Smart Grid: a rede elétrica inteligente

A revolução digital vai mudar nossa forma de consumir, distribuir e produzir energia. Redes elétricas mais inteligentes saem do papel e chegam até nós, não na velocidade da luz, mas vão chegar.
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Por Camila Camargo em 29 de Outubro de 2009

O surgimento da eletricidade foi uma das maiores invenções do homem. Com ela, foi possível produzir mais, viver melhor e inventar mais coisas. A internet, por exemplo, tem tudo a ver com eletricidade, pois assim como a energia que você recebe em sua casa, ela também chega por meio de redes de transmissão.

O sociólogo Manuel Castells em seu livro Galáxia da Internet, traça uma analogia interessante entre internet e eletricidade, pois para ele “a tecnologia da informação é hoje o que a eletricidade foi na Era Industrial, em razão de sua capacidade de distribuir a força da informação por todo o domínio da atividade humana”. Contudo, as formas de distribuição da Internet evoluíram muito, o que não aconteceu com os métodos de distribuição da energia elétrica.

É fato que a cada dia mais equipamentos elétricos chegam às residências de milhares de pessoas em todo o mundo, pois há 50 anos as casas, em sua maioria, só abrigavam uma geladeira, um rádio e, em algumas exceções, uma TV ou um chuveiro elétrico. Hoje a situação é muito diferente, visto que além daqueles equipamentos, temos um computador, DVD, micro-ondas, cafeteira elétrica e mais um monte de gadgets.

Não é preciso pensar muito para saber que estamos caminhando para o caos energético, como o que ocorreu em 1999 em nosso país. Além disso, a necessidade de diminuir ou consumir com mais inteligência os recursos do planeta está causando movimentação em diversos países – inclusive nos EUA, um dos maiores consumidores de energia do mundo.
A nova rede inteligente

A maneira como a distribuição de energia é feita é arcaica na visão de muitos especialistas,  dependemos muito de uma única fonte geradora e, caso ela falhe, toda rede fica sem abastecimento. Além disso, o formato de medição do consumo nem sempre é justo com o consumidor final, já que com medidores defasados – analógicos – e um batalhão de pessoas passando de casa em casa para a coleta de dados, a probabilidade de erros é grande.

Por isso, há uma proposta mundial de criação de uma rede de energia inteligente, também conhecida como Smart Grid, uma ideia para melhorar o consumo de energia.A Smart Grid
A lógica da Smart Grid está em uma palavra: inteligência. Isso que dizer que as novas redes serão automatizadas com medidores de qualidade e de consumo de energia em tempo real, ou seja, a sua casa vai conversar com a empresa geradora de energia e, em um futuro próximo, até fornecer eletricidade para ela. A inteligência também será aplicada no combate à ineficiência energética, isto é, a perda de energia ao longo da transmissão.

Inteligência na rede

De acordo com a IBM, 14,7% do total da energia produzida no Brasil é dissipada no processo de distribuição. Além disso, o furto de energia (famoso “gato”) deve ser diminuído, mais precisão nas medições de consumo e funções adicionais como identificação de falhas à distância são algumas novidades desta nova rede.O que muda?
Como você sabe, o modelo de distribuição é defasado, se a luz cair na sua casa é preciso ligar para a empresa de energia e pedir que eles venham até você para reparar a falha. Como a Smart Grid é uma rede inteligente, assim que a pane ocorrer, a empresa geradora sabe onde aconteceu a queda de energia e em poucos minutos pode mobilizar funcionários para realizarem o conserto. A comunicação de mão dupla entre sua casa e a operadora, sensores ao longo de toda a rede, controle e automatização do consumo residencial são algumas das mudanças que ocorrerão.
Primeiro passo
O primeiro passo para se chegar a toda esta maravilha do consumo energético precisa ser dado na sua casa. Isso mesmo, para que toda essa comunicação inteligente aconteça, seu medidor de energia precisa ser substituído. Há anos um medidor analógico é usado nas casas, desta forma um modelo digital precisa ser introduzido para que haja maior controle por parte da geradora de energia e do consumidor. Estes novos medidores terão chips e se conectarão à internet para transmitir dados.  

O problema é que isso vai demorar um pouco para acontecer, pois de acordo com a ANEEL (Agência Nacional de Energia Elétrica) há, aproximadamente, 65 milhões de medidores analógicos no país. A regulação dos modelos digitais ainda nem saiu do papel, mas a previsão é que em no máximo dez anos todos os medidores sejam substituídos. Além da mudança de leitores, toda a infraestrutura de captação de dados provenientes destes aparelhos precisa ser criada ou aprimorada, pois sem isso não há como medir o consumo ou detectar problemas.

O ciclo da nova rede

Faixas de consumo
Em uma consulta pública realizada em 03 de setembro de 2009, a ANEEL propôs uma nova forma de tarifação de energia. Assim como é feito nos serviços de telefonia, faixas de valores diferenciados serão criadas para fomentar o consumo de eletricidade fora dos horários de picos. Com estas faixas, as empresas de energia podem cobrar mais pela eletricidade usada no horário comercial e menos durante a madrugada, por exemplo.

