o “brinquedo” foi o responsável por mais uma façanha registrada pelo Guinness, o livro dos recordes: a mais pesada das máquinas já movimentada com o uso de uma interface de controle cerebral.

Na ocasião, o MindWave foi utilizado para operar um guindaste de 61 toneladas que, por sua vez, movimentou um carro com a ajuda de um ímã gigante. A façanha foi realizada pelo The Gadget Show, um programa da televisão britânica com foco em avanços da tecnologia. Tudo o que o apresentador precisou fazer para operar o guindaste foi se concentrar e piscar seus olhos.

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E então? Pronto para ser o novo paranormal da vizinhança? Na Wikipedia você também encontra uma tabela comparativa com os dados técnicos de outros dispositivos semelhantes ao MindWave. Basta escolher o produto, desembolsar uma grana e usar o poder do pensamento positivo para evitar que a encomenda seja parada pela Receita.



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