Com esta medida, busca-se a criação do hábito do consumo consciente no consumidor e evitar panes ou blecautes. Entretanto, para este sistema funcionar, os medidores digitais precisam estar em operação para que seja possível fazer a diferenciação de valores e horários.

Medidor digital e o analógico

Cidade modelo
Há vários lugares onde as Smart Grids estão em testes. Um destes é a cidade de Boulder, no estado do Colorado (EUA), onde o consórcio Xcel Energy vem testando mecanismos para potencializar o uso de energia. Formas tradicionais e emergentes de produção de eletricidade estão sendo avaliadas em algumas residências para verificar a eficiência deste tipo de rede. No vídeo a seguir (em inglês), a rede de notícia ABC visita algumas residências de Boulder e é possível identificar o que pode mudar com as redes inteligentes.

Sustentabilidade

Além de inteligência, outra palavra que tem tudo a ver com Smart Grid: sustentabilidade. Isso porque, uma das novidades nesta nova rede de energia é o consumidor-produtor. A descentralização da produção de energia é uma das propostas das redes inteligentes, sendo assim, qualquer um pode produzir energia e armazenar ou vender o excedente. Muito se fala em energia eólica e solar e estas formas sustentáveis de produção podem estar na sua casa, contribuindo para que sua fatura de luz diminua.  

A cidade inteligente

Aparelhos conscientes
Com todas estas possibilidades a tendência é que até os eletrodomésticos se tornem mais inteligentes. Em breve será possível programar a máquina de lavar roupas para funcionar somente nos horários em que a energia é mais barata. Além disso, com a medição inteligente é possível saber quanto cada aparelho consome mensalmente, algo quase impossível hoje em dia.

Por meio de um site ou software, você pode acompanhar diariamente o gasto energético do seu video game ou da geladeira nova e saber com precisão, quanto vai custar a fatura de energia no fim do mês. Até os carros podem servir como provedores de energia, pois em momentos em que o custo por KW for mais alto, a energia armazenada nas baterias do veículo pode servir como fonte de eletricidade para sua casa.

Casa do futuro

Empresas inteligentes
Para que tudo isso aconteça alguém precisa produzir novos equipamentos, instalar medidores inteligentes, sensores e toda a demanda de infraestrutura. De olho em um mercado que tem previsão de movimentar 20 bilhões de dólares, empresas como IBM, Cisco, Landis+Gyr, Intel, GE e até a Google estãoRedes de energia limpa de olho no volume de investimentos que serão feitos no setor de energia. Além das empresas, alguns países, como os EUA, estão bem avançados neste assunto, ainda mais após o pacote de incentivos de US$ 3,4 bilhões lançado por Barack Obama no dia 27 de outubro de 2009.
PLC: a internet via eletricidade

As histórias da internet e da transmissão de energia são realmente muito parecidas, tanto que há projetos e testes em andamento para permitir a transmissão de dados pela rede de energia elétrica. Como esta rede alcança quase 95% do território nacional, a possibilidade de que pessoas que vivam em lugares remotos tenham acesso à web aumenta exponencialmente. De acordo com a ANEEL, A PLC (Power Line Communication) ou Comunicação por Linha de Energia permite, em tradução livre,  a utilização da rede elétrica como meio de transporte para a comunicação analógica e sinais de internet.
E o preço?

Aparentemente, o Smart Grid é uma boa tecnologia para todos. E isso é verdade. Apesar de parecer que as empresas de energia vão perder com a possibilidade de produção doméstica pelo próprio consumidor, outros fatores fazem com que as concessionárias também ganhem. O combate às perdas energéticas e redução de furtos são dois temas que permitem às empresas continuar ganhando. O que precisa ser observado é o custo de implantação dos medidores eletrônicos e de toda a rede de dados, pois só os medidores custam, em média, mais de duzentos reais. O preço é inteligente?

Contudo, a possibilidade de se ter mais informações e alternativas de consumo por parte do usuário final é atraente. Ao ter mais informações sobre o gasto energético será possível controlar melhor as despesas e evitar sustos no final do mês.

Mas o principal ponto das Smart Grids é o apelo ambiental, já que muito do desperdício será diminuído. A busca por formas alternativas de produção de energia também é um dos combustíveis das Smart Grids, tendo em vista que diversos tratados ambientais são discutidos todos os anos.

Há ainda alguns entraves na produção doméstica de energia por meio de fontes sustentáveis. Para gerar energia com a luz do Sol, placas precisam sem instaladas em telhados. O problema é que elas custam caro e ocupam um espaço físico considerável, além de demandar equipamentos para armazenamento do que foi produzido.

Smart Grid: a rede elétrica inteligente

Faz quase cem anos que Thomas Edison inventou a lâmpada. O sistema de distribuição de energia pouco mudou desde aquele período, mesmo com o fato de que a humanidade nunca crescer tanto nos últimos 25 anos. A população aumentou e as cidades se desenvolveram mais do que as redes de energia. Já passou da hora de se pensar em novas possibilidades e formas de aprimorar a geração, distribuição e consumo de eletricidade. A rede inteligente está chegando e, mesmo longe de alcançar a velocidade da luz, ela desponta como uma saída para o círculo vicioso que a humanidade entrou.

Leitor colaborador: Elizeu rosa de oliveira



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